Em 2005 eu fui pela primeira vez à Bahia. Aportei inicialmente em Ilhéus e depois em Salvador, uma terra linda. Não sei como as pessoas podem reclamar de morar lá. Eu adorei, principalmente porque conheci um rapaz muito engraçado, de óculos de astes vermelhas e um sotaque diferente. Parecia que não era de lá.
Mas era. Eu sou surda e ele cego; vocês já podem imaginar como era difícil me comunicar com ele. Zé adorava conversar e contar casos para um monte de gente, mas justo eu, que gostei tanto dele, não podia ouvir uma palavra sequer. Fico emergida na minha imensidão calada, presa em meus pensamentos e no que vejo.
Desde que nos conhecemos, nós trocamos cartas. Como ele perdeu a visão ao longo da vida, ainda restava-lhe um pouco de habilidade para escrever. A grafia de Zé era terrível, mas quem liga? Eu ficava apreensiva esperando as cartas chegarem. Elas nunca foram muito freqüentes porque eu viajo muito e fica difícil precisar quando estarei em determinado local. Mas nós tentamos. E foi assim que eu comecei a receber correspondências dele. Primeiro na Argélia, depois na Argentina, Estados Unidos, Guatemala e muitos outros lugares. Eu gosto quando ele descreve o terminal.
O terminal na visão dele é um zoológico humano, cheio de entidades vivas com histórias de vida das mais estranhas possíveis. Ou não, a normalidade da vida delas é que as torna tão peculiares e diferentes. Eu prefiro pensar assim, embora Zé não concordasse comigo. Ele defendia uma história do início ao fim sem mudar uma vírgula sequer, e não gostava que quem quer seja ficasse fazendo confabulações filosóficas. Eu então deixo para mim mesmo.
Nesse verão então foi minha oportunidade de vê-lo. A única em anos. Eu confesso que não sei como ele soube da minha chegada, mas, para minha surpresa, a minha surpresa foi em vão. No dia que eu aportei em Salvador fui direto ao terminal marítimo. Lá estava ele, sentado em seu banco de madeira, sozinho, mas com cabelos penteados e algo embrulhado nas mãos. Ainda fiquei uns minutos observando Zé de longe, com toda sua inquietude, mas também com sua elegância de sempre. Gelei, e confesso que não sei por quê.
O encontro foi ótimo e tranqüilo, com muitas dificuldades na comunicação. Preferimos simplesmente ficar sentados, um ao lado do outro, observando quem passava. Essa, aliás, era a tarefa preferida dele e eu sabia porque já me havia contado por carta. E me contou muitas histórias, que enfim eu pude ver naquele dia no terminal.
Olhei para todos os lados à procura de Luzia, a lavadeira. Não vi ninguém com a descrição que ele me deu. Procurei também Geraldo, o homem das mil sacolas que entregava a um monte de gente. Nenhum sinal. O que dizer então de Memé e os vários travestis que Zé achava bonitos? Nada. Homens do cais eu até vi, mas nenhum com a opulência e a brutalidade de Alemão. Foi até um pouco frustrante, mas nada que abalasse a minha admiração por Zé.
Hoje, no dia do seu enterro, eu entendo perfeitamente tudo que lhe consumia, tudo que lhe corria pela mente e tudo que lhe movia. Lendo a última carta que ele me enviaria – ficou pronta e endereçada, mas não chegou a mandar – mais fatos ficaram claros. Luzia era sua mãe, mulher batalhadora e forte que não poupava esforços para dar o melhor aos filhos. Geraldo era o tio, que também foi importante na vida do rapaz, sempre presente nas horas mais inglórias, assim como o primo Memé, que sabia muito das coisas porque lia enciclopédias encontradas no lixo. Os travestis formavam o imaginário do rapaz porque existia um bordel cheio deles ao lado da casa da família de Zé. E Alemão era o pai, sim, um pai distante e cheio de mistérios, mas que nem por isso Zé deixava de nutrir um carinho especial.
Não, ele não disse isso na última carta. Eu é que sou ousada o bastante para tentar ver o mundo como só ele conseguia.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Dois Sentidos
Sentado nesse banco de madeira eu vejo muita gente. A maioria eu até conheço, mas poucos falam comigo. O pessoal do terminal passa geralmente muito rápido, muito mais preocupados com o que vão encontrar do outro lado. Na verdade, sempre sabem; e esse é o problema.
Eu vendo coxinhas e outros salgados no terminal. Suco. Tem suco também, mas sempre tem uns desavisados que perguntam se tem refrigerante. Não, não tem refrigerante. Os sucos dependem da estação, mas também tem sempre uns desavisados que perguntam pelos sucos mais absurdos possíveis. Não vendo isso. Eu vendo esses salgados gordurosos que tapam o buraco do estômago de estranhos em busca de refeições para saciar de verdade a fome.
Daqui eu vejo muitos passarem. Tem a Luzia, uma lavadeira negra e forte que cruza o mar todo dia para lavar roupa na cidade alta. Primeiro ela pega o Ferry Boat* em Vera Cruz, passa 40 minutos chacoalhando no mar, salta aqui no terminal, anda mais uns 15 minutos, sobe o Elevador Lacerda, anda mais uns 40 minutos e chega ao local de trabalho. A volta é o caminho inverso, exaustivo, mas ela sempre tem tempo de passar por aqui na lanchonete e comprar uma carteira de cigarro. Eu acho que ela fuma uma carteira por dia. É muito.
Muito mesmo é o número de sacolas que Geraldo traz semanalmente nas mãos. É impossível precisar quantas, já que elas se amontoam de uma maneira incrível e se misturam num balé mambembe. Ele distribui algumas para os camelôs do terminal e segue viagem em direção à ilha, qual eu não sei. Segue sempre com um sorriso no rosto, a camisa aberta no peito e dezenas de santinhos pendurados. Eu acho que ele é um homem de fé, como se dizem.
É engraçado que Memé não deixa de vir aqui pelo menos uma vez na semana. Roda o terminal todo, analisa cada vendedor, cada segurança... E roda mais um pouco. Depois de horas nesse ciclo, ele senta do lado de alguém vendendo café e toma um atrás do outro. Fala de trivialidades cotidianas e carros. Pela aparência, parece que nunca entrou num carro, mas fala deles com uma propriedade magnífica. Um dia até eu fiquei ouvindo ele comparar os carros antigos com os de hoje, potência de motor, arrancada, freios e tudo mais. Eu acho que ele lê revistas do gênero.
O balaio de gêneros é grande por aqui. Vejo sempre travestis e outras figuras andróginas em busca de gringos, e isso acontece muito no verão. Cruzam mais do lado de lá da ilha, vindo cá para Salvador sedentos por sexo. Artur – creio que seja o nome dele – é um deles. Faz todo o caminho se rebolando e chega até enganar alguns homens desavisados. É realmente bonita, artisticamente falando. Uma vez parou aqui e comprou duas coxinhas, um quibe e dois copos de suco. Devorou tudo em menos de 5 minutos, numa voracidade só comparada aos homens do cais. Eu acho que esse é o único lado masculino dela.
Os homens do cais, aliás, são muitos. Eles vêm e vão, se misturam na multidão que na maioria das vezes não dá nem para diferenciar. São altos e fortes, obviamente, mas nenhum comparado ao negro Alemão, apelido ganho num trocadilho com a sua cor. Come geralmente três coxinhas, arrota, cospe no chão e puxa o cigarro. Depois de acender, olha para os lados e chama alguma mulher de gostosa. Eu só acompanho com os olhos o ritual do rapaz, que sempre se esquece do suco. Eu aviso, mas ele diz: “põe na conta. Um dia eu vou cobrar, categoria”. Eu acho mesmo que um dia ele vem cobrar.
A sexta-feira é o dia mais cheio. À noite, sempre por volta das 19h, eu sempre avisto Verdade. Ele é alto, mas tão alto que tem pernas descomunais de tão grande, o contrário da mentira, que tem pernas curtas. Sempre apressado, Verdade carrega uma sacola na mão e um ramalhete de flores na outra. Olhando de longe, ele faz o tipo marido modelo, mas já ouvi histórias das mais cabeludas a respeito dele. Dizem que as flores são para mulheres diferentes, que ele tenta agradar num bordel em Itaparica. Outros dizem que é para a esposa, que fica na ilha enquanto ele trabalha em Salvador durante a semana. Eu acho mesmo que Verdade deve fazer jus ao seu nome.
Nome mesmo de grande valor e peso na Bahia tem um velho gordo e de bigode que passa por aqui em muitos fins de semana do ano. O ritual dele é sempre parar na frente do terminal e tomar uma cerveja, enquanto fala ao celular. Depois, entra no terminal com sua maleta e uma sacola, balançando para lá e para cá, arreia os fardos no chão e pede um risole de camarão. Se ele soubesse de onde vem esse camarão, duvido que voltasse a comer. Nem eu sei. Eu escolho o mais velho e borrachudo, mas o velho gordo nunca reclama. Deve ter dor de barriga todo fim de semana, mas duvido que descubra que é devido ao camarão estragado. Ele come demais. Além daqui, ainda vai no crepe de Dona Maria e no churros de Seu Evaldo. Eu acho que no caminho ainda come um pouco mais.
E lá de longe eu vejo um navio grande apitar. Nessa época do ano, em janeiro, alguns cruzeiros internacionais cruzam mares e ondas mundo afora e aportam aqui. Alguns são corriqueiros, como esse que acabo de ver aportar perto daqui. É azul. O mesmo de todos os anos. Nele a minha esperança.
Sentado nesse banco de madeira eu vejo muita gente. Eu vejo na minha mente, porque sou cego. No navio que chega agora, eu deposito minhas esperanças de rever uma amiga linda e de olhos verdes. Só ela me entende; é surda.
Eu vendo coxinhas e outros salgados no terminal. Suco. Tem suco também, mas sempre tem uns desavisados que perguntam se tem refrigerante. Não, não tem refrigerante. Os sucos dependem da estação, mas também tem sempre uns desavisados que perguntam pelos sucos mais absurdos possíveis. Não vendo isso. Eu vendo esses salgados gordurosos que tapam o buraco do estômago de estranhos em busca de refeições para saciar de verdade a fome.
Daqui eu vejo muitos passarem. Tem a Luzia, uma lavadeira negra e forte que cruza o mar todo dia para lavar roupa na cidade alta. Primeiro ela pega o Ferry Boat* em Vera Cruz, passa 40 minutos chacoalhando no mar, salta aqui no terminal, anda mais uns 15 minutos, sobe o Elevador Lacerda, anda mais uns 40 minutos e chega ao local de trabalho. A volta é o caminho inverso, exaustivo, mas ela sempre tem tempo de passar por aqui na lanchonete e comprar uma carteira de cigarro. Eu acho que ela fuma uma carteira por dia. É muito.
Muito mesmo é o número de sacolas que Geraldo traz semanalmente nas mãos. É impossível precisar quantas, já que elas se amontoam de uma maneira incrível e se misturam num balé mambembe. Ele distribui algumas para os camelôs do terminal e segue viagem em direção à ilha, qual eu não sei. Segue sempre com um sorriso no rosto, a camisa aberta no peito e dezenas de santinhos pendurados. Eu acho que ele é um homem de fé, como se dizem.
