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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Creolina

Em dia de futebol na comunidade o povo todo se alvoroçava. E não era diferente para Mário, mais conhecido como Zinho. Dono de uma habilidade duvidosa, o rapaz era sempre um dos últimos a serem escolhidos, mas nunca ficava de fora. Ele era o alvo de gozações da turma, aquele o qual seria sempre o papo ao final do jogo.

Mas ele nem ligava. Em 2008, tinha conseguido jogar praticamente todas as partidas, mas ainda faltava conquistar um título. Poderia ser qualquer um, até mesmo uma taça simbólica disputada em apenas uma partida entre São Cristóvão e Castelo Branco. Bairros distantes, mas que nutriam uma rivalidade especial. Era praticamente um clássico da várzea de Salvador, maior do que Piatã x Itapuã ou Nordeste x Vale das Pedrinhas. E Zinho era o atacante reserva de São Cristóvão.

No dia do jogo, ele acordou mais cedo do que o habitual. Sempre guardava suas roupas no armário recheado de creolina, que era pra dar um cheiro todo especial. É fato que o uniforme e as meias ficavam com um odor nauseante, mas isso pouco importava para o “quase-gol”, como era apelidado. A creolina era uma tradição familiar. Quando era pequeno, Zinho acordava de manhã com o cheiro do artefato vindo de suas roupas que sua mãe trazia para ele usar. E assim ficou. A creolina era, aliás, um dos motivos de gozação para o rapaz. Os amigos do futebol não perdoavam aquele cheiro nauseabundo e forte que vinha da camisa número 18 surrada. Zinho sorria e seguia em frente.

Mais tarde, quando todos já se preparavam para entrar em campo no tão esperado clássico, a esposa de Edmílson entrou em trabalho de parto e o principal atacante da equipe de São Cristóvão estava fora da partida. Sorte somente para Zinho, porque todo time lamentou a ausência do artilheiro. O substituto olhou em volta e viu toda comunidade reunida e não pestanejou em acenar, embora não obtivesse resultado. Corou, mas continuou a preparação.

O jogo foi como qualquer jogo de várzea: muita correria, vários passes errados, gols feios e muita confusão. Como não poderia ser diferente, Zinho também se envolveu em algumas brigas com os rivais, mas nada que mudasse o rumo da partida. E foi assim até o fim do jogo, com a vitória da equipe do número 18. Não marcou nenhum gol, mas ele saiu cantando um arrocha* meloso e provocativo, que rendeu-lhe, sem nem saber de onde partira, um soco no meio do rosto. Saiu atordoado do meio da confusão, mas avistou o adversário que corria em outra direção. Zinho tirou as chuteiras e correu atrás dele e só alcançou muitos metros depois, mas conseguiu encher o outro de porrada. Espancou de verdade e ficou com as mãos banhadas em sangue.

O time de Castelo Branco saiu humilhado e Zinho como um quase herói, mesmo não tendo marcado nenhum gol na partida. O churrasco do final do jogo foi bastante comemorado, com direito a muita cerveja e carne de segunda. Zinho dançava sem parar, chacoalhava seu cabelo e olhava as meninas de saia. Uma delas era Jaqueline, uma negra alta e um pouco gorda, mas que ostentava uma bunda que mexeu com a cabeça de rapaz. Os dois se entreolharam a festa toda, até que ela deu a senha e saiu do meio do pagode. Ele foi atrás e os dois se encontraram felizes com um beijo na entrada de uma viela. Escorregaram furtivamente para o lado escuro da rua e começaram uma dança sexual que só parou com o urro de gozo da moça, tapando o nariz para fugir do cheiro de creolina.

Zinho comentou com os amigos sobre Jaqueline, mas ninguém levou a sério, afinal, ninguém sabia quem era aquela mulher. Mesmo com descrição, nome e tudo mais, nenhum morador sabia quem era. Zinho continuava sendo alvo das chacotas alheias, mas pretendia acabar com aquilo. Com o telefone dela em mãos, ligou e marcou encontro com a moça, que veio, porém não chegou a entrar no bairro. Preferiu esperar o rapaz na praia de Itapuã, bem em frente à estátua de Iemanjá. Os dois conversaram e tomaram sorvete, mas não agüentaram de tesão e foram a um motel sujo da esquina. A primeira coisa que ela fez foi tirar a roupa dele, que exalava creolina por todo estabelecimento. Na saída, Zinho seguia sua sina de ser alvo de gozações, dessa vez porque o fedor de creolina se misturou ao do suor pós-coito sem banho, e a cena dantesca estava formada.

Mesmo com a tradição da creolina, Zinho levou seu romance em frente, embora Jaqueline não quisesse nunca entrar na comunidade. Marcava sempre em outros locais, mas nunca perto da casa dele e, claro, ele continuava sendo vítima da gozação dos amigos, que nunca viam sua bela namorada. Ainda assim, Zinho não se fez de rogado e manteve-se fiel a ela e, alguns meses depois, resolveu que iria casar. Jaqueline era só alegria.

Com a data do casamento marcada, Zinho enfim iria mostrar aos amigos sua noiva. E assim foi feito. Ninguém acreditou, pois a moça estava linda num vestido branco de noiva e doida para embarcar na lua de mel rumo a Aracaju. Quando se arrumava para embarcar no Uno 96 emprestado por Deco da padaria, Zinho mexia nas roupas cheirosas por um amaciante diferente. Por um momento achou estranho, pois aquela era a primeira vez em sua vida que um amaciante era usado em suas roupas. A sensação era muito boa, mas com o tempo foi passando. Assim como seu casamento.

De roupa lavada na máquina de lavar e embebida em bastante amaciante, Zinho pegou Jaqueline na cama com outro rapaz alguns meses depois do casamento. Era um homem que ele conhecia de algum lugar, mas era difícil de identificar, pois a cicatriz no rosto era imensa. Puxou a faca na cozinha e fez o homem confessar seu nome. Sim, era o mesmo que um ano atrás ele havia espancado no clássico de futebol. Isso aumentou ainda mais a raiva de Zinho, que matou o outro com cinco facadas. Antes de estrangular a mulher, amarrou-a na cadeira e a botou para assisti-lo lavar roupa do mesmo jeito que ele sempre lavou: com bastante sabão de coco e uma boa dose de pastilhas de creolina para conservar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Réquiem

Em 2005 eu fui pela primeira vez à Bahia. Aportei inicialmente em Ilhéus e depois em Salvador, uma terra linda. Não sei como as pessoas podem reclamar de morar lá. Eu adorei, principalmente porque conheci um rapaz muito engraçado, de óculos de astes vermelhas e um sotaque diferente. Parecia que não era de lá.

Mas era. Eu sou surda e ele cego; vocês já podem imaginar como era difícil me comunicar com ele. Zé adorava conversar e contar casos para um monte de gente, mas justo eu, que gostei tanto dele, não podia ouvir uma palavra sequer. Fico emergida na minha imensidão calada, presa em meus pensamentos e no que vejo.

Desde que nos conhecemos, nós trocamos cartas. Como ele perdeu a visão ao longo da vida, ainda restava-lhe um pouco de habilidade para escrever. A grafia de Zé era terrível, mas quem liga? Eu ficava apreensiva esperando as cartas chegarem. Elas nunca foram muito freqüentes porque eu viajo muito e fica difícil precisar quando estarei em determinado local. Mas nós tentamos. E foi assim que eu comecei a receber correspondências dele. Primeiro na Argélia, depois na Argentina, Estados Unidos, Guatemala e muitos outros lugares. Eu gosto quando ele descreve o terminal.

O terminal na visão dele é um zoológico humano, cheio de entidades vivas com histórias de vida das mais estranhas possíveis. Ou não, a normalidade da vida delas é que as torna tão peculiares e diferentes. Eu prefiro pensar assim, embora Zé não concordasse comigo. Ele defendia uma história do início ao fim sem mudar uma vírgula sequer, e não gostava que quem quer seja ficasse fazendo confabulações filosóficas. Eu então deixo para mim mesmo.

Nesse verão então foi minha oportunidade de vê-lo. A única em anos. Eu confesso que não sei como ele soube da minha chegada, mas, para minha surpresa, a minha surpresa foi em vão. No dia que eu aportei em Salvador fui direto ao terminal marítimo. Lá estava ele, sentado em seu banco de madeira, sozinho, mas com cabelos penteados e algo embrulhado nas mãos. Ainda fiquei uns minutos observando Zé de longe, com toda sua inquietude, mas também com sua elegância de sempre. Gelei, e confesso que não sei por quê.

O encontro foi ótimo e tranqüilo, com muitas dificuldades na comunicação. Preferimos simplesmente ficar sentados, um ao lado do outro, observando quem passava. Essa, aliás, era a tarefa preferida dele e eu sabia porque já me havia contado por carta. E me contou muitas histórias, que enfim eu pude ver naquele dia no terminal.

Olhei para todos os lados à procura de Luzia, a lavadeira. Não vi ninguém com a descrição que ele me deu. Procurei também Geraldo, o homem das mil sacolas que entregava a um monte de gente. Nenhum sinal. O que dizer então de Memé e os vários travestis que Zé achava bonitos? Nada. Homens do cais eu até vi, mas nenhum com a opulência e a brutalidade de Alemão. Foi até um pouco frustrante, mas nada que abalasse a minha admiração por Zé.

Hoje, no dia do seu enterro, eu entendo perfeitamente tudo que lhe consumia, tudo que lhe corria pela mente e tudo que lhe movia. Lendo a última carta que ele me enviaria – ficou pronta e endereçada, mas não chegou a mandar – mais fatos ficaram claros. Luzia era sua mãe, mulher batalhadora e forte que não poupava esforços para dar o melhor aos filhos. Geraldo era o tio, que também foi importante na vida do rapaz, sempre presente nas horas mais inglórias, assim como o primo Memé, que sabia muito das coisas porque lia enciclopédias encontradas no lixo. Os travestis formavam o imaginário do rapaz porque existia um bordel cheio deles ao lado da casa da família de Zé. E Alemão era o pai, sim, um pai distante e cheio de mistérios, mas que nem por isso Zé deixava de nutrir um carinho especial.