É engraçado que Memé não deixa de vir aqui pelo menos uma vez na semana. Roda o terminal todo, analisa cada vendedor, cada segurança... E roda mais um pouco. Depois de horas nesse ciclo, ele senta do lado de alguém vendendo café e toma um atrás do outro. Fala de trivialidades cotidianas e carros. Pela aparência, parece que nunca entrou num carro, mas fala deles com uma propriedade magnífica. Um dia até eu fiquei ouvindo ele comparar os carros antigos com os de hoje, potência de motor, arrancada, freios e tudo mais. Eu acho que ele lê revistas do gênero.
O balaio de gêneros é grande por aqui. Vejo sempre travestis e outras figuras andróginas em busca de gringos, e isso acontece muito no verão. Cruzam mais do lado de lá da ilha, vindo cá para Salvador sedentos por sexo. Artur – creio que seja o nome dele – é um deles. Faz todo o caminho se rebolando e chega até enganar alguns homens desavisados. É realmente bonita, artisticamente falando. Uma vez parou aqui e comprou duas coxinhas, um quibe e dois copos de suco. Devorou tudo em menos de 5 minutos, numa voracidade só comparada aos homens do cais. Eu acho que esse é o único lado masculino dela.
Os homens do cais, aliás, são muitos. Eles vêm e vão, se misturam na multidão que na maioria das vezes não dá nem para diferenciar. São altos e fortes, obviamente, mas nenhum comparado ao negro Alemão, apelido ganho num trocadilho com a sua cor. Come geralmente três coxinhas, arrota, cospe no chão e puxa o cigarro. Depois de acender, olha para os lados e chama alguma mulher de gostosa. Eu só acompanho com os olhos o ritual do rapaz, que sempre se esquece do suco. Eu aviso, mas ele diz: “põe na conta. Um dia eu vou cobrar, categoria”. Eu acho mesmo que um dia ele vem cobrar.
A sexta-feira é o dia mais cheio. À noite, sempre por volta das 19h, eu sempre avisto Verdade. Ele é alto, mas tão alto que tem pernas descomunais de tão grande, o contrário da mentira, que tem pernas curtas. Sempre apressado, Verdade carrega uma sacola na mão e um ramalhete de flores na outra. Olhando de longe, ele faz o tipo marido modelo, mas já ouvi histórias das mais cabeludas a respeito dele. Dizem que as flores são para mulheres diferentes, que ele tenta agradar num bordel em Itaparica. Outros dizem que é para a esposa, que fica na ilha enquanto ele trabalha em Salvador durante a semana. Eu acho mesmo que Verdade deve fazer jus ao seu nome.
Nome mesmo de grande valor e peso na Bahia tem um velho gordo e de bigode que passa por aqui em muitos fins de semana do ano. O ritual dele é sempre parar na frente do terminal e tomar uma cerveja, enquanto fala ao celular. Depois, entra no terminal com sua maleta e uma sacola, balançando para lá e para cá, arreia os fardos no chão e pede um risole de camarão. Se ele soubesse de onde vem esse camarão, duvido que voltasse a comer. Nem eu sei. Eu escolho o mais velho e borrachudo, mas o velho gordo nunca reclama. Deve ter dor de barriga todo fim de semana, mas duvido que descubra que é devido ao camarão estragado. Ele come demais. Além daqui, ainda vai no crepe de Dona Maria e no churros de Seu Evaldo. Eu acho que no caminho ainda come um pouco mais.
E lá de longe eu vejo um navio grande apitar. Nessa época do ano, em janeiro, alguns cruzeiros internacionais cruzam mares e ondas mundo afora e aportam aqui. Alguns são corriqueiros, como esse que acabo de ver aportar perto daqui. É azul. O mesmo de todos os anos. Nele a minha esperança.
Sentado nesse banco de madeira eu vejo muita gente. Eu vejo na minha mente, porque sou cego. No navio que chega agora, eu deposito minhas esperanças de rever uma amiga linda e de olhos verdes. Só ela me entende; é surda.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Turismo Sexual
Eu já falei mais ou menos desse tema, porém é difícil não retornar a ele. A inquietação vem do fato que eu, e muitos dos meus leitores, vivem a realidade no cotidiano. Nosso verão é marcado por festas e o velho mito da alegria baiana, num momento em que se esquece de tudo para dar aos turistas tudo que eles querem: sexo.
Eu estava até conversando com um amigo essa semana sobre o valor do sexo na nossa sociedade. É demasiado, só para encurtar a conversa. Tudo desemboca no casamento e relações amorosas que, no final das contas, dá no sexo. É só pensar naquela mulher chata do seu trabalho, que vive enchendo o saco com perguntas ou trabalhos sem a mínima necessidade. A conclusão da maioria é que ela é mal comida. Ora, nós baianos pensamos assim e me envergonha até que em muitos casos eu corroborei com essa assertiva.
Pois aqui o sexo é o centro do nosso turismo. Se em décadas passadas a valorização era do bem-estar e da tranqulidade (preguiça para os sulistas), hoje o apelo é sexual. O que seriam então o carnaval e as festas do verão? Volto a lembrar: você que não conhece o verão de Salvador desconhece o que estou dizendo. É um negócio que, se analisado de uma maneira fria como estou fazendo, dá nojo. Todos os olhos, ouvidos e bocas estão concentrados na satisfação sexual dos outros. Tem que ter festa, tem que ter vida noturna diária e envolvente, tem que ter mulher. O turista não vem a Salvador atrás de cultura e tranqüilidade – isso ele faz indo a alguns destinos do nosso Litoral Norte -, vem sim atrás de putaria, com todas as letras que o diabo gosta.
É estranho porque parece que essa é uma opinião xenófoba, e eu odeio xenofobismo. Não, é uma opinião calcada na realidade. Nossa cidade (incluo até outros destinos da Bahia, como Porto Seguro e região) está virando um puteiro no verão. Um puteiro legitimado e apregoado por boa parte da sociedade jovem local, sedenta por coxas e vaginas. Puteiro é uma coisa ruim? De forma alguma, mas o que estamos vivendo é uma exarcebação da significação do termo e uma enraização da putaria pura e simples.
A esperança mora na mente daqueles que pensam a cultura local. Elogiei aqui e continuo elogiando, mas falta agora tomar as rédeas também do verão, dominado pelo hedonismo puro, barato e turístico.
É, estou meio azedo esses dias. Lembro-me agora de uma frase do grande Cláudio Assis: “faço porque dói”.
Eu estava até conversando com um amigo essa semana sobre o valor do sexo na nossa sociedade. É demasiado, só para encurtar a conversa. Tudo desemboca no casamento e relações amorosas que, no final das contas, dá no sexo. É só pensar naquela mulher chata do seu trabalho, que vive enchendo o saco com perguntas ou trabalhos sem a mínima necessidade. A conclusão da maioria é que ela é mal comida. Ora, nós baianos pensamos assim e me envergonha até que em muitos casos eu corroborei com essa assertiva.
Pois aqui o sexo é o centro do nosso turismo. Se em décadas passadas a valorização era do bem-estar e da tranqulidade (preguiça para os sulistas), hoje o apelo é sexual. O que seriam então o carnaval e as festas do verão? Volto a lembrar: você que não conhece o verão de Salvador desconhece o que estou dizendo. É um negócio que, se analisado de uma maneira fria como estou fazendo, dá nojo. Todos os olhos, ouvidos e bocas estão concentrados na satisfação sexual dos outros. Tem que ter festa, tem que ter vida noturna diária e envolvente, tem que ter mulher. O turista não vem a Salvador atrás de cultura e tranqüilidade – isso ele faz indo a alguns destinos do nosso Litoral Norte -, vem sim atrás de putaria, com todas as letras que o diabo gosta.
É estranho porque parece que essa é uma opinião xenófoba, e eu odeio xenofobismo. Não, é uma opinião calcada na realidade. Nossa cidade (incluo até outros destinos da Bahia, como Porto Seguro e região) está virando um puteiro no verão. Um puteiro legitimado e apregoado por boa parte da sociedade jovem local, sedenta por coxas e vaginas. Puteiro é uma coisa ruim? De forma alguma, mas o que estamos vivendo é uma exarcebação da significação do termo e uma enraização da putaria pura e simples.
A esperança mora na mente daqueles que pensam a cultura local. Elogiei aqui e continuo elogiando, mas falta agora tomar as rédeas também do verão, dominado pelo hedonismo puro, barato e turístico.
É, estou meio azedo esses dias. Lembro-me agora de uma frase do grande Cláudio Assis: “faço porque dói”.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
É verão, sei lá...
“... dá uma vontade louca de se dar...”. Calma, isso é apenas o trecho de uma pérola do axé music que retrata perfeitamente o atual momento da cidade. Aliás, eu poderia escrever esse texto sobre o verão soteropolitano e replicá-lo nos próximos anos. Mais uma vez calma: temos salvação.
Os tambores já começaram a se aquecer em meados de novembro. Para quem não sabe, a indústria do axé se apropriou de uma prática carioca, a dos ensaios. É, se lá no Rio de Janeiro as tradicionais escolas de samba fazem ensaios periódicos, os artistas da música baiana também fazem os dele. E são muitos. Como eu disse, começaram já no longínquo novembro, mas vem se arrastando e crescendo a cada dia. Se você, caro leitor, pousar hoje em Salvador, terá uma vasta opção da fauna de bandas e artistas da terra. Tem de todos os tipos.
Se eu falei bem da cultura baiana em 2008 (elegi no top 10 melhores fatos do ano), parece que no verão a situação se inverte. É complicado. Os turistas ainda veem à cidade em busca de diversão hedonista – tema esse que tratarei em outro post, isto é, falarei do turismo sexual na cidade. Não adianta ter um programa cultural mais apurado, uma peça mais elaborada ou um show de artistas desconhecidos. O povo quer o velho axé, o novo pagode e muita cerveja e mulher de graça. E é justamente isso que eles encontram.
Os ensaios, portanto, pululam pela cidade. De segunda à segunda a programação é vasta. Eu me perguntava onde é que o soteropolitano arranjava dinheiro para ir a tantas festas, já que custam cerca de 50% a mais que em outras épocas do ano. A resposta é simples: o povo local não tem dinheiro, quem tem são os turistas. Mas, mente questionadora, quem lota os shows são só turistas? Não, incauto. Não! Esses ensaios entopem de gente, mesmo com valores exorbitantes, que já é rica, que gasta dinheiro o ano todo, mas que sozinha não sustentaria essa quantidade de eventos o ano todo. E quem completa? Isso mesmo, sabidão, os turistas. Digamos que existe uma razão perfeita de 50% baianos e 50% turistas. Equação exata.
Porém, o pior de tudo (pois é, ainda tem coisa pior...) é que bandas e artistas de nenhuma expressão, nem mesmo local, surgem “do nada” e começam a lotar shows nos lugares mais inusitados. Turista vai porque não conhece nada mesmo, isto é, 50% da lotação está garantida e aí os soteropolitanos sedentos por carne nova vão também. Fechou.
A minha opinião sobre o axé music muitos já conhecem, ou se não conhece por favor clique no link indicado. Só para resumir: o estilo acabou, pois passaram-se anos e nada, eu disse, absolutamente nada mudou musicalmente nem socialmente. O pagode – outro tema que dá um belo post – reinventou-se e criou um novo esquema cultural e musical aqui em Salvador.
Se tem uma coisa positiva nisso tudo é que a indústria carnavalesca sabe ganhar dinheiro. Enquanto muitos empresários do país lutam para vender CDs, os locais criaram um mercado extremamente rico e vantajoso. Maior exemplo disso tudo é uma pesquisa que saiu no Jornal da Metrópole, veículo local ligado a uma rádio, em que 75% dos outdoors no verão são de faculdades e festas. “Sigam-me os bons?”.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Os piores momentos de 2008 na Bahia
Fecharei o ano com a eleição dos piores e melhores momentos daqui da terrinha. Ao longo desse ano muita coisa ruim aconteceu, mas também muita coisa boa. Ou não, basta ver por diferentes ângulos. Porém, procurei enumerar aqui fatos importantes para o bem e para o mal. Hoje os piores, amanhã os melhores. Que 2009 fique com os últimos.
1 – Eleição para prefeito
Muito se falou e se discutiu, mas no final das contas o mesmo prefeito ruim foi eleito. Típica eleição em que ninguém que você conhece votou no cara, mas ele conseguiu se eleger. Agora serão mais 4 anos de trapalhadas, roubalheiras e otários descontentes.
2 – Violência atinge números alarmantes
É meio clichê falar sobre isso, mas a violência em Salvador e na Bahia está atingindo números preocupantes. Por exemplo, só esse ano mais de 30 policiais foram assassinados, o que dá uma dimensão catastrófica da situação.
3 – Morre Dorival Caymmi
Uma pena, mas o artífice da cultura baiana do século XX se foi.
4 – A praga dos novos apartamentos
É incrível como 2008 foi o ano do boom dos apartamentos e construções luxuosas, aquelas em que tem de tudo dentro do condomínio. Fomos bombardeados com toneladas de folhetos e horas de anúncios na TV. Só quero saber mesmo onde estão esses ricos de Salvador.
5 – O Axé Music continua o mesmo
Vocês devem achar que eu sou besta em esperar alguma coisa da axé music, mas não é isso. O estilo que consagrou a Bahia no Brasil nos últimos 20 anos realmente não se renovou e continua na mesmice imbecil de Ivete Sangalo.
6 – Série “Ó Paí Ó”
Não bastasse o filme, a série veio com tudo de ruim: cenas mal feitas, personagens fora da realidade e histórias fracas.
7 – PMDB x PT
Uma briga idiota que começou na eleição municipal pode mudar completamente os rumos das eleições presidenciais de 2010. Não sei porque está aqui, mas achei, por algum motivo, que poderia ser um momento ruim.
8 – Emos invadem (definitivamente) a cidade
É uma praga que infelizmente temos que aceitar, porque se formos agir pelo instinto...
9 – Esporte Clube Bahia
Se essa lista tivesse uns 10 anos de vida com certeza o Bahia seria o recordista de aparições. Em 2008, esteve em nenhum lugar e foi pra lugar nenhum. Patético.
10 – Crise mundial atinge Salvador
Querendo ou não, a tal crise mundial chegou com tudo, tanto é que o Natal foi mais fraco e vários setores da economia local ainda sofrem as conseqüências.
Top 10 piores momentos de 2009 na Bahia
1 – Eleição para prefeito
Muito se falou e se discutiu, mas no final das contas o mesmo prefeito ruim foi eleito. Típica eleição em que ninguém que você conhece votou no cara, mas ele conseguiu se eleger. Agora serão mais 4 anos de trapalhadas, roubalheiras e otários descontentes.
2 – Violência atinge números alarmantes
É meio clichê falar sobre isso, mas a violência em Salvador e na Bahia está atingindo números preocupantes. Por exemplo, só esse ano mais de 30 policiais foram assassinados, o que dá uma dimensão catastrófica da situação.
3 – Morre Dorival Caymmi
Uma pena, mas o artífice da cultura baiana do século XX se foi.
4 – A praga dos novos apartamentos
É incrível como 2008 foi o ano do boom dos apartamentos e construções luxuosas, aquelas em que tem de tudo dentro do condomínio. Fomos bombardeados com toneladas de folhetos e horas de anúncios na TV. Só quero saber mesmo onde estão esses ricos de Salvador.
5 – O Axé Music continua o mesmo
Vocês devem achar que eu sou besta em esperar alguma coisa da axé music, mas não é isso. O estilo que consagrou a Bahia no Brasil nos últimos 20 anos realmente não se renovou e continua na mesmice imbecil de Ivete Sangalo.
6 – Série “Ó Paí Ó”
Não bastasse o filme, a série veio com tudo de ruim: cenas mal feitas, personagens fora da realidade e histórias fracas.
7 – PMDB x PT
Uma briga idiota que começou na eleição municipal pode mudar completamente os rumos das eleições presidenciais de 2010. Não sei porque está aqui, mas achei, por algum motivo, que poderia ser um momento ruim.
8 – Emos invadem (definitivamente) a cidade
É uma praga que infelizmente temos que aceitar, porque se formos agir pelo instinto...
9 – Esporte Clube Bahia
Se essa lista tivesse uns 10 anos de vida com certeza o Bahia seria o recordista de aparições. Em 2008, esteve em nenhum lugar e foi pra lugar nenhum. Patético.
10 – Crise mundial atinge Salvador
Querendo ou não, a tal crise mundial chegou com tudo, tanto é que o Natal foi mais fraco e vários setores da economia local ainda sofrem as conseqüências.
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008
O estereótipo do roqueiro baiano: uma noite no Pelô
Não, eles não são emos. Até poderiam ser confundidos como tal, mas não são. Em Salvador existem muitos emos, mas (graças a Deus) eles freqüentam shows vespertinos. O caso que apresento é de outros tipos de roqueiros. É aquele típico da Bahia, que calça coturno, veste camisa preta de banda e desfila com longos cabelos ao vento. E é aquele também que dificilmente veste camisa de banda (está fora de moda), arruma-se cuidadosamente e usa o cabelo milimetricamente desarrumado. É a nova onda indie de Salvador.
E eles estão por todas as partes. Essa semana eu presenciei um encontro deles num dos pontos mais visitados da capital. O Pelourinho foi palco de um show que reunia três das mais destacadas bandas independentes do país, duas delas as queridinhas do circuito indie brasileiro. O nome delas pouco importa aqui, pois o desfile de moda, comportamento e ousadia é o que fala mais alto.
Era 17h quando eu avistei a enorme fila que se formava em frente ao local do show. Evento (bom) à R$2 é raro, então não faltou gente interessada. Posicionei-me estrategicamente no final da fila e, já prevendo a enorme demora que seria aquilo ali, comecei a observar a reunião de indies soteropolitanos. Eles são ingênuos, porque acham que a moda e o comportamento do eixo-sul-indie-paulista é o que há de mais moderno nesse mundo. E não é. Não faltaram meninas bonitas com o rosto coberto por franjas e chapéus a lá Mallu Magalhães. Aliás, essa foi a mais copiada da noite. Só na fila eu avistei três, e um grupinho de meninotes se alvoroçou quando viu uma cidadã tão magra e decrépita quanto Amy Winehouse.
Os homens também não ficam atrás. Tinha um (insuportável, por sinal) copiando o estilo Peter Doherty, sem ter a mínima idéia do que é heroína e os efeitos que ela causa no seu “ídolo”. Os grupinhos se formavam em hordas histéricas, sempre pondo fofoquinhas em dia e confabulando quem iria dormir na casa de quem. Alguns tentavam se animar com um Ipod em pleno Pelô, talvez ouvindo alguma banda obscura de Teresina ou Alabama.
O mais latente era perceber que durante a semana eles não são assim. Visivelmente desengonçados mas ao mesmo tempo felizes como porcos na lama, eles se fantasiam para ir à festa, numa maneira quase que circense de se auto-afirmar através do som e da moda. Tirando uma banda baiana, as outras duas (ótimas, por sinal) emulavam um estilo completamente fora dos nossos padrões, o que é ótimo se você souber filtrar e se comportar como você mesmo. Mas não. Os indiezinhos estavam mais preocupados com o cabelo ou a bolsa da moda.
Não faltaram all stars multi-coloridos, presilhas de cabelo modernosas, bolsas pop art, calças xadrez, cabelos estilosos e muita histeria em torno dos nomes indies. Eu era um perdido e me sentia como tal. Na fila, sozinho, olhava para os lados à procura de um semelhante. Avistei apenas uma senhora, igualmente perdida e acompanhando seu filho (com típicos adornos indie, como óculos de aro grosso e camisa xadrez apertada), que trazia inteligentemente uma cadeira armável. Armou numa esquina e passou a apreciar a fila, ao mesmo tempo em que batia um papo amigável com dois policiais. Eu devia ter feito o mesmo...
Pior é que tentei ser indie. Ingenuidade minha achando que me misturaria á horda apenas empunhando meu all star standart preto. Eu era o mais démodé. Os indies soteropolitanos me olhavam indiferentes, me taxando de “loser”, como se eles fossem os queridinhos do colégio. Porra, tudo cambada de babaca que toma porrada de pagodeiro na escola. É, porque ali, naquele show, 70% eram de meninos espinhosos recém-saídos do segundo grau e se achando os donos do mundo por prestar vestibular para Sociologia na UFBA.
Ainda na fila, já de saco cheio, avistei cerca de 10 homens de preto descendo a ladeira. Quando se aproximaram, percebi que faziam parte da galera “old school” do rock baiano, os famosos metaleiros. Achei estranho, mas logo entendi quando eles passaram furiosos pelo meio da fila, provocando medo e descontentamento de alguns indies, e seguiram em frente, descendo outra ladeira. Soube que ali perto haveria também um show de Death Metal. Um deles, calçando coturno, vestindo camisa de banda e desfilando com longos cabelos ao vento, falou com ar de desdém logo após cruzar a fila: “Um monte de fã do Los Hermanos”. Na mosca.
P.S.: os shows foram do Móveis Coloniais Acaju, Vanguart e Cascadura.
E eles estão por todas as partes. Essa semana eu presenciei um encontro deles num dos pontos mais visitados da capital. O Pelourinho foi palco de um show que reunia três das mais destacadas bandas independentes do país, duas delas as queridinhas do circuito indie brasileiro. O nome delas pouco importa aqui, pois o desfile de moda, comportamento e ousadia é o que fala mais alto.
Era 17h quando eu avistei a enorme fila que se formava em frente ao local do show. Evento (bom) à R$2 é raro, então não faltou gente interessada. Posicionei-me estrategicamente no final da fila e, já prevendo a enorme demora que seria aquilo ali, comecei a observar a reunião de indies soteropolitanos. Eles são ingênuos, porque acham que a moda e o comportamento do eixo-sul-indie-paulista é o que há de mais moderno nesse mundo. E não é. Não faltaram meninas bonitas com o rosto coberto por franjas e chapéus a lá Mallu Magalhães. Aliás, essa foi a mais copiada da noite. Só na fila eu avistei três, e um grupinho de meninotes se alvoroçou quando viu uma cidadã tão magra e decrépita quanto Amy Winehouse.