Não, ele não disse isso na última carta. Eu é que sou ousada o bastante para tentar ver o mundo como só ele conseguia.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Dois Sentidos

Sentado nesse banco de madeira eu vejo muita gente. A maioria eu até conheço, mas poucos falam comigo. O pessoal do terminal passa geralmente muito rápido, muito mais preocupados com o que vão encontrar do outro lado. Na verdade, sempre sabem; e esse é o problema.

Eu vendo coxinhas e outros salgados no terminal. Suco. Tem suco também, mas sempre tem uns desavisados que perguntam se tem refrigerante. Não, não tem refrigerante. Os sucos dependem da estação, mas também tem sempre uns desavisados que perguntam pelos sucos mais absurdos possíveis. Não vendo isso. Eu vendo esses salgados gordurosos que tapam o buraco do estômago de estranhos em busca de refeições para saciar de verdade a fome.

Daqui eu vejo muitos passarem. Tem a Luzia, uma lavadeira negra e forte que cruza o mar todo dia para lavar roupa na cidade alta. Primeiro ela pega o Ferry Boat* em Vera Cruz, passa 40 minutos chacoalhando no mar, salta aqui no terminal, anda mais uns 15 minutos, sobe o Elevador Lacerda, anda mais uns 40 minutos e chega ao local de trabalho. A volta é o caminho inverso, exaustivo, mas ela sempre tem tempo de passar por aqui na lanchonete e comprar uma carteira de cigarro. Eu acho que ela fuma uma carteira por dia. É muito.

Muito mesmo é o número de sacolas que Geraldo traz semanalmente nas mãos. É impossível precisar quantas, já que elas se amontoam de uma maneira incrível e se misturam num balé mambembe. Ele distribui algumas para os camelôs do terminal e segue viagem em direção à ilha, qual eu não sei. Segue sempre com um sorriso no rosto, a camisa aberta no peito e dezenas de santinhos pendurados. Eu acho que ele é um homem de fé, como se dizem.

É engraçado que Memé não deixa de vir aqui pelo menos uma vez na semana. Roda o terminal todo, analisa cada vendedor, cada segurança... E roda mais um pouco. Depois de horas nesse ciclo, ele senta do lado de alguém vendendo café e toma um atrás do outro. Fala de trivialidades cotidianas e carros. Pela aparência, parece que nunca entrou num carro, mas fala deles com uma propriedade magnífica. Um dia até eu fiquei ouvindo ele comparar os carros antigos com os de hoje, potência de motor, arrancada, freios e tudo mais. Eu acho que ele lê revistas do gênero.

O balaio de gêneros é grande por aqui. Vejo sempre travestis e outras figuras andróginas em busca de gringos, e isso acontece muito no verão. Cruzam mais do lado de lá da ilha, vindo cá para Salvador sedentos por sexo. Artur – creio que seja o nome dele – é um deles. Faz todo o caminho se rebolando e chega até enganar alguns homens desavisados. É realmente bonita, artisticamente falando. Uma vez parou aqui e comprou duas coxinhas, um quibe e dois copos de suco. Devorou tudo em menos de 5 minutos, numa voracidade só comparada aos homens do cais. Eu acho que esse é o único lado masculino dela.

Os homens do cais, aliás, são muitos. Eles vêm e vão, se misturam na multidão que na maioria das vezes não dá nem para diferenciar. São altos e fortes, obviamente, mas nenhum comparado ao negro Alemão, apelido ganho num trocadilho com a sua cor. Come geralmente três coxinhas, arrota, cospe no chão e puxa o cigarro. Depois de acender, olha para os lados e chama alguma mulher de gostosa. Eu só acompanho com os olhos o ritual do rapaz, que sempre se esquece do suco. Eu aviso, mas ele diz: “põe na conta. Um dia eu vou cobrar, categoria”. Eu acho mesmo que um dia ele vem cobrar.

A sexta-feira é o dia mais cheio. À noite, sempre por volta das 19h, eu sempre avisto Verdade. Ele é alto, mas tão alto que tem pernas descomunais de tão grande, o contrário da mentira, que tem pernas curtas. Sempre apressado, Verdade carrega uma sacola na mão e um ramalhete de flores na outra. Olhando de longe, ele faz o tipo marido modelo, mas já ouvi histórias das mais cabeludas a respeito dele. Dizem que as flores são para mulheres diferentes, que ele tenta agradar num bordel em Itaparica. Outros dizem que é para a esposa, que fica na ilha enquanto ele trabalha em Salvador durante a semana. Eu acho mesmo que Verdade deve fazer jus ao seu nome.

Nome mesmo de grande valor e peso na Bahia tem um velho gordo e de bigode que passa por aqui em muitos fins de semana do ano. O ritual dele é sempre parar na frente do terminal e tomar uma cerveja, enquanto fala ao celular. Depois, entra no terminal com sua maleta e uma sacola, balançando para lá e para cá, arreia os fardos no chão e pede um risole de camarão. Se ele soubesse de onde vem esse camarão, duvido que voltasse a comer. Nem eu sei. Eu escolho o mais velho e borrachudo, mas o velho gordo nunca reclama. Deve ter dor de barriga todo fim de semana, mas duvido que descubra que é devido ao camarão estragado. Ele come demais. Além daqui, ainda vai no crepe de Dona Maria e no churros de Seu Evaldo. Eu acho que no caminho ainda come um pouco mais.

E lá de longe eu vejo um navio grande apitar. Nessa época do ano, em janeiro, alguns cruzeiros internacionais cruzam mares e ondas mundo afora e aportam aqui. Alguns são corriqueiros, como esse que acabo de ver aportar perto daqui. É azul. O mesmo de todos os anos. Nele a minha esperança.

Sentado nesse banco de madeira eu vejo muita gente. Eu vejo na minha mente, porque sou cego. No navio que chega agora, eu deposito minhas esperanças de rever uma amiga linda e de olhos verdes. Só ela me entende; é surda.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Natal de Júlio

Sentado na cama do motel, Júlio chorava copiosamente. Ao lado, uma toalha jogada e algumas camisinhas usadas. A dor no peito atacava-lhe tão forte que, de tanto chorar, chegou a perder o ar. Mesmo assim não tirava do canal pornô na TV, apenas observando o vai-e-vem de coxas e bundas.

Há um ano que Júlio saía com Marina. O primeiro encontro dos dois foi numa típica cena da noite soteropolitana. Primeiro, o rapaz e os amigos saíram para aquecer num bar da moda, regada a muita cerveja importada. Depois, a noite esticou-se até uma casa noturna, do tipo boate, que tocava som alto e repetitivo para pessoas repetitivas. Foi na saída que os dois trocaram o primeiro olhar. Júlio estava mais do que bêbado e foi induzido pelo amigos a dar em cima da garota. Honesta e de bons princípios, Marina sequer deu trela a ele, não por birra, mas por vontade própria. Porém, uma semana depois, os dois novamente trocaram olhares, e dessa vez muito libidinosos.

Daí para o início do romance foi apenas o tempo de um beijo. Marina, uma garota de família rígida e de educação militar, escorava-se na idéia de uma vida matrimonial feliz e cheia de filhos. Mesmo com apenas 22 anos, a garota pensava que teria apenas um namorado e com ele se casaria. Agora se relacionando com Júlio, a ela já planejava na cabeça todo seu futuro com o namorado. Só faltava avisá-lo.

Com 25 anos, Júlio tinha acabado de se formar em engenharia e conseguido um emprego de grande responsabilidade, mas também de grande faturamento. Era a época em que ele mais saía para curtir, beber e pegar todas as mulheres que via pela frente. Numa típica noite, saía de casa às 20h e só chegava 10 horas depois, na maioria das vezes de banho tomado e barriga cheia. Esperto o tal do Júlio.

No princípio, cheio de vigor e virilidade, Júlio conseguia dobrar perfeitamente a namorada. Conhecia todas as formas de despistá-la e sair para curtir com os amigos. Marina, achava ele, pouco sabia, ou quase nada. Todo fim de semana era a mesma coisa, e só mudou depois de alguns meses, quando a falta da menina começou a ser sentida mais profundamente. Não tinha mais forças para sair e chegar de manhã em casa e apenas pensava nela. O amor tinha tomado todo seu coração, inclusive sumplantado tudo que sentia por si mesmo. Marina sorria.

Menina sorridente aquela. Tinha no sorriso e no olhar um encanto incrível sobre os homens. Era o tipo de mulher que fazia o gênero quieta e sempre bem arrumada, num estilo nem tanto recatada, nem tanto extravagante. Mas, no tempo que passou com Júlio, seu brilho pessoal passou a ser muito maior. O namoro parecia estar dando muito certo e ela nem ligava para as escapadas do namorado, que ela sabia, mas ninguém sabia que ela tinha conhecimento. Pouco importava.

Um ano depois, no natal daquele ano, a festa estava toda armada para as duas famílias. Fato inusitado é que Marina prometeu a Júlio que iria, enfim, transar com ele. Era verdadeiramente uma prova de amor, que o rapaz esperava ansiosamente durante esses 12 meses. Ao longo de todo esse tempo, Júlio ficou na abstinência, apenas treinando em casa se masturbando vendo filmes pornôs de todos os tipos. Porém, não contava de jeito nenhum a Marina ou a qualquer outra pessoa. Por ser um cara descolado e já experiente, ninguém percebia que os dois nunca haviam feito sexo e, claro, ele não ia negar nem concordar com nada.

Depois da troca de presentes, todos foram para casa, menos os dois. Marina pegou o carro de Júlio e propôs um jogo: ele ia vendado o caminho todo, para não descobrir aonde iria. Em troca, ela faria algo inusitado e especial para ele. Óbvio, o rapaz não pensou duas vezes em aceitar. No caminho, vendado, ele não viu que Marina passou o tempo todo mandando torpedos para várias pessoas. A música alta de Madonna abafava o som do teclado sendo manuseado.

O destino final ele já imaginava, porém a quantidade de pessoas que lá estavam nunca ia passar pela cabeça do rapaz. Marina, guardando dentro de si um sentido de vingança e sarcasmo impressionantes, soube por uma amiga que ele tinha pênis pequeno. Não, não era 14 ou 15 cm, eram meros 10 cm de pênis, na maior ereção que ele poderia alcançar. Embora tivesse tentado tratar algumas vezes, nada tinha mudado e Júlio escondia isso de todos os amigos e de quase todas as parceiras sexuais. Sempre dava um jeito e compensava muito com os dedos, as mãos e a língua. Mas Marina pouco se importava. No quarto de motel, mais de 20 pessoas à espera do show da garota, que havia prometido sexo ao vivo. Mas não era com Júlio. Marina desvendou o rapaz que, amarrado, nada pôde fazer. Ela puxou um negro alto e começou ali, na frente de Júlio e de todos, uma forte relação sexual, com direito a tudo que um homem pode esperar de uma mulher. O companheiro de aventura usava apenas um gorro de papai noel.

Passado o martírio, Júlio foi deixado por todos. Andou de um lado para o outro tentando entender aquilo tudo. Seu pênis estava mais flácido do que nunca e sua mente girava sem parar. Tomou banho, bebeu cerveja, acendeu cigarros... E só pensava em Marina, uma garota tão bonita e honesta que só o demônio poderia ter feito aquilo com ela. Sentou na cama, olhou uma toalha jogada e várias camisinhas usadas. Chorou sem parar durante alguns minutos e chegou a perder o ar. Na TV passava um filme pornô diferente, com atores brasileiros e gravação tosca. O filme, estampado no cardápio como destaque do dia, era “Mulheres honestas não valem uma dose de conhaque”. Desfaleceu.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Encantador de Feridas

Josué acordou assustado. Igual àquele sonho ele nunca viu, ou melhor, nunca ouviu falar. Já há duas semanas que se repetia a mesma história na mente doce do rapaz: um avião sobrevoava Salvador e jogava bombas em locais estratégicos, como o Palácio do Governo, o Teatro Castro Alves e o Pelourinho. Ele assistia a tudo, mas não era atingido por nada, só se assustava e invariavelmente acordava quando Márcia vinha descendo a Bonocô andando de skate e com gases e soro fisiológico nas mãos.

A imagem de Márcia andando de skate era dantesca. Enquanto preparava o café, Josué se arrepiou só em pensar naquela gorda cheia de varises subindo num frágil pedaço de madeira acrescido de rodas minúsculas. Isso lhe assustava, e não as gases e o soro, pois ele associava logo a sua profissão. Josué era auxiliar de enfermagem.

No Hospital Geral do Estado, o rapaz, 25 anos, recém-formado na turma de curso técnico, cuidava do setor chamado “geralzão”, aquele povo que ninguém sabe bem como classificar e joga de qualquer forma. Josué, assíduo e perspicaz, procurava aprender tudo da melhor maneira possível para não errar, mesmo que estivesse cuidando de um bandido ferido. Ética acima de tudo, pensava o garoto. E não poupava esforços. Como aquele era o setor mais nojento e decrépito do Hospital, os novatos eram mandados diretamente para lá. Era comum pessoas morrerem de gangrena e infecção generalizada, mas paciente de Josué não.

O maior orgulho dele era cuidar de feridas. Certa vez Josué viu um filme chamado “A Encantadora de Baleias” e achou belíssimo, chegou a chorar enquanto sugava um refrigerante sem gás. Resolveu então adotar esse apelido para ele mesmo, só mudando o destino do encanto. As feridas eram muito bem cuidadas. Ele lavava, esterilizava e fazia todo o asseio da melhor forma possível.

E Josué era feio. Não que isso interferisse na sua brilhante carreira de cuidador de feridas, mas ele chamava atenção ao avesso. Até por isso Márcia, a gorda varizenta, dava em cima dele descaradamente. E Sinéia também, essa com 1m80 de altura, mas que não podia doar sangue de tão magra.

A bonita do pedaço era Maria Edelzina de Jesus dos Santos, assim mesmo pomposo e grande, do jeito que Josué gostava de ouvir um nome. Religiosa no nome, mas safada no meio médico local. Ela era também auxiliar, mas, diziam as más línguas do Hospital, ia para cama com muitos médicos e até pacientes. Quem não tinha tesão por ela? Josué, do alto de sua feiúra, banhava-se no próprio suor todo dia se masturbando no vestiário masculino. Uma vez roubou a calcinha dela de dentro do armário. A facilidade foi tão grande e o cheiro tão excitante, que o rapaz pensou em algo brilhante e fatal.

Era uma sexta-feira. Josué saía às 21h, mesmo horário de Maria. Ela pegava ônibus do outro lado da Av. Ogunjá, mas antes que lá chegasse precisava subir uma rua deserta. Ele foi até lá, escondeu-se e, com um ralador de cebola, ralou a mulher toda. Antes, claro, deu éter para Maria cheirar. Não viu nada.

Josué não se fez de rogado e ainda saiu como herói. Levou a bela mulher às pressas para o próprio Hospital para o pronto atendimento. Maria era uma pena de se ver: toda retalhada, dos braços ao rosto, ela mal era reconhecida pelos parentes. Josué olhava de longe e ninguém desconfiava do que realmente tinha acontecido. A polícia chegou a ser acionada, mas nada encontrou.

Os dias seguintes foram os mais felizes para Josué. Daquele dia em diante ele passou a pegar o turno da madrugada no setor “geralzão”. Felicidade era pouco, pois todo dia ele transava com ela, mesmo desacordada. Quando Maria dormia, Josué vinha com anestésico e aplicava na mulher, virava ela de costas e não perdoava a (pretensa) virgindade anal dela. Os outros pacientes nada desconfiavam, pois dormiam os sonhos dos justos em seus leitos.

Numa bela sexta-feira, às 6h, Josué voltava tranquilamente para casa, em Cajazeiras. A bunda volumosa de Maria ainda permeava seus pensamentos, quando ele viu seu ônibus e levantou o braço, chamando o coletivo. Não deu tempo de entrar. Uma bicicleta doida veio de longe e acertou em cheio suas pernas, jogando-o para debaixo do ônibus, que já arrancava. A cena foi degradante.

Josué perdeu o braço e o bom sexo de todas as madrugadas. Mas ganhou uma realidade já conhecida. Todo dia quem vinha fazer o curativo era Márcia, gorda, com varises e muitas gases e soro fisiológico na mão. Nos novos sonhos, Josué traçava Márcia de quatro para todo o Hospital ver.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Crônica de uma noite errante

Vinha andando pelo Corredor da Vitória com as mãos abanando e o coração apertado. O passo torto e o nariz coçando talvez indicassem uma carreira de pó cheirada minutos atrás. Cristina era tímida demais para chamar alguém para lhe acompanhar naquela sessão cult de cinema.

O filme já era um fator de espantar amigos: rodado na china comunista, sob um olhar Polonês e com atores galeses. E era quase um pornô, não fossem as críticas positivas dos intelectualóides de plantão. Na sessão, apenas mais dois casais gays e só ela perdida na imensidão de uma cadeira escondida no canto da sala.

Na mente, ela mal conseguia organizar as idéias e nem percebeu quando um dos homens voou por cima do outro, realizando uma posição sexual tão inovadora que era preciso virar de ponta-cabeça para entendê-la. Pobre Cristina, que à essa altura tinha a calcinha molhada de tesão não pelo filme, mas pelos homens se pegando. Mesmo assim, achou aquilo tudo muito sujo e saiu da sala aos prantos.

Estava sozinha, com a bolsa a tiracolo e o olhar perdido na avenida grande à sua frente. Perambulou mais uns minutos rumo à Praça do Campo Grande. Era uma tarde, quase noite, típica de um domingo perdido no meio do ano. Olhou as flores, mas não se encantou por nada. Pensou em ir ao Teatro Castro Alves, mas decidiu ficar por ali mesmo, sentada chupando um sorvete de coco. Derreteu todo em sua mão, porque a garota não conseguia esconder sua frustração com a vida e com aquele pobre cachorro que olhava pra ela à espera de alguma migalha: “que maldita vida é essa que reserva uma alma a um cachorro sarnento pedindo uma gota de sorvete?”.

Padeceu diante das luzes dos carros, e mais uma vez andou em direção contrária a seus próprios pensamentos. Topou num bar de esquina, já quase virando a Avenida Sete. Sentou, acendeu um cigarro esmigalhado e pôs-se a beber em goles homeopáticos a cerveja que vinha sem gosto. Puxou, então, de dentro de sua bolsa uma carta amarelada, talvez pelo tempo, talvez por outra coisa qualquer. Limpou o rosto e olhou para os lados, como quem esconde algo, e abriu a carta. Fechou imediatamente, pois um mendigo sujo roubou sua bolsa e saiu correndo. Nem teve tempo de nada.

O mendigo foi derrubado com um golpe certeiro com a perna, dada por um cidadão não menos suspeito ali mesmo em frente ao bar. Cristina somente olhou de soslaio e nem esboçou um obrigado ao rapaz. Pagou a conta e se foi.

Cruzou a rua e parou defronte à Casa D´Itália. Fitou durante exatos 5 minutos um cartaz de uma mostra de esculturas australianas. Pensou mil vezes tentando entender como uma casa de cultura italiana podia servir de lar para uma exposição de outro continente. Olhou para os lados novamente e entrou. Lá dentro encontrou uma mesa. Estendeu o cartão de crédito e soltou o pó todo em cima. Mais uma carreira.