Os homens também não ficam atrás. Tinha um (insuportável, por sinal) copiando o estilo Peter Doherty, sem ter a mínima idéia do que é heroína e os efeitos que ela causa no seu “ídolo”. Os grupinhos se formavam em hordas histéricas, sempre pondo fofoquinhas em dia e confabulando quem iria dormir na casa de quem. Alguns tentavam se animar com um Ipod em pleno Pelô, talvez ouvindo alguma banda obscura de Teresina ou Alabama.
O mais latente era perceber que durante a semana eles não são assim. Visivelmente desengonçados mas ao mesmo tempo felizes como porcos na lama, eles se fantasiam para ir à festa, numa maneira quase que circense de se auto-afirmar através do som e da moda. Tirando uma banda baiana, as outras duas (ótimas, por sinal) emulavam um estilo completamente fora dos nossos padrões, o que é ótimo se você souber filtrar e se comportar como você mesmo. Mas não. Os indiezinhos estavam mais preocupados com o cabelo ou a bolsa da moda.
Não faltaram all stars multi-coloridos, presilhas de cabelo modernosas, bolsas pop art, calças xadrez, cabelos estilosos e muita histeria em torno dos nomes indies. Eu era um perdido e me sentia como tal. Na fila, sozinho, olhava para os lados à procura de um semelhante. Avistei apenas uma senhora, igualmente perdida e acompanhando seu filho (com típicos adornos indie, como óculos de aro grosso e camisa xadrez apertada), que trazia inteligentemente uma cadeira armável. Armou numa esquina e passou a apreciar a fila, ao mesmo tempo em que batia um papo amigável com dois policiais. Eu devia ter feito o mesmo...
Pior é que tentei ser indie. Ingenuidade minha achando que me misturaria á horda apenas empunhando meu all star standart preto. Eu era o mais démodé. Os indies soteropolitanos me olhavam indiferentes, me taxando de “loser”, como se eles fossem os queridinhos do colégio. Porra, tudo cambada de babaca que toma porrada de pagodeiro na escola. É, porque ali, naquele show, 70% eram de meninos espinhosos recém-saídos do segundo grau e se achando os donos do mundo por prestar vestibular para Sociologia na UFBA.
Ainda na fila, já de saco cheio, avistei cerca de 10 homens de preto descendo a ladeira. Quando se aproximaram, percebi que faziam parte da galera “old school” do rock baiano, os famosos metaleiros. Achei estranho, mas logo entendi quando eles passaram furiosos pelo meio da fila, provocando medo e descontentamento de alguns indies, e seguiram em frente, descendo outra ladeira. Soube que ali perto haveria também um show de Death Metal. Um deles, calçando coturno, vestindo camisa de banda e desfilando com longos cabelos ao vento, falou com ar de desdém logo após cruzar a fila: “Um monte de fã do Los Hermanos”. Na mosca.
P.S.: os shows foram do Móveis Coloniais Acaju, Vanguart e Cascadura.
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008
O bom-mocismo do verão
Não me espanta mais o bom-mocismo do verão. Baiano que é baiano fica mais legal, mais interessante e mais aberto à felicidade no verão. Estação do sol de rachar e do sexo pairando pelo ar, quem mais se dá bem por aqui são os turistas.
Tenho lá minhas restrições aos turistas em Salvador. Ninguém me convence que eles vêm para cá pra passear pelo Pelourinho, tomar água de coco na Lagoa do Abaeté ou apreciar a mistura de raças do carnaval. Não. Os gringos diriam: “bullshit” para tudo isso. Eles querem é foder. O turismo daqui, e acredito que em grande parte do Nordeste, é eminentemente sexual, muito com a anuência de nós baianos. Somos os bons moços do sexo alheio; somos o arroz, aquele que só serve para acompanhar. Ou Queiroz, o famoso “traz mulher pra nós”.
Nossa conduta de dezembro a fevereiro é completamente diferente da conduta do resto do ano. Aceitamos pacificamente qualquer estrangeiro de “binga branca cheia de pele” (juro que já ouvi isso) que venha atrás das nossas vaginas negrinhas (e aí não vai nenhum tipo de preconceito, é bom que se diga). É normal. Todos estamos acostumados, e se você tentar fugir um pouco dessa linha de procedimento, é logo taxado de chato e mal educado. É como se os gringos tivessem que ser mais bem tratados que nós mesmos, que vivemos aqui o ano todo sofrendo todas as agruras de ser o que somos.
Turista é ótimo porque ativa a economia e não aprovo nenhum tipo de xenofobia, mas aqui em Salvador nós somos os otários da balança. Vestimos uma roupa de mito do bom-moço que não nos pertence. Não, baiano não é hospitaleiro. Não, baiano não é bem educado. Na realidade do dia a dia, somos mal educados, chatos, encrenqueiros e arrogantes. Não ajudamos ninguém, não pensamos num futuro melhor nem muito menos lutamos pelo bem da nossa própria cidade.
Mesmo assim não fique triste, caro morador de outra localidade que não a Bahia. Não há melhor lugar no mundo para se ser turista do que Salvador. Não mesmo.
Tenho lá minhas restrições aos turistas em Salvador. Ninguém me convence que eles vêm para cá pra passear pelo Pelourinho, tomar água de coco na Lagoa do Abaeté ou apreciar a mistura de raças do carnaval. Não. Os gringos diriam: “bullshit” para tudo isso. Eles querem é foder. O turismo daqui, e acredito que em grande parte do Nordeste, é eminentemente sexual, muito com a anuência de nós baianos. Somos os bons moços do sexo alheio; somos o arroz, aquele que só serve para acompanhar. Ou Queiroz, o famoso “traz mulher pra nós”.
Nossa conduta de dezembro a fevereiro é completamente diferente da conduta do resto do ano. Aceitamos pacificamente qualquer estrangeiro de “binga branca cheia de pele” (juro que já ouvi isso) que venha atrás das nossas vaginas negrinhas (e aí não vai nenhum tipo de preconceito, é bom que se diga). É normal. Todos estamos acostumados, e se você tentar fugir um pouco dessa linha de procedimento, é logo taxado de chato e mal educado. É como se os gringos tivessem que ser mais bem tratados que nós mesmos, que vivemos aqui o ano todo sofrendo todas as agruras de ser o que somos.
Turista é ótimo porque ativa a economia e não aprovo nenhum tipo de xenofobia, mas aqui em Salvador nós somos os otários da balança. Vestimos uma roupa de mito do bom-moço que não nos pertence. Não, baiano não é hospitaleiro. Não, baiano não é bem educado. Na realidade do dia a dia, somos mal educados, chatos, encrenqueiros e arrogantes. Não ajudamos ninguém, não pensamos num futuro melhor nem muito menos lutamos pelo bem da nossa própria cidade.
Mesmo assim não fique triste, caro morador de outra localidade que não a Bahia. Não há melhor lugar no mundo para se ser turista do que Salvador. Não mesmo.
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sábado, 1 de novembro de 2008
Ó Paí, Ó... Quanta besteira
Se o filme Ó Pai Ó, lançado em 2007 e dirigido pela péssima Monique Gardenberg, apresentou uma história fraca e sem pé nem cabeça, agora a série, de mesmo nome e que estreou na Globo nessa sexta, resolveu apelar. E fez feio, muito feio. Com a mesma diretora liderando o projeto, o seriado teve seu primeiro episódio repetindo os mesmos erros do longa: história fraca, personagens caricatos e piadas sem graça nenhuma.Eu realmente não sei qual é pior: se o primeiro episódio ou o filme todo, lançado há quase dois anos. Dessa vez, o projeto manteve parte dos personagens e histórias antigas, mas em momento algum consegue ganhar fôlego. De um lado temos o mesmo Roque tentando ser cantor, e do outro um punhado de personagens saídos do imaginário de pessoas que de jeito nenhum vivem a realidade de onde tentam mostrar. Aliás, o tal Roque é cantor de um estilo típico de grandes gravadoras e produtores musicais, nunca soando genuinamente baiano. Podia ser um reggae, pagode, axé, brega... Mas o que se ouviu foi um estilo asséptico e certinho demais. E as roupas dele? Visivelmente de marca e com ícones americanos, como Jimmy Hendrix, e sem nenhum diálogo com a realidade local.
Os problemas não param por aí. A temática abordada nesse episódio, “Mercado Branco”, em momento algum consegue cumprir seu papel de crítica ao falido sistema fiscal brasileiro e municipal. Por mais que tente, o roteiro só consegue tirar poucas risadas quando o tema é tratado, deixando de fora uma discussão mais ampla e centrada do problema dos impostos e do mercado informal.
Os personagens, nessa mesma linha, não convencem, principalmente para quem mora em Salvador. Alerto: esse povo do seriado não existe! A realidade é outra muito mais sofrida, violenta e sem maquiagem. Se a intenção era mostrar o povo, como alardeou diretores, atores e produtores, a missão falhou feio. Tudo é muito colorido e os personagens falam como se estivessem gingando numa roda de capoeira, sem nenhum espelho com a naturalidade do povo.
Se vocês puderem, fujam do próximo episódio. Eu ainda me pergunto como um cara talentoso como Matheus Nachtergaele se propôs a fazer aquele personagem, o Queixão. Não consigo entender, não entra na minha cabeça. Lázaro Ramos? Esse aí tem justificativa: parece que sentiu uma dívida com o Grupo de teatro que o ajudou no começo da carreira (que produziu a peça original “Ó Paí Ó”) e resolveu retribuir encabeçando o projeto. Pena que é uma furada das grandes.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Voto de Cabresto (da democracia)

Eu não entendo as pessoas que insistem em votar no menos pior. Numa dita democracia, o pior que nos pode acontecer, contraditoriamente ao apregoado pela própria democracia, é não ter escolha. E os cidadãos, iludidos e cegos (desculpa Saramago por roubar sua definição), ainda acham que escolher entre dois ruins é democrático.
Eu não discuto votos. Se uma pessoa quiser e tiver convicção em votar em um determinado candidato, ótimo para ela. Vá em frente com seus princípios. O que me deixa consternado é que muita gente – e particularmente nessa eleição de Salvador – vota naquele que acha o “menos pior”. Aliás, esse termo já me dá asco e eu me recuso a escolher o “menos pior”. Que dita democracia é essa que nos dá apenas 2 opções ruins e pede: “ei, você aí. Escolha o menos pior”.
Muito me admira que nesse 26 de outubro a maioria das pessoas tenha votado com esse pensamento na cabeça. Nossa sociedade democrática (palmas para ela) acaba de escolher um cara tão ruim quanto o outro. Quer dizer, tecnicamente falando, não faz diferença alguma ter votado em um ou no ouro: são todos “ruins”. Estamos nos nivelando por baixo a cada pleito e ninguém faz nada por isso.
Pior de tudo (ou não, não sei mais o que é pior) é ser achincalhado e taxado de alienado por votar nulo. Eu voto nulo há duas eleições e não me arrependo em nada, muito pelo contrário, a cada eleição eu me convenço mais ainda de que o nulo é a solução. O nulo é um voto de protesto, um sinal de que nada do que vemos por aí está a contento. E não é pura e simplesmente birra de adolescente, mas sim um dispositivo democrático tão legítimo quanto votar no que mais me agrada.
E se o que mais me agrada é nada – e aí metade da população concorda comigo -, porque então escolher o “menos pior”? Alguma coisa está errada. Eu me recuso a me nivelar por baixo.
Eu não discuto votos. Se uma pessoa quiser e tiver convicção em votar em um determinado candidato, ótimo para ela. Vá em frente com seus princípios. O que me deixa consternado é que muita gente – e particularmente nessa eleição de Salvador – vota naquele que acha o “menos pior”. Aliás, esse termo já me dá asco e eu me recuso a escolher o “menos pior”. Que dita democracia é essa que nos dá apenas 2 opções ruins e pede: “ei, você aí. Escolha o menos pior”.
Muito me admira que nesse 26 de outubro a maioria das pessoas tenha votado com esse pensamento na cabeça. Nossa sociedade democrática (palmas para ela) acaba de escolher um cara tão ruim quanto o outro. Quer dizer, tecnicamente falando, não faz diferença alguma ter votado em um ou no ouro: são todos “ruins”. Estamos nos nivelando por baixo a cada pleito e ninguém faz nada por isso.
Pior de tudo (ou não, não sei mais o que é pior) é ser achincalhado e taxado de alienado por votar nulo. Eu voto nulo há duas eleições e não me arrependo em nada, muito pelo contrário, a cada eleição eu me convenço mais ainda de que o nulo é a solução. O nulo é um voto de protesto, um sinal de que nada do que vemos por aí está a contento. E não é pura e simplesmente birra de adolescente, mas sim um dispositivo democrático tão legítimo quanto votar no que mais me agrada.
E se o que mais me agrada é nada – e aí metade da população concorda comigo -, porque então escolher o “menos pior”? Alguma coisa está errada. Eu me recuso a me nivelar por baixo.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Guia de Sobrevivência nos Ônibus de Salvador - Módulo 3

Terceiro Módulo
Ônibus Vazio
ou
Nunca subestime um buzú vazio
Você é um sortudo. Sim, é sim. Pegar ônibus vazio em nossa terra é um golpe de sorte em primeiro lugar, mas se você for esperto pode ser um golpe de mestre. Algumas linhas são bem vazias, como Lapa (que passa a cada 5 minutos em quase todos os pontos da cidade), mas tornam-se cheias pela impaciência do povo. Tem gente que é medrosa e pega o primeiro que passa, sem se ligar que logo atrás pode vir outro bem vazio.
A dica é você ter conhecimento de causa. Lembra do fator lotabilidade? Pois é. Lotabilidade nada mais é do que a lei da oferta x procura. Tente se estabelecer do lado bom do pêndulo, ou seja, da oferta. Procure os ônibus com mais oferta, mesmo que para isso você precise saltar mais longe de sua casa; andar um pouco não faz mal a ninguém, te ajuda a ser saudável e se colocar tranquilamente num buzú vazio. Claro, em alguns casos isso não será possível, mas vale o esforço.
Outro ponto diz respeito a você nunca subestimar um ônibus vazio. Não dê uma de brau* se sentando no fundo do coletivo. Isso só é aceitável se seu destino final é o fim de linha. Mas tem um detalhe: a chance de roubo é grande pra quem está perto do cobrador (esse tema será tratado mais adiante no tópico “Assaltos” ou “Fique esperto e não perca nada”). Portanto, procure sentar nas poltronas da frente, mas nunca nas cadeiras reservadas para deficientes, idosos e gestantes. A Lei de Murphy nesse caso é mais um vez implacável: no dia que você sentar vai aparecer uma legião de velhos vindos de um culto religioso holístico do pai eterno, mesmo se for à meia noite.
A idéia é clara: procure a janela, assim você evita que pessoas rocem em você o tempo todo. O engraçado é que todo mundo procura uma dupla de cadeiras sozinhas para sentar, nunca uma com alguém ocupando um espaço. É um anti-socialismo apoiado pelo Guia e que será discutido mais profundamente no tópico “Sociabilidade” ou “Como se livrar de passageiros chatos”. Não existe lugar pior do que ônibus para atrair malucos.
Último ponto: não durma. Eu sei, eu sei... É difícil, mas não durma. Primeiro porque você pode ser atingido por objetos voadores não identificados (já ouvi casos de amigos próximos que dormiram e acordaram com uma catarrada ou com tapas na cara. É bizarro, mas é comum). E segundo porque você pode perder seu ponto e aí, meu caro, você se ferrou de vez. Ônibus não volta.
A dica é você ter conhecimento de causa. Lembra do fator lotabilidade? Pois é. Lotabilidade nada mais é do que a lei da oferta x procura. Tente se estabelecer do lado bom do pêndulo, ou seja, da oferta. Procure os ônibus com mais oferta, mesmo que para isso você precise saltar mais longe de sua casa; andar um pouco não faz mal a ninguém, te ajuda a ser saudável e se colocar tranquilamente num buzú vazio. Claro, em alguns casos isso não será possível, mas vale o esforço.
Outro ponto diz respeito a você nunca subestimar um ônibus vazio. Não dê uma de brau* se sentando no fundo do coletivo. Isso só é aceitável se seu destino final é o fim de linha. Mas tem um detalhe: a chance de roubo é grande pra quem está perto do cobrador (esse tema será tratado mais adiante no tópico “Assaltos” ou “Fique esperto e não perca nada”). Portanto, procure sentar nas poltronas da frente, mas nunca nas cadeiras reservadas para deficientes, idosos e gestantes. A Lei de Murphy nesse caso é mais um vez implacável: no dia que você sentar vai aparecer uma legião de velhos vindos de um culto religioso holístico do pai eterno, mesmo se for à meia noite.
A idéia é clara: procure a janela, assim você evita que pessoas rocem em você o tempo todo. O engraçado é que todo mundo procura uma dupla de cadeiras sozinhas para sentar, nunca uma com alguém ocupando um espaço. É um anti-socialismo apoiado pelo Guia e que será discutido mais profundamente no tópico “Sociabilidade” ou “Como se livrar de passageiros chatos”. Não existe lugar pior do que ônibus para atrair malucos.
Último ponto: não durma. Eu sei, eu sei... É difícil, mas não durma. Primeiro porque você pode ser atingido por objetos voadores não identificados (já ouvi casos de amigos próximos que dormiram e acordaram com uma catarrada ou com tapas na cara. É bizarro, mas é comum). E segundo porque você pode perder seu ponto e aí, meu caro, você se ferrou de vez. Ônibus não volta.
*brau, para os não-baianos: figura pitoresca que se veste igual a tantas outras e se diz do "gueto", ouve bandas de pagode e anda "charlando".
Próximo Módulo: "Ônibus Cheio" ou "Se fudeu, mas há chance de sobrevivência".
Próximo Módulo: "Ônibus Cheio" ou "Se fudeu, mas há chance de sobrevivência".
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Festival de Cinema em Salvador

Começa hoje em Salvador o 5° Festival de Cinema de Arte, que vai reunir mais de 50 filmes e 21 curtas de todo o mundo. Não se preocupe, porque vai rolar filme até dia 23 de outubro em sessões diárias. Confira aqui a programação. Eu já estou anotando pra não perder nada de interessante.
A dimensão que o evento tomou esse ano é grande e esse fiel blogueiro aqui vai estar presente em muitas sessões. Eu havia falado aqui, há algumas semanas, do crescimento do cinema feito na terra, por produtores, atores, técnicos e diretores daqui. Agora, esse tipo de festival só mostra o crescimento da cena da cidade.
E olha só os filmes que vão rolar:
Leonera
Sinedoque NY
Vicky Cristina Barcelona
Feliz Natal
Desejo e Perigo (o novo de Ang Lee)
Um Romance de Geração
Olho de Boi
Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei
Eu pretendo ir nesses todos, principalmente em “Sinedoque NY”, o primeiro longa de Kauffman na direção, além de ser o roteirista. Ele é, sem sombra de dúvidas, a mente mais brilhante e promissora do cinema mundial hoje. Vamos ver como se saiu na direção. Tem também Woody Allen que é sempre Woody Allen, embora seu último filme, O Sonho de Cassandra, tenha sido uma decepção. Verei também Feliz Natal, de Selton Melo (vai estar presente aqui em Salvador no dia), mais uma estréia como diretor, e “Leonera”, mais um filme do inquieto e workaholic Rodrigo Santoro (grande ator, apesar das derrapadas na condução da carreira).
Como eu sou um cara legal e pouco modesto, vou tentar colocar resenhas dos filmes por aqui. Só vou fazer isso porque sei que grande parte dos meus leitores fiéis são cinéfilos como eu e vão gostar das resenhas por aqui (eu acho). Vamos ver, por exemplo, se eu consigo transpor em palavras as cenas de “Sinedoque NY” ou as gags impagáveis de Allen.
P.S.: só uma recomendação, já que o assunto é a sétima arte. Leiam esse livro aqui, “O que é cinema?”, da série Primeiros Passos. Pode parecer besta a princípio, mas é um livro revelador. Você lê numa sentada e é impactante. Eu li hoje e recomendo imensamente.
A dimensão que o evento tomou esse ano é grande e esse fiel blogueiro aqui vai estar presente em muitas sessões. Eu havia falado aqui, há algumas semanas, do crescimento do cinema feito na terra, por produtores, atores, técnicos e diretores daqui. Agora, esse tipo de festival só mostra o crescimento da cena da cidade.
E olha só os filmes que vão rolar:
Leonera
Sinedoque NY
Vicky Cristina Barcelona
Feliz Natal
Desejo e Perigo (o novo de Ang Lee)
Um Romance de Geração
Olho de Boi
Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei
Eu pretendo ir nesses todos, principalmente em “Sinedoque NY”, o primeiro longa de Kauffman na direção, além de ser o roteirista. Ele é, sem sombra de dúvidas, a mente mais brilhante e promissora do cinema mundial hoje. Vamos ver como se saiu na direção. Tem também Woody Allen que é sempre Woody Allen, embora seu último filme, O Sonho de Cassandra, tenha sido uma decepção. Verei também Feliz Natal, de Selton Melo (vai estar presente aqui em Salvador no dia), mais uma estréia como diretor, e “Leonera”, mais um filme do inquieto e workaholic Rodrigo Santoro (grande ator, apesar das derrapadas na condução da carreira).
Como eu sou um cara legal e pouco modesto, vou tentar colocar resenhas dos filmes por aqui. Só vou fazer isso porque sei que grande parte dos meus leitores fiéis são cinéfilos como eu e vão gostar das resenhas por aqui (eu acho). Vamos ver, por exemplo, se eu consigo transpor em palavras as cenas de “Sinedoque NY” ou as gags impagáveis de Allen.
P.S.: só uma recomendação, já que o assunto é a sétima arte. Leiam esse livro aqui, “O que é cinema?”, da série Primeiros Passos. Pode parecer besta a princípio, mas é um livro revelador. Você lê numa sentada e é impactante. Eu li hoje e recomendo imensamente.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Guia de Sobrevivência nos Ônibus de Salvador - Módulo 2

Segundo Módulo
Os pontos de ônibus
Ou
Saiba se posicionar nos pontos para não perder o buzú
O problema dos pontos de ônibus em Salvador é que eles são, em sua maioria, improvisados em qualquer esquina. Tem lugar que não possui uma única sinalização, mas tem uma cacetada de gente esperando o bus. Você vai ter que seguir o fluxo. Aliás, essa é uma boa dica: na dúvida, siga o fluxo.