Foi o suficiente para mais uma caminhada sem rumo, mas apressou-se quando viu atrás de si duas mulheres cochichando. Correu, de verdade. Adentrou o Hotel da Bahia como um raio e fugiu pelas escadas. Chorou novamente entre o segundo e o terceiro andar, mas foi interrompida pelo toque do celular. Balbuciou qualquer coisa e subiu a seu quarto.

Lá fora, em frente ao hotel, centenas de pessoas já se aglomeravam procurando por Cristina. A famosa cantora americana, ninguém sabia, chorava abraçada a uma carta.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A festa de Monique

“Baixinha, loira, recém-chegada. Sem restrições, R$ 150. 7776-9898”.

Esse foi o anúncio que Manoel viu no jornal. Interessou-se e ligou. Depois de marcar o encontro, deitou-se na cama com o jornal na mão. Do lado da cabeceira apenas os óculos remendados com fita adesiva. Olhou novamente o anúncio e sorriu.

Esse sorriso é mais de nervoso do que qualquer coisa. A fase para Manoel não estava das melhores. Para mulher, a vida é sempre mais fácil. Manoel, assim como acontece com todos os homens pelo menos uma vez na vida, estava passando por uma má fase. Jovem de apenas 29 anos, ele não levava uma mulher para cama havia mais de um ano e não lhe faltou tentativas: Márcia, ex-colega da faculdade; Jéssica, sua aluna no curso profissionalizante; Juliana, vizinha dos tempos do Garcia; e muita outras. Todas tinham em comum a rejeição ao rapaz.

De um primeiro momento de abalo, Manoel resolveu agir de algum jeito. Olhar o jornal foi uma boa tentativa, embora ele tenha tentado isso outras vezes, mas sempre esbarrava no medo. Mas não, agora era diferente. Por algum motivo transcendental, ele se encantou com aquele anúncio simples e direto. E ligou.

O encontro estava marcado para um famoso motel da orla, local que ele nunca tinha ido, nem nos tempos de boa fase. Como Monique (esse era o nome dela) tinha carro, marcaram de se encontrar lá. Precavido, Manoel levou de casa uma garrafa de vinho e uma caixa de cerveja, que colocou logo no frigobar. A espera foi angustiante. Pensou em se masturbar, afinal, aliviaria sua tensão e, na cabeça dele, prolongaria seu orgasmo com a prostituta. E fez. Ficou louco de ver vários filmes pornô na televisão de plasma do quarto. O tesão era forte, e talvez o nervosismo, que ele já estava de pênis em riste novamente. E nada de Monique.

Depois de ligar para ela e constatar que estava mais do que atrasada, o filme de orgia na tv foi o suficiente para mais um vai-e-vem de mãos de Manoel. Caiu desfalecido na cama redonda e sorriu. Já estava quase a cochilar quando o telefone da recepção tocou: era ela. Arrumou-se na cama, vestiu a cueca preta de marca e preparou a melhor feição cafajeste – achava que condizia com o momento.

Monique bateu na porta, mas nem deu tempo dele reagir. Entreabriu a porta e jogou uma venda. Manoel achou maravilhoso e entrou no jogo. Colocou a venda e chamou a garota de “meu amor”. Ela entrou lânguida e gemendo, furtivamente se esgueirando pelos cantos do enorme quarto, enquanto Manoel imaginava o esguio corpo da garota. Manoel não via, mas Monique era dona de um corpo escultural, fruto de muita academia. Mas ele sentiu. A moça chegou bem perto dele e o acariciou, beijou-lhe a face e apalpou seu pênis por cima da cueca. Propôs alguma coisa quente no ouvido do rapaz, que logo aceitou.

E estava feito. Monique amarrou vagarosamente Manoel à cama. Correu para o corredor e chamou alguém, que logo viu-se era seu comparsa Alaor, que estava escondido no porta-malas do Siena. Os dois fizeram a festa no quarto e Manoel não podia falar nada, já que tinha a boca cheia pela própria cueca. A festa dos dois estava feita e Manoel podia apenas ouvir e nada fazer. Mas não pensou em muita coisa, só sentia o cheiro inebriante da moça e seu pênis reagia ferozmente. Ficou em estado de loucura quando percebeu que os outros dois faziam sexo ali mesmo na frente dele, muito embora o enganado não pudesse ver nem falar nada.

Depois do sexo, Monique e Alaor resolveram agir de verdade. Fizeram a limpa em tudo que podiam levar de valor. Até a TV de plasma não escapou: foi junto com Alaor no porta-malas do carro. E mais: dinheiro, bebidas, guloseimas, produtos eróticos, cigarros, fronhas, travesseiros e tudo que pudesse caber em sacolas e ser escondido no Siena.

Manoel era só desilusão. Depois que os dois saíram, mal conseguia esboçar qualquer reação. O pior era que aquele prejuízo todo ia ser cobrado a ele, seja lá a que horas conseguissem achá-lo ali, humilhado, amarrado e proibido de falar pela própria cueca enfiada na boca. Alaor e Monique saíram tranquilamente pela porta da frente, já que o motel permitia encontro de casais em carros separados e no mesmo quarto. Para o motel, o encontro tinha sido feito e ela foi embora deixando o rapaz descansando. Mal sabiam eles. Algumas horas depois e Manoel até dormia, quando o telefone tocou. Provavelmente desconfiaram de alguma coisa e, como ele não atendia, bateram na porta e só ouviram os sussuros do rapaz. Tudo descoberto, a polícia foi chamada e Manoel não pôde esconder a vergonha. Decidiu não denunciar nada e arcar com todos os prejuízos.

Ontem, na varanda de seu apartamento, Manoel fumava um cigarro e folheava o jornal. Pegou os classificados e abriu, perdendo as contas de quantas vezes tinha feito aquilo nos últimos meses. Mas dessa vez conseguiu. Achou novamente o mesmo anúncio. Com um sorriso no rosto, anotou o telefone na agenda do seu novo celular pré-pago e marcou o encontro. Do outro lado da cidade, Monique desligava o telefone e corria para os braços de Alaor. Na TV de plasma rolava um filme pornô.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Série Lótus - Morena

* Antes de acompanhar esse conto, você pode ler se quiser "Sexta-feira", que faz parte da mesma série. A ordem dos textos não altera o entendimento, mas a leitura dos dois é imprescindível para a compreensão da história. Escolha o caminho. A explicação você encontra aqui.

Morena

Puxou o último trago do cigarro e enxugou o suor que escorria pelo rosto. Olhou fixamente para frente, num ponto cego e sem rumo. Engoliu o nervosismo, afinal, não era a primeira vez que fazia aquilo. Avançou em direção à morena e, num golpe só, matou a mulher quase a deixando decapitada. O gringo fez companhia à moça minutos depois.

Na verdade, Alvinho só se lembrou do que tinha feito no dia seguinte, quando acordou com o telefonema de seu amigo colaborador Artur. Era ele quem tirava as famosas fotos que alimentavam o site de coisas bizarras que ele mantinha secretamente. A mãe, com quem morava, achava que ele era mais um analista de sistemas (ou algo parecido) que trabalhava em casa nessa grande metrópole chamada Salvador. A casa onde moravam ficava no Rio Vermelho, muito perto da locadora onde Artur trabalhava e que servia de ponto de encontro para os dois. Alvinho estava ansioso para ver as fotos do seu feito do dia anterior.

Turbinado com algumas gramas de cocaína, o analista encontrou com Artur ao meio-dia; o sol a pino. Ouviu um blá-blá habitual sobre a dificuldade em fazer as fotos, a bizarrice que era aquilo tudo, o arrependimento, a brutalidade da vida... Os raios de sol atrapalhavam imensamente o olhar de Alvinho e foi com essa desculpa que eles se despediram.

A graça para Alvinho era matar e depois exibir seu feito e, para isso, outras pessoas tinham que ver e “apreciar” sua obra, como ele dizia. Com isso, ainda matava outra necessidade, a de ganhar dinheiro, e seus assassinatos iam direto para o site. Aquela série Lótus estava rendendo grandes dividendos e cada dia mais novos assinantes e anunciantes. A idéia ele mesmo teve: matar mulatas tipicamente brasileiras ao lado de gringos, principalmente se fosse bem brancos. Para dar o contraste, pensou arteiramente o rapaz.

Na seqüência dos fatos, ainda faltava ele matar uma morena para completar o ciclo de três dessa série e, assim, partir para outra. Em Salvador era fácil arranjar esse tipo de vítima; Alvinho adorava encontrá-las no Pelourinho, em qualquer festa típica realizada à noite. Era o espaço perfeito, já que lá mesmo ele encontrava refúgio no pó e na cerveja do local. Geralmente se passava por gringo também – dada sua cor e sua habilidade em falar inglês – e se juntava a outros na caça das mulheres. Invariavelmente levava alguma para cama, mas quase nunca tinha coragem suficiente para matar.

Foi assim no dia da sua última vítima. Márcia passeava quase que diariamente pelo Pelourinho em busca de aventuras sexuais. Já estava cansado dos negros da Bahia e suas bem dotadas virilidades e queria mais carinho e o fator exótico. Foi o que pensou quando viu Alvinho sentado sozinho na mesa 23, saboreando cada trago do seu cigarro importado e bebendo devagar a cerveja. Olhar matador, ela pensou. Nem se lembrou que era sexta-feira, dia que ela podia encontrar um rapaz bonito e eficaz na cama que ela conheceu semana passada num bar do centro.

No vai e vem dos garçons, os dois se encontram num beijo que só pareceu terminar quando Márcia abriu a porta de sua casa. É claro que Alvinho (Glenn, para ela) estava acompanhado de um gringo de verdade, um alemão rosado que estava mais bêbado que os dois juntos. Nem chegaram a transar. O objetivo de Alvinho não era esse. Abriu o nariz do alemão com um soco e o supercílio de Márcia com o cotovelo. Deu nem tempo de gritar. O rapaz já estava virando profissional. Depois de amarrar os dois, ele ainda teve tempo de cheirar outra carreira em cima do porta-retrato dela. Vasculhou os dois e pegou alguns objetos de valor, na tentativa de parecer um assalto, e deixou cair duas fotografias enroladas num papel. Desdenhou.