De qualquer forma, existem alguns pontos especiais e as estações de transbordo, aquelas enormes plataformas com uma incrível capacidade de amontoamento de gente. Nos pontos normais, fique atento a fatores externos: farmácias ao redor, ruas adjacentes, sinaleira, etc. Esses aspectos vão direcionar você a como se posicionar para não perder o buzú. Quem nunca ficou puto da vida porque um ônibus simplesmente “passou por fora”, ou seja, passou por trás dos outros ônibus e se picou?
Antes do seu buzú chegar, observe aonde exatamente os ônibus estão parando. Geralmente os motoristas param no mesmo local. Isso é importante se você for se acotovelar por um Est. Pirajá, Santa Mônica, Campo Grande R1, Est. Mussurunga e tantos outros. Por isso, o entorno do ponto é importante, já que esses fatores vão definir aonde exatamente seu buzú vai parar. Se por um acaso o ponto estiver cheio de ônibus (uns 5 ou 6), aí a situação complica. Fique atento, porque de acordo com as leis de Murphy... Bem, seu buzú pode aparecer e aí você terá que ser ágil. Se ele parar lá atrás, longe de ponto, na fileira, pode ir correndo de encontro ao dito cujo. Não espere no ponto, porque ele pode achar uma brecha, virar para a esquerda e se mandar por fora. Se ele vier rápido e por fora, tente olhar nos olhos do motorista e acene. Não, não coloque a mão vagarosamente, e sim dê um “legal” pra ele, firme e forte. Não se esqueça de correr também, sem medo de ser feliz. É capaz dele parar na frente de todos.
As Estações de Transbordo (Iguatemi, Est. Mussurunga, Pirajá, Lapa e etc.) são uma falsa facilidade, já que existem locais específicos para cada linha. Esses locais funcionam no papel, porque na prática, com a estação lotada, cada um pára em qualquer lugar. Portanto, inicialmente siga o plano citado mais acima, mas não perca de vista o fluxo de ônibus. Isso é muito comum na Estação Iguatemi e no ponto do próprio shopping, que é muito extenso. Você realmente não sabe onde ficar parado; o ponto possui uns 100 metros de comprimento. A dica é tentar ficar no meio e se seu ônibus apontar lá longe, siga a velocidade dele: se vier devagar ponteando o ponto, vá em direção a ele, mas se ele vier rápido e por fora, não se acanhe em seguir a dica do “legal”, e sebo nas canelas.
Próximo Módulo: "Ônibus vazio" ou "Nunca subestime um buzú vazio"
De qualquer forma, existem alguns pontos especiais e as estações de transbordo, aquelas enormes plataformas com uma incrível capacidade de amontoamento de gente. Nos pontos normais, fique atento a fatores externos: farmácias ao redor, ruas adjacentes, sinaleira, etc. Esses aspectos vão direcionar você a como se posicionar para não perder o buzú. Quem nunca ficou puto da vida porque um ônibus simplesmente “passou por fora”, ou seja, passou por trás dos outros ônibus e se picou?
Antes do seu buzú chegar, observe aonde exatamente os ônibus estão parando. Geralmente os motoristas param no mesmo local. Isso é importante se você for se acotovelar por um Est. Pirajá, Santa Mônica, Campo Grande R1, Est. Mussurunga e tantos outros. Por isso, o entorno do ponto é importante, já que esses fatores vão definir aonde exatamente seu buzú vai parar. Se por um acaso o ponto estiver cheio de ônibus (uns 5 ou 6), aí a situação complica. Fique atento, porque de acordo com as leis de Murphy... Bem, seu buzú pode aparecer e aí você terá que ser ágil. Se ele parar lá atrás, longe de ponto, na fileira, pode ir correndo de encontro ao dito cujo. Não espere no ponto, porque ele pode achar uma brecha, virar para a esquerda e se mandar por fora. Se ele vier rápido e por fora, tente olhar nos olhos do motorista e acene. Não, não coloque a mão vagarosamente, e sim dê um “legal” pra ele, firme e forte. Não se esqueça de correr também, sem medo de ser feliz. É capaz dele parar na frente de todos.
As Estações de Transbordo (Iguatemi, Est. Mussurunga, Pirajá, Lapa e etc.) são uma falsa facilidade, já que existem locais específicos para cada linha. Esses locais funcionam no papel, porque na prática, com a estação lotada, cada um pára em qualquer lugar. Portanto, inicialmente siga o plano citado mais acima, mas não perca de vista o fluxo de ônibus. Isso é muito comum na Estação Iguatemi e no ponto do próprio shopping, que é muito extenso. Você realmente não sabe onde ficar parado; o ponto possui uns 100 metros de comprimento. A dica é tentar ficar no meio e se seu ônibus apontar lá longe, siga a velocidade dele: se vier devagar ponteando o ponto, vá em direção a ele, mas se ele vier rápido e por fora, não se acanhe em seguir a dica do “legal”, e sebo nas canelas.
Próximo Módulo: "Ônibus vazio" ou "Nunca subestime um buzú vazio"
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Segurança X Eleição: nulo neles!
A imagem que ilustra esse post é a capa do Correio da Bahia, de 2/10 desse ano. Bela capa, jornalisticamente falando. Só reflete uma sensação do povo em relação ao assunto: parece que todos temos em casa uma folhinha e vamos contando as mortes aos montes. Sem receio, é talvez a melhor capa do ano – e sem fazer sensacionalismo, ou chegar perto disso, como fez o A Tarde ao publicar a foto do policial (mesmo de longe) na maca do IML.
Saindo dessa ceara, em apenas um dia nós nos deparamos com manchetes alarmantes. Depois da morte do 27° policial em apenas 9 meses, Salvador entrou no noticiário com outros casos de assassinatos e mortes por arma de fogo. Aqui, cinco morreram na troca de tiros entre policiais e bandidos. Já aqui, na cidade de Tabocas, um atentado político feriu três. Mais: traficante morto pela polícia. E aqui, mais um jovem morto por causas indefinidas.
É apenas uma amostra no universo soteropolitano de tantas mortes. É um fato que, infelizmente, nenhum candidato tocou no último debate dos prefeituráveis. É uma pena.
E ainda querem que eu vote em alguém. Nulo neles.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Guia de Sobrevivência nos Ônibus de Salvador
Esse guia nada mais é do que um caminho a ser seguido. Não sou modesto e logo de cara eu aviso: se você quiser ter uma vida longa nos ônibus de Salvador é melhor seguir esse Guia. Caso contrário, você vai sofrer bastante. E o pior: vai reclamar muito, mas vai ter que continuar pegando o velho buzú.
Lembrando também que o presente texto pode servir para outros campos de bat... digo, outras cidades. Muitos dos acontecimentos vistos e presenciados aqui na Terra de Ninguém podem vir a acontecer com você ai na Chechênia. Não? Pois não se assuste se um “Estação Pirajá” passar pelas ruas da sua cidade. Essa praga (que tem um tópico especial no Guia) é igual a cearense cabeçudo: tem em tudo quanto é lugar.
Outro ponto importante é a veracidade e respeitabilidade desse Guia. Tudo que você ler aqui aconteceu comigo ou com meus amigos. Nada de historinhas de “ouvi dizer...” nem nada. Aqui tudo é 100% real.
Prepare-se. Procure uma cadeira perto da janela, se afaste do gordo sonolento do seu lado e aguce sua leitura. O Guia de Sobrevivência nos Ônibus de Salvador entra no ar agora.
Primeiro Módulo:
Preparação
Ou
Saia cedo de casa senão você se fode
Preparação
Ou
Saia cedo de casa senão você se fode
Uma coisa é certa: se você planejar, suas chances de sobreviver na selva de ônibus de Salvador aumentam bastante. Por isso, meu caro, pense mil vezes antes de sair de casa. Se você, por exemplo, vai encarar um emprego novo num bairro que você pouco conhece, procure todo tipo de informação sobre horários e lotabilidade (explicarei esse neologismo posteriormente. Aliás, é mais um índice mercadológico criado para entender melhor a lógica “oferta x procura” aplicada aos ônibus). E também não se esqueça de sempre procurar saber novidades do seu velho e conhecido buzú, aquele que você pega todo dia há anos.
Bem... Se você vai encarar um trajeto novo, não se acanhe em perguntar. Porém, você tem que ir nas fontes certas. Não pergunte a taxistas ou sua mãe, mas sim a porteiros, vigilantes e vendedores de bala. Eles sabem todos os horários de todos os ônibus, numa lógica impressionante. Eles vão lhe dar subsídios para você saber a hora exata de sair de casa. Agora vem uma dica importante: não fique com medo de sair cedo demais. Lembre-se que quanto mais cedo você sai, menos gente tem na rua. Baiano é muito preguiçoso... E você não... Estou errado? Espero que não.
Com os horários devidamente anotados, é hora de você pegar o bendito buzú. Não se preocupe, porque os primeiros dias serão de adaptação e você vai errar bastante, sendo que vai chegar alguns dias muito cedo e outros muito atrasado. Com o tempo você vai descobrir as manhas de cada motorista e se adequar à sua rotina.
Próximo Módulo: "Os pontos de ônibus" ou "Saiba se posicionar nos pontos para não perder o buzú"
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Ajude a melhorar o mundo
A blogsfera tem dessas coisas: um blog cool cria alguma coisa e os outros seguem. Não sou muito adepto dessa premissa, mas vou abrir uma exceção. Hoje é o EMO DAY. Para comemorar, rasgue um boneco Teddy Bear.
Claro, essa iniciativa tem um belo acento irônico e é de muita valia para nós seres normais (nesse momento eu dou uma de Hitler e confesso que Emo é uma raça inferior, mas por sorte boa parte dele sobrevive alguns anos depois. Seqüelas são relativas). Fazendo um gancho, aqui em Salvador o fenômeno Emo também é forte. Há alguns anos era fácil ver exemplares passeando livremente pelo shop. Iguatemi. Vejam vocês, um absurdo.
É óbvio que eram vistos sempre de franjas, camisas apertadas e chorando pelos cantos. Hoje, a maior parte deles pode ser visto em shows matinê na Boomerangue, no Rio Vermelho. Aliás, local apropriadíssimo, já que virou a Meca da diversidade: vê-se de tudo, do público gay ao público mauricinho e a fusão dos dois: emo.
Portanto, comemore hoje e vá além de rasgar o tenro bonequinho: elimine um emo em potencial, aquele que ainda não sabe se é ou não. Você fará um grande bem à humanidade. Para saber mais sobre a raça, acesse:
Como ser emo?
Emo? Explicação Técnica. Grande Manual Sobre emos
100 Regras para ser emo
EMObole
Claro, essa iniciativa tem um belo acento irônico e é de muita valia para nós seres normais (nesse momento eu dou uma de Hitler e confesso que Emo é uma raça inferior, mas por sorte boa parte dele sobrevive alguns anos depois. Seqüelas são relativas). Fazendo um gancho, aqui em Salvador o fenômeno Emo também é forte. Há alguns anos era fácil ver exemplares passeando livremente pelo shop. Iguatemi. Vejam vocês, um absurdo.
É óbvio que eram vistos sempre de franjas, camisas apertadas e chorando pelos cantos. Hoje, a maior parte deles pode ser visto em shows matinê na Boomerangue, no Rio Vermelho. Aliás, local apropriadíssimo, já que virou a Meca da diversidade: vê-se de tudo, do público gay ao público mauricinho e a fusão dos dois: emo.
Portanto, comemore hoje e vá além de rasgar o tenro bonequinho: elimine um emo em potencial, aquele que ainda não sabe se é ou não. Você fará um grande bem à humanidade. Para saber mais sobre a raça, acesse:
Como ser emo?
Emo? Explicação Técnica. Grande Manual Sobre emos
100 Regras para ser emo
EMObole
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Incautos vereadores
Com o horário político, as eleições começaram de vez; para o bem e para o mal de todos nós. Mas nem tudo é de todo ruim. Veja bem, numa ordem inversa às medalhas brasileiras em Pequim, nossa eleição 2008 é pródiga. É “ouro, meu rei”. As figuras pululam pelas ruas da cidade e não é difícil topar com um incauto (a) tentando virar vereador (a).
Vamos aos fatos: vereador é um cargo de extrema importância para o desenvolvimento de uma cidade, ainda mais uma cidade grande, uma metrópole. É como se fossem da equipe administrativa do prefeito, esse sim, o grande CEO do município. Ele deve ser mais do que qualificado; deve estar no topo da cadeia “empreguística”, com tudo que isso possa trazer de bom ou ruim. Isto é, o cara deve botar pra lenhar, pra ser mais exato (e baiano também).
Voltando aos vereadores... Essa categoria, portanto, não é menos importante que o prefeito. Mas vejam vocês, essa nossa democracia moderna gera muitas anomalias. Eu não consigo um emprego decente se não me formar e fizer algum curso extra, tem que ter experiência, falar inglês, saber um monte de computador... Mas vereador não. Democraticamente falando, é perfeito. Na prática, é inconsistente. Mas esse é outro papo.
O importante, depois desse blá blá blá, é dar risada. Então...
Leo Kret (não revela o nome original, mas ainda vou descobrir...), dançarina de pagode e transexual. Leia essa entrevista, se você ainda não acredita na bizarrice do personagem.
Robespierre - o político francês não morreu e está em Salvador
Rei Momo Gordo – estranho pleonasmo, mas em Salvador existe até Rei Momo magro.
Vamos aos fatos: vereador é um cargo de extrema importância para o desenvolvimento de uma cidade, ainda mais uma cidade grande, uma metrópole. É como se fossem da equipe administrativa do prefeito, esse sim, o grande CEO do município. Ele deve ser mais do que qualificado; deve estar no topo da cadeia “empreguística”, com tudo que isso possa trazer de bom ou ruim. Isto é, o cara deve botar pra lenhar, pra ser mais exato (e baiano também).
Voltando aos vereadores... Essa categoria, portanto, não é menos importante que o prefeito. Mas vejam vocês, essa nossa democracia moderna gera muitas anomalias. Eu não consigo um emprego decente se não me formar e fizer algum curso extra, tem que ter experiência, falar inglês, saber um monte de computador... Mas vereador não. Democraticamente falando, é perfeito. Na prática, é inconsistente. Mas esse é outro papo.
O importante, depois desse blá blá blá, é dar risada. Então...
Leo Kret (não revela o nome original, mas ainda vou descobrir...), dançarina de pagode e transexual. Leia essa entrevista, se você ainda não acredita na bizarrice do personagem.
Robespierre - o político francês não morreu e está em Salvador
Rei Momo Gordo – estranho pleonasmo, mas em Salvador existe até Rei Momo magro.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008
A maçã e a vingança
Tudo começou quando Rosa ainda era Rosa, e não Dona Rosa, como a maioria das pessoas a chama. Ela tinha uma pequena mercearia na Cidade Baixa, ali perto da Calçada, um lugar que de tão pequeno ganhou o nome de “Mercearinha”, mais tarde ficando Inha. “Vou ali em Inha”, era o que o povo dizia quando precisava comprar leite ou manteiga na mercearia de Rosa. Foi naquela época que ela começou a desenvolver essa mania.
Rosa tinha o estranho hábito de conhecer as pessoas pelo que elas compravam. No seu estabelecimento era mais complicado, pois tudo que lá vendia era de necessidade básica, portanto, de acesso a todos. Mesmo assim ela adorava observar. Sabia que Seu João só levava manteiga dia de quinta-feira, que Tuísca comprava leite dia sim dia não, que Dona Marilda não comprava nada e só ia lá para bater papo.
Rosa casou, mas sua mania continuou. Desistiu de ganhar a vida com mercearia e acabou virando dona-de-casa. Seu marido, Arnaldo, trabalhava em um banco na Graça e eles moravam em Brotas. Ela adorava dizer que morava em Brotas porque ninguém sabia ao certo em qual “Brotas” ela morava: se na parte pobre ou na parte rica. Melhor assim. Lá era o bairro ideal para Rosa, que fazia compras cada dia num supermercado diferente. Dos menores aos mais sofisticados da vizinhança.
A dona-de-casa passeava todos os dias com sua bolsinha e ia direto ao mercado. Comprava de pouco em pouco para ter a obrigação de ir todos os dias a algum mercadinho. Passava horas observando quem comprava o quê, em qual quantidade e em qual companhia. Sabia de longe se a pessoa era solteira; os solitários compram mais comida pronta e bobagens, como chocolates e salgadinhos. Se a pessoa era casada era fácil: sempre tinha no carrinho algum produto do sexo oposto, como barbeadores ou absorventes. Quem tinha filhos acabava sempre comprando alguma coisa para eles, ou então optava por produtos com marcas de temas infantis, como maçãs da Turma da Mônica ou algum congelado da Disney.
Gostava mesmo era da seção das frutas. Homens não compram maçãs nem pêras, pensava Rosa. Mulheres cheiram tudo, amassam limões e laranjas à procura da fruta perfeita. Homens jogam tudo de qualquer jeito. A cerveja sim, eles escolhem com gosto. O primeiro sinal se o rapaz é pobre, ensina Rosa, é saber se ele escolhe a bebida pelo preço ou pela própria vontade. Tem gente que compra uma cerveja diferente a cada semana. Rosa observava Durval, um figurão da região, que sempre comprava cerveja de uma marca específica, de um nome estrangeiro enrolado que ela não conseguia ler. E levava também salame, mussarela e muita carne de corte especial. Esse era rico e bonitão, pensava Rosa. Corria para ver o carro dele na saída e se vangloriava ao perceber ser um importado.
Rica ela não era e ficou pior quando Arnaldo perdeu o emprego. Depois de meses sem arranjar nada, a única solução foi ela própria procurar trabalho. Nem precisou pensar muito quando viu um anúncio de uma rede de supermercados de Brotas. Virou rapidamente gerente de seção, aquelas mulheres que ficam com rádio organizando as seções de alimentos e mandando nos pobre coitados que empilham tudo direitinho. Mas ela era uma chefe boa.
Como Arnaldo ainda não tinha arranjado emprego, a situação financeira da família estava cada vez mais complicada. E o desespero só não se abateu por completo porque Rosa é uma mulher sagaz. Propôs um negócio a seu marido que, de tão absurdo, poderia até dar certo. Como ela conhecia todas as pessoas do mercado, mas sem elas a conhecerem, Rosa sabia exatamente como pegá-las de surpresa ou, mais grosseiramente, como roubá-las.
Arnaldo negou no começo, mas viu que não tinha outra solução. O negócio estava armado: Rosa acompanhava a vítima dentro do mercado, vendo pela compra qual a procedência da pessoa, sorrateiramente via qual era o carro e falava por telefone a Arnaldo. A partir daí o marido tinha apenas que seguir e arranjar um jeito de roubar.
Inicialmente o casal escolhia as vítimas de duas maneiras: mulheres sozinhas ou mulheres acompanhadas de criança. Mas só se elas comprassem coisas caras, e ai é que Rosa identificava. No estacionamento subterrâneo elas se distraiam facilmente e na maioria das vezes Arnaldo se oferecia para ajudar a pôr no carro. Nesse vai e vem do carrinho para o porta-malas, vários sacos eram desviados e pronto: o casal já tinha o que comer por uma semana e a pobre mulher só ia descobrir quando chegasse em casa.
Como já estava ficando fácil demais, Arnaldo pegou o gosto da coisa e incrementou a tramóia. Depois de ter certeza (através de informações de Rosa) de que uma determinada pessoa estava a pé e morava sozinha, Arnaldo seguia a vítima e em certo momento esbarrava “sem querer” nela. Como todos os sacos iam pelo chão, ele humildemente pedia desculpas e se oferecia, sem aceitar um “não” como resposta, a levar as compras até o destino final.
Chegando à casa, o golpe fatal era fácil. Como na maioria das vezes era uma Senhora (e ele provavelmente vai pagar seus pecados no inferno por isso), ele a enrolava e acabava ficando para tomar um café ou se oferecia para fazer um curativo decorrente do esbarrão; às vezes as pobrezinhas iam ao chão. E aí, com todo cuidado, ele roubava de tudo: faqueiros de prata, cristais, liquidificadores e muito dinheiro. Percebeu que todos tinham um esconderijo que aparentemente era infalível, mas quase sempre era fácil de descobrir. A dupla já tinha seus métodos friamente calculados e seus golpes eram de execução perfeita. Sem falhas.
Essa semana um rapaz esbarrou em mim na rua. Eu cheguei a cair e minhas compras foram ao chão. Minha cerveja estourou. Mas o rapaz era solícito e foi até meu apartamento me ajudar. Foi lá que eu prendi esse filho da puta, o Arnaldo. Foi de lá que ele ligou urgente para Rosa, uma vadia sem escrúpulos que veio correndo. Os dois estão na minha sala no momento imóveis, presos por cordas e amordaçados. Antes, contaram a mim essa história patética. Antes de matar os dois vou comer uma maçã da Turma da Mônica.
Rosa tinha o estranho hábito de conhecer as pessoas pelo que elas compravam. No seu estabelecimento era mais complicado, pois tudo que lá vendia era de necessidade básica, portanto, de acesso a todos. Mesmo assim ela adorava observar. Sabia que Seu João só levava manteiga dia de quinta-feira, que Tuísca comprava leite dia sim dia não, que Dona Marilda não comprava nada e só ia lá para bater papo.
Rosa casou, mas sua mania continuou. Desistiu de ganhar a vida com mercearia e acabou virando dona-de-casa. Seu marido, Arnaldo, trabalhava em um banco na Graça e eles moravam em Brotas. Ela adorava dizer que morava em Brotas porque ninguém sabia ao certo em qual “Brotas” ela morava: se na parte pobre ou na parte rica. Melhor assim. Lá era o bairro ideal para Rosa, que fazia compras cada dia num supermercado diferente. Dos menores aos mais sofisticados da vizinhança.
A dona-de-casa passeava todos os dias com sua bolsinha e ia direto ao mercado. Comprava de pouco em pouco para ter a obrigação de ir todos os dias a algum mercadinho. Passava horas observando quem comprava o quê, em qual quantidade e em qual companhia. Sabia de longe se a pessoa era solteira; os solitários compram mais comida pronta e bobagens, como chocolates e salgadinhos. Se a pessoa era casada era fácil: sempre tinha no carrinho algum produto do sexo oposto, como barbeadores ou absorventes. Quem tinha filhos acabava sempre comprando alguma coisa para eles, ou então optava por produtos com marcas de temas infantis, como maçãs da Turma da Mônica ou algum congelado da Disney.