Os casos de assassinatos vieram à tona e os meses seguintes foram de apreensão para Alvinho. Seu amigo Artur havia sido preso em seu lugar pelos crimes – parece que encontraram fotos e telefone do rapaz no local -, mas esse não era o maior problema. Afinal, os dois tinha negócios para lá de sujos e bizarros rolando por debaixo do pano. Ele temia que algo fosse descoberto, o que aconteceu meses depois, logo depois que Artur conseguiu provar sua inocência. A polícia fechou o cerco e decretou a prisão de Álvaro Genaro, o Alvinho. Ele recebeu a notícia quando estava deitado no chão do banheiro, depois de cheirar mais de quatro carreiras de pura cocaína. Sua mente girava, seu corpo ardia todo e seus ouvidos ouviam sua mãe chorar. Mal conseguiu processar tudo aquilo. Correu pela sala em busca da mochila, voltou para o quarto e começou a encher de roupa. Sua mãe ficara para fora do quarto e Alvinho só conseguia entender os choros e lamúrias da senhora. Não sabia bem para onde ir e antes que terminasse sua tentativa de fuga correu para o banheiro. Vomitou coisas incolores e seus próprios sentimentos. Tateou a pia em busca de água e encontrou mais um papelote do pó. Cheirou. Num impulso de rara coragem, quebrou a janela do banheiro e viu que lá embaixo o Rio Vermelho estava todo cercado pela polícia. Nem pensou.

Antes de se jogar da janela do sétimo andar, Alvinho ainda teve tempo de pegar na mesa dois vidros de tinta e um pincel. Era com eles que fazia a tatuagem de lótus nas garotas.

Série Lótus - Sexta-feira

* Antes de acompanhar esse conto, você pode ler se quiser "Morena", que faz parte da mesma série. A ordem dos textos não altera o entendimento, mas a leitura dos dois é imprescindível para a compreensão da história. Escolha o caminho. A explicação você encontra aqui.

Sexta-feira

De noite, o trabalho de Artur era pesado. Tanto é que até apelido ele ganhou, afinal, fotógrafo legista da polícia não pode simplesmente se chamar Artur da Silva de Jesus. O pessoal da repartição o chamava de Gil Grissom, alcunha que o tímido João não só gostava, como também passou a adotar no seu dia-a-dia.

O dia começa cedo, aliás. De manhã ele dormia, de tarde era atendente numa locadora do bairro e de noite ele fotografava os mortos. Não interessa onde ou o porquê, sempre chamavam Gil para fotografar as vítimas de homicídio e quase nunca mortes duvidosas ou simplesmente naturais. O fotógrafo empunhava com orgulho uma Olympus OM-100, uma máquina um tanto quanto ultrapassada, mas que dava resultados impressionantes. E foi com ela que ele trabalhou numa noite quente de janeiro, numa casa suja no subúrbio ferroviário de Salvador.

- Parece ser gringo. Tomou uma porrada forte aqui na nuca, tem marcas de agressão nas pernas também... Gil, fotografa bem aqui na boca, ó.
- Hm... Pronto, Freitas. Mais algum lugar? Tem ainda a morena gostosa no segundo andar, lá em cima na laje que...
- Porra, Gil... Gostosa? A mulher toda estropiada, e você ainda tem tempo de chamar a mulher de gostosa? Pervertido do caralho!

Gil era assim: bem frio no seu trabalho, a ponto de achar uma mulher esquarteja gostosa e tirar as fotos sem o maior problema. Foram essas fotos, aliás, que renderam uma boa grana a Artur. Na locadora, ele vendia as fotos a um sujeito estranho de nome Alvinho. Era um trabalho sujo, é verdade, mas quem tem ética nessas horas? Alvinho era dono de um site de podreiras bizarras e as fotos do fotógrafo legista eram o grande chamariz do site, que no momento já batia a casa de 70 mil visitas por dia. Ninguém da polícia tinha sequer desconfiado ainda e Artur faturava alto. E nem parecia, já que o rapaz guardava tudo numa caixinha debaixo do armário fedido de sua casa em Amaralina, um quarto-sala minúsculo com vista para o mar. O que fazer com o dinheiro nem ele mesmo sabia, mas tinha consciência que era preciso guardar para algum momento de necessidade. Quem sabe um carro. Não, ele era mais do tipo de comprar uma moto.

Dinheiro para o bar ele tinha. Toda sexta-feira era dia da cerveja gelada e pagode no bar perto da repartição. O local era conhecido como antro de policiais, mas até que era freqüentado por mulheres também. Foi uma dessas que Gil (ele adorava o nome) conheceu uma morena, lá pelas tantas e depois de tomar 10 garrafas acompanhado de Molina. Márcia o nome dela. Belo exemplar do sexo feminino; era do tipo de mulher que o cara se pergunta dez vezes por que estaria dando mole justamente para ele. Mas não, não era esse o caso do Gil versão bêbado, que vangloriava-se aos quatro cantos ser policial, muito embora nem arma tivesse. Foi com esse papo que Márcia caiu no colo de Gil já no táxi de volta para casa. A masturbação no caminho rendeu bons momentos de prazer na cama, no sofá e na cozinha de casa.

O sábado seria mais um dia, se não fosse pela presença de Márcia. Mulher estranha aquela. Pouco falou e quando abriu a boca foi pra dizer que estava de caso com um gringo, um alemão alto e forte, que ela vem se encontrando frequentemente nesse verão. Foi embora ainda cedo, muito antes do almoço. Gil nem se lembrava do motivo pelo qual ela ficou com ele, mas isso não importava. Ainda no banho se masturbou pensando na noite que teve com a bela mulher.

A madrugada de segunda-feira foi novamente agitada. Outro assassinato no subúrbio – e novamente um gringo e uma linda mulata. Lá estava Gil com a máquina em punho e tirando fotos de todos os ângulos possíveis. Tudo natural e a polícia nem estava dando muita atenção para o segundo caso seguido em uma semana. Nem Gil, mas o rapaz logo se viu atordoado quando passava as fotos para Alvinho. No trocar de fotografias, ele percebeu uma curiosa semelhança: as duas eram mulatas, tinham tatuagem de lótus na nuca e foram assassinadas juntamente com estrangeiros. Não demorou muito para ele correr no site e rever as fotos da semana anterior, confirmando assim uma perigosa constatação: Márcia era uma vítima em potencial, se é que os casos tinham ligação.

Meio avesso a coincidências, Gil esperou ansiosamente o telefonema de Márcia, já que ela não atendia a suas ligações. Mas ela estava sempre no bar na sexta-feira, então era só esperar. E foi assim a semana toda, numa preocupação que ele nunca tinha sentido. Alguma coisa havia ali e ele queria se afastar do pensamento de perder o bom sexo que a mulata Márcia fazia com ele.
Na sexta, dia em que saía à meia-noite, o dia não terminou como deveria. Gil já se preparava para descer do prédio quando um chamado foi atendido por Freitas: mais um caso de homicídio no subúrbio da cidade. Gil tremeu. Chegando lá, novamente a mesma situação dos crimes anteriores: gringo e mulher brutalmente assassinados. A mão do fotógrafo nunca havia titubeado um momento sequer em toda sua carreira, mas quando viu o belo rosto de Márcia a vertigem lhe atingiu em cheio. Rodou tonto pela sala da casa e foi parar na janela, vomitando todo hambúrguer e coca-cola da noite. Quem tirou as fotos no dia foi o próprio Freitas e Gil foi levado à enfermaria da polícia. Nem precisou sair de lá. No local do crime foi encontrado duas fotos dele e seu número de telefone anotado num pedaço de papel. Juntando o fato deles terem sido vistos juntos uma semana antes, sinais de agressão na moça e outros detalhes técnicos, a polícia prendeu preventivamente o rapaz.

Sem chance de se explicar. Foi assim que ele se sentiu. E também sem o amor e o sexo de Márcia, a misteriosa mulata que sai com gringos. O dinheiro guardado, que poderia ter sido para comprar uma moto, foi usado todo com advogados na tentativa de provar que ele nada tinha a ver com o acontecido. Provou que foi vítima do acaso, de estar no lugar errado na hora errada.
Só lhe restou o emprego na locadora, que alugava bastantes Box de seriados americanos. Artur olhou reticente para um deles. Estava lá escrito: “CSI: Las Vegas”. No verso, o nome de um dos personagens principais: Gil Grissom.

- Aqueles filhos-da-puta da polícia precisavam me sacanear desse jeito?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Amor de Itaparica

O bairro do Tororó era a guarida durante 10 meses do ano. Para a família Oliveira, aquele período era igual ao de muitos outros soteropolitanos: chato e corrido, sempre à espera das férias. O que sobrou do ano, sim, era um período excitante. Todos iam passar as férias na ilha de Itaparica.

Joel era o mais danado. Desde que se entende por gente o menino corre solto pelas ruas e praias da ilha. Não parava quieto. Arminda, mãe dele e de mais quatro garotos, desdobrava-se em mil para conseguir segurá-lo. Hoje, com 19 anos, Joel nem se lembra das peripécias do passado, e só quer saber mesmo das meninas. Para ele, não interessa a idade ou a procedência. Nessas últimas férias o problema foi grande.

A questão toda era reencontrar todas aquelas garotas que ele já havia levado para trás da Barraca de Bigode, um barraqueiro boa praça que cedia os fundos do seu estabelecimento para as aventuras sexuais dos garotos. Dizem uns que o coroa era tarado e ficava espiando de longe, mas isso pouco importava para Joel. Negro, alto e dono de famoso dote sexual, ele não se contentava com pouco. E até por isso muitas garotas corriam atrás dele, mesmo parte delas com medo do volume por debaixo de sua calça.

O reencontro naquele ano foi tranqüilo até, e poucas foram as que vieram correndo atrás dele. Joelma foi uma delas. Dona de inigualáveis seios e ancas enormes, ela fazia parte do rol daquelas mulheres de encher um copo inteiro, chegando até derramar algumas gotas, logo sorvidas por lábios apressados. Joel adorava traçar Joelma; era um negócio tremendo, quando os dois transavam a lua se escondia de tanta vergonha. Os dois ferviam. Até hoje a barraca de Bigode ostenta um amassão na parte traseira; ninguém se arrisca a confirmar nada.

Tânia é outra. Moradora de Itinga, também passa todas as férias na ilha. Joel se desdobra pra agradar ela também, que é adepta do sexo seguro. O rapaz não curte muito não, mas é só ela juntar seu corpo contra o dele, para o garoto subir num tesão estrondoso. Ela, magrinha, sucumbi ao porte atlético dele. O vai e vem deles já fez gatos e cachorros de platéia.

Porém, a grande paixão de Joel é Aninha, justamente uma menina que ele nunca transou, sequer beijou. No verão de 2005 chegou perto, quando ela ficou bêbada numa festa regada a cerveja quente e pagode, mas acabou mesmo pegando a irmã dela. Muda a coitadinha, gemeu tanto naquela noite, que amanheceu falando. Milagre que ninguém sabe a procedência e que ela, também, não quis contar. Então Aninha faz jogo duro até hoje. Sua irmã muda, Glorinha, insiste até não poder mais, achando que o sexo do rapaz pode curar a gagueira dela. Joel não sabe disso.

Nesses anos todos, ele nem teve chance de saber. Aninha tem um corpo escultural: seios perfeitos, suficientes para encher a mão sem tirar nem pôr, bunda proeminente, barriga correta e carinha de anjo. Talvez uma das últimas almas femininas de Itaparica que ele não tenha traçado. Essa era a meta para aquelas férias. Mas Aninha, como sempre, calada e tímida passeava sempre com a irmã a tira colo. É verdade que na primeira noite, descontente com um fora dela, Joel tenha ido para a barraquinha acompanhado de Selma, coroa boazuda de Paripe. Comeu e amanheceu com mais sede de Aninha.

A garota era esperta. Queria muito estar suando junto com Joel, num vai e vem intenso de pernas e coxas. Mas o jogo dela era outro. Como era gaga, dificilmente teria novamente o rapaz em suas mãos, isto é, depois da primeira foda, ele ia sair fora. Então a onda era ser difícil, e foi o que ela fez o tempo todo.

Toda noite a praça de Itaparica se enchia de garotos da classe média soteropolitana, com seus carros novos com o som tampando a mala. O lado pobre da ilha não se intimidava e pegava o bonde andando mesmo. Sem gastar um tostão. Joel sempre pegava uma ou outra patricinha, mas eram fracas em relação a Joelma ou Tânia. Nessas noites ele investia em Aninha, mas quase sempre sem sucesso. Quase.

Na última noite, dia de uma festa fechada com muito pagode e clima efervescente, Joel partiu para o ataque soviético: encostou Aninha na parede e puxou-lhe pela bunda. A garota urrou de desejo, mas mesmo assim ainda tentou dar uma de difícil. Porém, entregou-se, não sem antes se encher de coquetel molotov, uma bebida inventada ali mesmo na ilha e que poucos sabiam a real procedência. Até o destino final, a barraca de Bigode, Aninha descarrilhou a falar, mas em nenhum momento gaguejou. Joel estava bêbado também e pouco entendeu.

A manhã seguinte foi de despedidas. Era o domingo derradeiro, o último dia das férias de todos. O Ferry Boat estava lotado como sempre e Joel atrasado. Chegou em casa junto com os primeiros raios de sol e só conseguiu acordar quase 18h. O sorriso em seu rosto era brilhante. Enfim sua meta tinha sido alcançada e de uma maneira memorável. Talvez aquela noite tenha sido a melhor de todas para ele. Os dois juntos amassaram em mais um ponto a barraca de Bigode, juntaram cães e gatos ao redor, fizeram da lua uma mera coadjuvante da noite e chegaram a um novo nível da palavra ‘sexo’.

Aninha, por sua vez, acordou cedo. Curada da ressaca, chegou à mesa do café tranquilamente e conversou sobre todos os assuntos com a família. Mais uma vez, ninguém entendeu nada, já que a menina não mais gaguejava. A única que sorriu com o canto da boca foi Glorinha, que já pensava em inventar algum distúrbio para ser curada dali a um ano.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Dentro da noite

- Vamo embora, Du.
- Agora não.
- Mas você odeia Djavan, ainda mais essa música sobre Leonardo di Caprio e Caetano Veloso... E ela nem canta tão bem assim.
- Não. Vamo ficar.
- Não acredito, Du. Isso é a sua cara. Toma ai 10 reais pelos chopps... Até mais!

E era mesmo tudo verdade. Eduardo odiava Djavan e sempre tomava atitudes intempestivas nos locais mais inusitados. Dessa vez foi no bar Carlos 7, lugar muito mal freqüentado na esquina da Carlos Gomes com a Av. Sete. E levar Carol lá foi a melhor maneira de dar um fora na garota. Aliás, nem precisou falar diretamente na cara, outra coisa que ele também adorava fazer. Quem resolveu tudo dessa vez foi Djavan, ou a cantora loira cantando Djavan.

Eduardo estava era de olho nela. Loira, olhos negros e coxas grossas. A bunda ele não tinha conseguido ver ainda; ela estava o tempo todo sentada. E olhava com olhar de sexo para todas as pessoas do bar. Tentava com essa olhar transmitir emoção das músicas, mas só conseguia receber bebidas pagas pelos clientes do bar. Talvez fosse isso mesmo que ela queria.

Ao final do show, sentou-se de frente para o dono do Carlos 7 e passou a conversar. Eduardo percebeu uma mudança repentina, como se aquela cantora tivesse ficado nas melodias e desaparecido juntamente com o último acorde da última música. De rosto fechado, ela destilava palavras entre um gole e outro de conhaque. Eduardo pensou em levantar e ir até ela, mas faltou-lhe coragem. Talvez mais alguns goles daquele uísque nacional barato e, pelo excesso de gelo, sem gosto. Pediu outra dose e fixou o olhar nela. “Não é possível”, pensou. “Aqueles olhos negros diretamente em mim não podem ter sumido”. Tinha razão. A cantora esticou o braço para que alguém lhe acendesse o cigarro e viu Eduardo do outro lado do bar.

Foi um cruzar de olhos constrangedor para o rapaz, que logo desviou sua visão. Nervoso, fingiu olhar alguma coisa no celular, mas só conseguiu ver realmente duas chamadas não atendidas de Carol. “Vagabunda. Me dispensa e agora fica toda querendo dar a xoxota. Morra”. Ignorou. Foi tudo que ele precisava para criar um pouco de coragem e tentar falar com a cantora loira. A essa altura ela já estava de saída, de bolsa na mão e dinheiro para o ônibus separado. Foi a deixa para ele oferecer carona, seja lá onde ela more. Uma saidera em algum outro bar foi a única coisa que ele pensou na hora. E nem perguntou o nome dela.

O caminho até o Murada no Rio Vermelho foi rápido, porém poucas palavras foram ditas. Ela passou quase o tempo todo no celular falando com um homem. Eduardo só conseguiu se concentrar nas ruas por mera questão de necessidade: seus olhos estavam realmente fitados nas coxas dela. E como eram grandes e definidas. Com aquele vestido vermelho, então... Realçava mais ainda.

Enfim sentados. Eduardo foi rápido e pediu uísque sem gelo, e dessa vez Red Label. A cantora ficou na água.
- Às vezes eu gosto de vir aqui sozinho.
- E porque me trouxe dessa vez? – acendeu o cigarro
- Pra ver se tem a mesma graça acompanhado.
- E qual a graça do bar?
- Não sei... Olho as pessoas e tomo meu uísque. Nada demais. E sozinho é melhor pra fazer isso. Não acha?
- Pode ser. E hoje você não tá afim de “olhar as pessoas”?
- Não exatamente. À 1h30 da madrugada de uma terça-feira não aparece muita gente pra ser observada.
- Quer dizer então que eu sou o estepe da sua noite?
- Gostei de você
- É? Desde que horas? Vi quando sua queridinha saiu enfurecida. Eu tava...
- Tocando Djavan. Eu odeio Djavan.
- Eu também.

Riram juntos e continuaram a conversar sobre música. Ela sabia pouco, é verdade, e nem conhecia Lupicínio Rodrigues ou Ataulfo Alves, dois grandes ídolos para Eduardo. Mas até que ela cantava bem, tinha voz, tinha postura e sabia cativar os clientes. Ela disse ser essa sua grande característica. Ele não respondeu nada, mas ficou na dúvida se cantora de boteco tem lá alguma “característica”.

- Poxa... 3h40! Tá ficando tarde, não acha?
- Eu te trouxe aqui, eu te deixo em casa. Mora onde?
- Precisa não. Vou de táxi. Tô acostumada. E não fica mal pra você chegar em casa a essa hora?
- Ninguém me espera. Sou livre, assim como você. Quer dizer... Eu acho.
- Está na hora, Du. Toma esse cartão. Me liga quando tiver afim de me mostrar alguns discos ou ver um filme de Glauber Rocha.

Essa última frase mexeu com o rapaz: “onde já se viu cantora de boteco sujo da Carlos Gomes se interessar por Glauber Rocha”. Viu a moça se afastar e pôde, enfim, observar a bunda da cantora. Era lisa e bem torneada, mas não muito grande. O último gole do uísque desceu da melhor maneira possível. Levantou e pendurou a conta, como sempre fazia. Antes de entrar no carro, resolveu dar uma olhada no cartão: “Luana Star, cantora da noite. Contatos...”. Riu. Olhou atrás e não se surpreendeu ao ver a marca de um batom vermelho escuro exalando um forte cheiro. Melhor assim.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A maçã e a vingança

Tudo começou quando Rosa ainda era Rosa, e não Dona Rosa, como a maioria das pessoas a chama. Ela tinha uma pequena mercearia na Cidade Baixa, ali perto da Calçada, um lugar que de tão pequeno ganhou o nome de “Mercearinha”, mais tarde ficando Inha. “Vou ali em Inha”, era o que o povo dizia quando precisava comprar leite ou manteiga na mercearia de Rosa. Foi naquela época que ela começou a desenvolver essa mania.