Gostava mesmo era da seção das frutas. Homens não compram maçãs nem pêras, pensava Rosa. Mulheres cheiram tudo, amassam limões e laranjas à procura da fruta perfeita. Homens jogam tudo de qualquer jeito. A cerveja sim, eles escolhem com gosto. O primeiro sinal se o rapaz é pobre, ensina Rosa, é saber se ele escolhe a bebida pelo preço ou pela própria vontade. Tem gente que compra uma cerveja diferente a cada semana. Rosa observava Durval, um figurão da região, que sempre comprava cerveja de uma marca específica, de um nome estrangeiro enrolado que ela não conseguia ler. E levava também salame, mussarela e muita carne de corte especial. Esse era rico e bonitão, pensava Rosa. Corria para ver o carro dele na saída e se vangloriava ao perceber ser um importado.
Rica ela não era e ficou pior quando Arnaldo perdeu o emprego. Depois de meses sem arranjar nada, a única solução foi ela própria procurar trabalho. Nem precisou pensar muito quando viu um anúncio de uma rede de supermercados de Brotas. Virou rapidamente gerente de seção, aquelas mulheres que ficam com rádio organizando as seções de alimentos e mandando nos pobre coitados que empilham tudo direitinho. Mas ela era uma chefe boa.
Como Arnaldo ainda não tinha arranjado emprego, a situação financeira da família estava cada vez mais complicada. E o desespero só não se abateu por completo porque Rosa é uma mulher sagaz. Propôs um negócio a seu marido que, de tão absurdo, poderia até dar certo. Como ela conhecia todas as pessoas do mercado, mas sem elas a conhecerem, Rosa sabia exatamente como pegá-las de surpresa ou, mais grosseiramente, como roubá-las.
Arnaldo negou no começo, mas viu que não tinha outra solução. O negócio estava armado: Rosa acompanhava a vítima dentro do mercado, vendo pela compra qual a procedência da pessoa, sorrateiramente via qual era o carro e falava por telefone a Arnaldo. A partir daí o marido tinha apenas que seguir e arranjar um jeito de roubar.
Inicialmente o casal escolhia as vítimas de duas maneiras: mulheres sozinhas ou mulheres acompanhadas de criança. Mas só se elas comprassem coisas caras, e ai é que Rosa identificava. No estacionamento subterrâneo elas se distraiam facilmente e na maioria das vezes Arnaldo se oferecia para ajudar a pôr no carro. Nesse vai e vem do carrinho para o porta-malas, vários sacos eram desviados e pronto: o casal já tinha o que comer por uma semana e a pobre mulher só ia descobrir quando chegasse em casa.
Como já estava ficando fácil demais, Arnaldo pegou o gosto da coisa e incrementou a tramóia. Depois de ter certeza (através de informações de Rosa) de que uma determinada pessoa estava a pé e morava sozinha, Arnaldo seguia a vítima e em certo momento esbarrava “sem querer” nela. Como todos os sacos iam pelo chão, ele humildemente pedia desculpas e se oferecia, sem aceitar um “não” como resposta, a levar as compras até o destino final.
Chegando à casa, o golpe fatal era fácil. Como na maioria das vezes era uma Senhora (e ele provavelmente vai pagar seus pecados no inferno por isso), ele a enrolava e acabava ficando para tomar um café ou se oferecia para fazer um curativo decorrente do esbarrão; às vezes as pobrezinhas iam ao chão. E aí, com todo cuidado, ele roubava de tudo: faqueiros de prata, cristais, liquidificadores e muito dinheiro. Percebeu que todos tinham um esconderijo que aparentemente era infalível, mas quase sempre era fácil de descobrir. A dupla já tinha seus métodos friamente calculados e seus golpes eram de execução perfeita. Sem falhas.
Essa semana um rapaz esbarrou em mim na rua. Eu cheguei a cair e minhas compras foram ao chão. Minha cerveja estourou. Mas o rapaz era solícito e foi até meu apartamento me ajudar. Foi lá que eu prendi esse filho da puta, o Arnaldo. Foi de lá que ele ligou urgente para Rosa, uma vadia sem escrúpulos que veio correndo. Os dois estão na minha sala no momento imóveis, presos por cordas e amordaçados. Antes, contaram a mim essa história patética. Antes de matar os dois vou comer uma maçã da Turma da Mônica.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Diálogos do Cotidiano – Papo cabeça
- Cara, você já foi na biblioteca dos Barris?
- Perdi nada lá...
- Rapaz... Tu não sabe. Tem uma gostosa na recepção que “meu deus”...
- E daí? Gostosa tem em todo lugar.
- É, eu sei, mas essa de lá é um fenômeno, cara. Você não tem noção.
- E você vai lá só pra ver essa vagabunda?
- Vagabunda o que!? Olhe o respeito com ela.
- E você conhece?
- Não
- Pois é. Você pega um ônibus lotado pra Lapa, se espreme todo, neguinho te encoxa e tudo mais... Tudo isso só pra ver uma gostosa?
- Você não está entendendo. É difícil até de descrever.
- É gostosa, porra. Tem descrição melhor que essa?
- Ó que tem... Porque existem vários níveis de gostosas. Já vi gente comparando com fruta, time de futebol, escala risher e as porra...
- E você tem escala de medição? Pra mim a top das gostosas do mundo é Beyoncé. Mas tem também Ivete, que é um mulherão.
- É melhor que todas essas.
- Impossível. Não existe mulher mais gostosa do que Beyoncé ou Ivete. Só se essa ai for uma aberração, o que duvido muito. Onde já se viu!? Mulher dessa gostosura perdida na recepção da biblioteca dos Barris. Puta que pariu, Cabeça. Você ta de sacanagem mesmo.
- Tá bom, não é isso tudo mas tá no nível de Gretchen. Mais ou menos por ai
- Peraê... Você sai daqui de Pernambués pra ver uma mulher do nível de Gretchen? Porra, Cabeça! Não estou mais lhe reconhecendo.
- Mas você não sabe, meu caro. Ontem eu saí de lá e passei pela gostosa e sorri. Ela sorriu pra mim. Amanhã irei lá de novo e vai ser um golaço, pode anotar ai.
- Ela tá te dando bola é?
- Rapaz... Aparentemente sim. Nunca se sabe. Vou pra lá pensando em Beyoncé e acabo na cama com Gretchen.
- Pode crê... Melhor garantir uma foda do que ficar em casa chupando dedo.
- Tá vendo?! É disso que tô falando. Deixa eu ir agora pro trabalho que eu bato ponto, negão
- Beleza, Cabeça. Vem cá... Essa gostosa ai não tem uma amiga dando sopa, não?!
- Eu vi ela batendo um papo com a faxineira. É novinha, corpinho arrumado, trança no cabelo oxigenado...
- Parece ser gostosa. É que nível?
- Carla Perez derrubada.
- Tá valendo.
- Perdi nada lá...
- Rapaz... Tu não sabe. Tem uma gostosa na recepção que “meu deus”...
- E daí? Gostosa tem em todo lugar.
- É, eu sei, mas essa de lá é um fenômeno, cara. Você não tem noção.
- E você vai lá só pra ver essa vagabunda?
- Vagabunda o que!? Olhe o respeito com ela.
- E você conhece?
- Não
- Pois é. Você pega um ônibus lotado pra Lapa, se espreme todo, neguinho te encoxa e tudo mais... Tudo isso só pra ver uma gostosa?
- Você não está entendendo. É difícil até de descrever.
- É gostosa, porra. Tem descrição melhor que essa?
- Ó que tem... Porque existem vários níveis de gostosas. Já vi gente comparando com fruta, time de futebol, escala risher e as porra...
- E você tem escala de medição? Pra mim a top das gostosas do mundo é Beyoncé. Mas tem também Ivete, que é um mulherão.
- É melhor que todas essas.
- Impossível. Não existe mulher mais gostosa do que Beyoncé ou Ivete. Só se essa ai for uma aberração, o que duvido muito. Onde já se viu!? Mulher dessa gostosura perdida na recepção da biblioteca dos Barris. Puta que pariu, Cabeça. Você ta de sacanagem mesmo.
- Tá bom, não é isso tudo mas tá no nível de Gretchen. Mais ou menos por ai
- Peraê... Você sai daqui de Pernambués pra ver uma mulher do nível de Gretchen? Porra, Cabeça! Não estou mais lhe reconhecendo.
- Mas você não sabe, meu caro. Ontem eu saí de lá e passei pela gostosa e sorri. Ela sorriu pra mim. Amanhã irei lá de novo e vai ser um golaço, pode anotar ai.
- Ela tá te dando bola é?
- Rapaz... Aparentemente sim. Nunca se sabe. Vou pra lá pensando em Beyoncé e acabo na cama com Gretchen.
- Pode crê... Melhor garantir uma foda do que ficar em casa chupando dedo.
- Tá vendo?! É disso que tô falando. Deixa eu ir agora pro trabalho que eu bato ponto, negão
- Beleza, Cabeça. Vem cá... Essa gostosa ai não tem uma amiga dando sopa, não?!
- Eu vi ela batendo um papo com a faxineira. É novinha, corpinho arrumado, trança no cabelo oxigenado...
- Parece ser gostosa. É que nível?
- Carla Perez derrubada.
- Tá valendo.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Inauguração do metrô de Salvador
Eu não sou de colocar vídeo aqui no blog, mas agora eu abro exceção para expor esse. É pequeno e vale a pena ver.
Clique aqui.
Clique aqui.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Idéia maluca
Acabei de ter uma idéia. Estava dando minha passada diária pelos jornais de Salvador e, quando dei por conta, percebi as misérias que aconteceram na cidade ontem. E no fim de semana. E no mês que passou... E estamos com uma eleição, talvez a mais acirrada dos últimos pleitos, batendo à porta.
Pois bem. Eu serei louco suficiente para mandar e-mails para todos os candidatos. Mandarei perguntas pertinentes, muito longe daquelas baboseiras que a grande mídia fala. Serão questões pontuais e, claro, conto com a ajuda de quem quiser perguntar. Pode mandar.
Se eles vão responder? Quem sabe!? Ai já não é problema meu. Creio que final de agosto e começo de setembro seja bom para o envio. Talvez antes, já que eles devem tá ocupadíssimos e devem demorar pra responder (se é que vão...).
P.S.: só para ilustrar o que estou dizendo, leiam esse link (a primeira matéria). Pode parecer um problema menor, mas no fundo a causa dele é a mais importante de todas: desemprego.
Pois bem. Eu serei louco suficiente para mandar e-mails para todos os candidatos. Mandarei perguntas pertinentes, muito longe daquelas baboseiras que a grande mídia fala. Serão questões pontuais e, claro, conto com a ajuda de quem quiser perguntar. Pode mandar.
Se eles vão responder? Quem sabe!? Ai já não é problema meu. Creio que final de agosto e começo de setembro seja bom para o envio. Talvez antes, já que eles devem tá ocupadíssimos e devem demorar pra responder (se é que vão...).
P.S.: só para ilustrar o que estou dizendo, leiam esse link (a primeira matéria). Pode parecer um problema menor, mas no fundo a causa dele é a mais importante de todas: desemprego.
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