Rosa tinha o estranho hábito de conhecer as pessoas pelo que elas compravam. No seu estabelecimento era mais complicado, pois tudo que lá vendia era de necessidade básica, portanto, de acesso a todos. Mesmo assim ela adorava observar. Sabia que Seu João só levava manteiga dia de quinta-feira, que Tuísca comprava leite dia sim dia não, que Dona Marilda não comprava nada e só ia lá para bater papo.

Rosa casou, mas sua mania continuou. Desistiu de ganhar a vida com mercearia e acabou virando dona-de-casa. Seu marido, Arnaldo, trabalhava em um banco na Graça e eles moravam em Brotas. Ela adorava dizer que morava em Brotas porque ninguém sabia ao certo em qual “Brotas” ela morava: se na parte pobre ou na parte rica. Melhor assim. Lá era o bairro ideal para Rosa, que fazia compras cada dia num supermercado diferente. Dos menores aos mais sofisticados da vizinhança.

A dona-de-casa passeava todos os dias com sua bolsinha e ia direto ao mercado. Comprava de pouco em pouco para ter a obrigação de ir todos os dias a algum mercadinho. Passava horas observando quem comprava o quê, em qual quantidade e em qual companhia. Sabia de longe se a pessoa era solteira; os solitários compram mais comida pronta e bobagens, como chocolates e salgadinhos. Se a pessoa era casada era fácil: sempre tinha no carrinho algum produto do sexo oposto, como barbeadores ou absorventes. Quem tinha filhos acabava sempre comprando alguma coisa para eles, ou então optava por produtos com marcas de temas infantis, como maçãs da Turma da Mônica ou algum congelado da Disney.

Gostava mesmo era da seção das frutas. Homens não compram maçãs nem pêras, pensava Rosa. Mulheres cheiram tudo, amassam limões e laranjas à procura da fruta perfeita. Homens jogam tudo de qualquer jeito. A cerveja sim, eles escolhem com gosto. O primeiro sinal se o rapaz é pobre, ensina Rosa, é saber se ele escolhe a bebida pelo preço ou pela própria vontade. Tem gente que compra uma cerveja diferente a cada semana. Rosa observava Durval, um figurão da região, que sempre comprava cerveja de uma marca específica, de um nome estrangeiro enrolado que ela não conseguia ler. E levava também salame, mussarela e muita carne de corte especial. Esse era rico e bonitão, pensava Rosa. Corria para ver o carro dele na saída e se vangloriava ao perceber ser um importado.
Rica ela não era e ficou pior quando Arnaldo perdeu o emprego. Depois de meses sem arranjar nada, a única solução foi ela própria procurar trabalho. Nem precisou pensar muito quando viu um anúncio de uma rede de supermercados de Brotas. Virou rapidamente gerente de seção, aquelas mulheres que ficam com rádio organizando as seções de alimentos e mandando nos pobre coitados que empilham tudo direitinho. Mas ela era uma chefe boa.

Como Arnaldo ainda não tinha arranjado emprego, a situação financeira da família estava cada vez mais complicada. E o desespero só não se abateu por completo porque Rosa é uma mulher sagaz. Propôs um negócio a seu marido que, de tão absurdo, poderia até dar certo. Como ela conhecia todas as pessoas do mercado, mas sem elas a conhecerem, Rosa sabia exatamente como pegá-las de surpresa ou, mais grosseiramente, como roubá-las.

Arnaldo negou no começo, mas viu que não tinha outra solução. O negócio estava armado: Rosa acompanhava a vítima dentro do mercado, vendo pela compra qual a procedência da pessoa, sorrateiramente via qual era o carro e falava por telefone a Arnaldo. A partir daí o marido tinha apenas que seguir e arranjar um jeito de roubar.

Inicialmente o casal escolhia as vítimas de duas maneiras: mulheres sozinhas ou mulheres acompanhadas de criança. Mas só se elas comprassem coisas caras, e ai é que Rosa identificava. No estacionamento subterrâneo elas se distraiam facilmente e na maioria das vezes Arnaldo se oferecia para ajudar a pôr no carro. Nesse vai e vem do carrinho para o porta-malas, vários sacos eram desviados e pronto: o casal já tinha o que comer por uma semana e a pobre mulher só ia descobrir quando chegasse em casa.

Como já estava ficando fácil demais, Arnaldo pegou o gosto da coisa e incrementou a tramóia. Depois de ter certeza (através de informações de Rosa) de que uma determinada pessoa estava a pé e morava sozinha, Arnaldo seguia a vítima e em certo momento esbarrava “sem querer” nela. Como todos os sacos iam pelo chão, ele humildemente pedia desculpas e se oferecia, sem aceitar um “não” como resposta, a levar as compras até o destino final.

Chegando à casa, o golpe fatal era fácil. Como na maioria das vezes era uma Senhora (e ele provavelmente vai pagar seus pecados no inferno por isso), ele a enrolava e acabava ficando para tomar um café ou se oferecia para fazer um curativo decorrente do esbarrão; às vezes as pobrezinhas iam ao chão. E aí, com todo cuidado, ele roubava de tudo: faqueiros de prata, cristais, liquidificadores e muito dinheiro. Percebeu que todos tinham um esconderijo que aparentemente era infalível, mas quase sempre era fácil de descobrir. A dupla já tinha seus métodos friamente calculados e seus golpes eram de execução perfeita. Sem falhas.

Essa semana um rapaz esbarrou em mim na rua. Eu cheguei a cair e minhas compras foram ao chão. Minha cerveja estourou. Mas o rapaz era solícito e foi até meu apartamento me ajudar. Foi lá que eu prendi esse filho da puta, o Arnaldo. Foi de lá que ele ligou urgente para Rosa, uma vadia sem escrúpulos que veio correndo. Os dois estão na minha sala no momento imóveis, presos por cordas e amordaçados. Antes, contaram a mim essa história patética. Antes de matar os dois vou comer uma maçã da Turma da Mônica.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Divina Providência

Já passava da meia noite. Num estampido que o bairro todo ouviu, Dona Maria da Graça gritou. E gritou alto. Aparentemente, com o pouco que conhecia, Seu Hilário constatou que a bolsa da esposa havia rompido e o melhor a fazer era correr para o hospital. Naquela Salvador dos anos 60, era difícil encontrar carro de aluguel, ainda mais uma moça jovem e carnuda sangrando pela vagina. Foi uma correria só. Maria estava grávida de 6 meses apenas. Só um milagre salvaria o bebê.

Foi assim que, 48 anos atrás, nasceu Divina Providência. É por isso que agora, nesse agosto maravilhoso, seus parentes estavam comemorando o aniversário da quase senhora. Divina ainda lembrava da mãe com carinho, morta há alguns anos, e tentava conter o pai, que todo aniversário da filha contava a história do parto. Daí o nome. A própria era contida nessas intimidades e somente as contava ao jovem padre José, da paróquia da Graça. Nem mesmo Amâncio, seu marido 10 anos mais velho, sabia de coisas íntimas dela.

Padre José ouvia quase todos os dias a voz de Divina. Mesmo de longe já reconhecia o timbre da moça; sim, gostava de chamá-la assim, mesmo que ela se sentisse com vergonha. Mas ele não. Divina freqüentava a igreja quase todos os dias. E confessava. E orava. E não faltava a nenhum chá que as beatas da Graça ofereciam em seus palacetes decadentes. Pelo menos passava o tempo e jogava conversa fora.

Ela também freqüentava a sacristia do jovem padre, sempre solícita em suas questões religiosas. Ajudava até na preparação da hóstia. Chegava sempre alguns minutos antes da missa das 7 da manhã, mas naquele dia escuro de agosto chegou um pouco mais cedo, talvez correndo da chuva que ameaçava desabar. Não foi uma boa hora. No virar do corredor, deu com o jovem padre José trocando de roupa. Ali mesmo. No arribar da bata, Divina só conseguiu ver o corpo jovial de José; e nessa hora ela nem conseguiu distinguir o padre do homem. Um calor subiu-lhe pelas pernas e só encontrou guarida num suspiro calado. Deu meia volta e saiu chispando.

De noite, Divina estava melhor (tinha passado o dia enfurnada no quarto) e mais disposta durante o jantar. Fez até um afago solitário no marido, algo que não acontecia há muito tempo. Os dois subiram quietos como sempre e Amâncio o tempo todo a falar de contas e conjecturas financeiras, algo que sua profissão de contador não lhe deixava esconder. Divina estava mais lânguida e o marido percebeu a deixa. O casal fazia sexo somente algumas poucas vezes por mês, muito diferente do começo do casamento. Mas nessa noite Amâncio partiu pra cima e Divina, com uma serenidade sexual, deixou que rolasse. O melhor sexo em anos.

Claro, Divina estava com a cabeça em outro local. Mesmo com seus 48 anos, ela ainda dispunha de coxas roliças e um corpo bem cuidado, apesar das carnes que às vezes lhe fugiam de alguns vestidos. Sentiu-se consumida naquela missa do dia seguinte. Apesar de tudo, ainda achava que o padre José poderia sentir algo por ela. Era difícil, mas sim, era possível. Até a bata e todo ritual da missa agora lhe trazia um tesão arrebatador. Esperava a noite com um furor irreconhecível e atacava Amâncio de jeito que ele nunca vira antes.

Com todo esse calor, o casal voltou a transar diariamente e, dessa vez, com muito mais vontade. Até fantasias Divina preparava e exigia o mesmo do marido. Numa dessas noites ela pediu a ele que abrisse a caixa de presentes e vestisse aquela fantasia. “Fico doida só de pensar em você vestindo isso”, disse ela. Amâncio apressou-se em colocar a fantasia de padre e, naquela noite, Divina chegou a acordar os vizinhos com seus gritos de amor.

Gritos verdadeiros, mas Divina sempre se excitava mais com a fantasia de padre que Amâncio vestia, o que levou o marido a desconfiar de alguma coisa. Foi então que decidiu, de surpresa, aparecer numa missa. Sentou-se ao fundo para que ninguém o visse e constatou algo que lhe deixou encabulado, pois concluiu que os olhares da esposa para o jovem padre José eram insinuantes. Daí ligou com a fantasia... E pronto. O homem saiu enfurecido para casa. Lá esperou Divina e só não deu na cara dela porque alguma força sobrenatural o segurou. O homem era só raiva. Dizia impropérios, xingava as gerações dela, maldizia os católicos, sobrando até para o padre.

O jovem Pedro não sabia o que lhe aguardava. Amâncio saiu furioso de casa em direção à paróquia. Dizem que ninguém é homem até ser corno e que, dessa forma, a alma só pode ser lavada com sangue. Amâncio não pensava em nada, mal sabendo ele que o adultério de Divina só existia na cabeça da moça. Pobre padre José. Nem viu da onde veio o primeiro soco, que estourou-lhe o nariz. Mal conseguiu levantar e tomou outro chute no rosto, dessa vez custando-lhe dois dentes. O tiro, então, ele talvez nem tenha sentido e foi certeiro no peito. A av. Princesa Leopoldina ficou surda no momento. Divina vinha atrás e caiu de joelhos em desgraça.

Com os meses que se passaram, Divina dividia o tempo entre o hospital e o presídio Lemos Brito, para onde Amâncio foi encaminhado depois do julgamento. Não deixou um domingo sequer de visitar o ex-marido. A sorte dele é que sua pena estava reduzida, já que o jovem padre José não morreu. Um milagre salvou o rapaz, depois de sangrar muito na escadaria da igreja. Passou 6 meses no hospital e saiu quase ileso sem nenhuma seqüela, pronto para ocupar o lugar do homem da casa de Amâncio. José e Divina passaram a viver juntos tórridos momentos de amor. Ele, excomungado, estudava letras na universidade e dava aulas de filosofia para pagar as contas. Ela cuidava da casa, como sempre. Mas nunca deixaram, sempre os dois juntos, de visitar Amâncio na penitenciária.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Desilusão

De uma só vez Gorete conseguiu o que muitas mulheres na sua profissão não conseguiam: estabilidade. A antiga empresa em que trabalhava tinha fechado as portas, mas o que parecia ruim a princípio tornou-se uma grande oportunidade de conhecer novas pessoas e seu novo chefe. O nome dele era Charles e ofereceu a Gorete uma boa oferta de trabalho. Ela era prostituta.

No jargão local, toda prostituta tem seu preço. Não, não o preço para ir para cama. Gorete e todas as outras tinham seu preço para mudar de local de trabalho. Se antes ela era mais uma entre tantas dançarinas de um cabaré decadente da orla de Salvador, hoje ela ocupa uma bela mureta na mesma orla, mas num local estratégico de passagem. Não deve a ninguém, e só quem pagou para ela mudar foi Charles, que fica com 30% de tudo o que ela ganhar. Bem melhor do que os 50% que o puteiro anteior tirava dela.

É claro que Gorete não usava seu nome de batismo na luta noturna pela conquista de clientes. Ela era Sybele, assim mesmo com “y”. Aquele novo ponto de trabalho era comandado por Charles, que tinha também quase todos os pontos da orla da Pituba. Era bom para ela, principalmente nos fins de semana, pois sua mureta ficava estrategicamente localizada em frente a um dos maiores puteiros de Salvador. Era valorizadíssimo no mercado. Dizem até que Charles matou dois numa briga somente para ter controle do lugar. Ali era cliente certo. Sybele dava duro todas as noites e quase não tinha dias de folga.

No início alguns até estranhavam, porque a prostituta não tinha um belo corpo e a idade já começava a incomodar. Mas tudo isso ela compensava com seu olhar lascivo e hipinotizante que cativava todos que paravam na rua. E ela dava conta do recado como poucas, tanto é que muitos clientes voltavam para repetir a dose. Charles era um homem de visão.

Em dias movimentados era impossível encontrar Sybele no seu posto e algumas meninas até esboçavam tomar a mureta dela, mas o cafetão estava sempre a postos para proteger o local. Todas as noites Sybele aparecia vestida de forma que todos os homens olhavam para ela, até mesmo distintos senhores que passavam de carro acompanhados das esposas. Era impossível não achá-la linda metida naquele vestido vermelho ou na combinação perfeita da calça apertada e da blusinha escrita “I Love NY” que deixava parte da barriga de fora. No carnaval muitos estrangeiros passavam por ali e não resistiam à beleza morena de Sybele.

Foi numa dessas passagens que Gorete disse a Charles que queria largar o ofício. Macaco velho, o cafetão bem sabia do que se tratava. Aliás, era um risco que ele sempre corria quando uma menina fazia muito sucesso. O assédio de gringos é sempre forte e a oferta para deixar o país é quase inevitável. Como numa história de contos de fadas, depois de três anos trabalhando no mesmo ponto, Sybele criou asas e bateu pra longe dali. Ia para a Itália ao lado de Marriconi, um grande engenheiro que trabalhava numa grande empresa no país da bota.

Charles se viu perdido. Mas Gorete, aposentando o nome de Sybele, estava muito feliz com a mudança. E gostava mesmo de Marriconi, apesar de se incomodar um pouco com seu pênis pequeno. Mas afinal, depois de tantos anos fazendo sexo quase que diariamente, um pênis pouco avantajado não iria sujar seu futuro. E o italiano era bondoso e dava muito carinho a ela. Na Itália, a vida dos dois era muito romântica: viagens pela Europa, bons restaurantes, casa grande e sexo esporádico. Mesmo sem poder ter filhos, Gorete não se abatia.

Os bons 10 anos que passaram juntos foi, como diz o ditado, “eterno enquanto durou”. Nesse tempo todo, eles nunca voltaram ao Brasil e se preparavam para a tão esperada viagem que enfim iria acontecer. Até que Marriconi morreu de um ataque do coração devido a um bem sucedido ménage a trois. Ele não agüentou.
Gorete foi aos prantos e assim ficou por dias, até que a família dele, que a essa altura já sabia do seu passado, não pensou duas vezes em deixá-la com a mão na frente e outra atrás. Mandou a ex-prostituta de volta ao Brasil sem que ela tivesse chance de reação. E sem nada no bolso a não ser desilusão.

O desembarque foi triste. Tudo tinha mudado, até o nome do aeroporto, que era agora chamado por um nome esquisito de alguém que ela não tinha a mínima idéia de quem era. Com poucos trocados no bolso, Gorete tentou voltar a seu velho bairro, mas agora era quase tudo pó ou condomínios intermináveis e de uma mesma cor. Tinha muito mais gente na rua e muito mais dor.

A única saída era esperar à noite e torcer para que Charles ainda estivesse tomando conta do local. Mas não, não estava. Ela descobriu quando voltou à sua velha pituba pela noite e não reconheceu nenhuma das meninas que faziam ponto nas redondezas. Só se lembrava de Zé, um velho guardador de carro que permanecia firme na profissão. Foi ele quem disse que Charles já não mandava ali fazia tempo, “desde que botaram mármore na calçada”, disse. Ela olhou para o chão e entendeu, mesmo que melancolicamente.

Nos meses seguintes ela penou, mas conseguiu sobreviver. Claro, teve que voltar à sua velha profissão de prostituta, mas agora aliando-se a gente muito duvidosa. Sentia saudades de Charles toda noite. Ontem ela não foi para cama com ninguém. O mesmo que vem ocorrendo desde o mês passado, quando o movimento caiu bastante. Mas ela todo dia está lá. A velha mureta? É ela mesma, mas hoje pouco valorizada pelo fato de que não há muita coisa boa por perto. Nem puteiro, nem casa de jogos, somente um bar decadente. Nas noites de chuva nem tem mais onde se esconder e sua única companhia é uma lata diária de Coca-cola light.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Milagre da medicina

Mesmo com o dia chuvoso, Jackson correu de casa direto para a Baixa dos Sapateiros. As lamas e poças se acumulavam pelo caminho e era difícil não topar com uma aqui e outra ali. Nem tinha dado 8h quando ele chegou à barraquinha de Seu Gonçalves, numa das vielas do bairro.

- Bom dia, seu Gonça... Me dá aquela porra pra subir o pau
- Qual dos, Jack?
- O Pramil, Gonça. Tu bem sabe do que tô querendo
- Mas hoje né seu dia de sorte não, meu camarada. A parada acabou ontem.
- Como acabou ontem!? Tô precisando, arranja logo ai que ainda tenho que ir trabalhar
- Tô lhe dizendo, man. Não sobrou uma pilulazinha sequer.

Jackson não fez cara de bons amigos. Já há alguns meses que ele vinha tendo problemas com ereção. No começo achou que era balela e nem deu bola, mas depois que Bernadete deu um pé na bunda dele por falta de sexo, o negócio ficou sério. Os amigos lhe indicaram o tal Pramil, pílula milagrosa proibida de ser vendida em Salvador e provavelmente no Brasil todo. Ninguém sabe de onde vem, mas Seu Gonçalves tem sempre disponível. Menos naquele dia.

E logo na quarta, que era o dia de dar o trato em Silvinha, a faxineira mais gostosa do Center Lapa. É verdade que ela tinha lá seus 40 anos, mas era cobiçada por todos e seus seios viraram até lenda nos Barris, de tão grandes e perfeitos que eram. Jackson tinha conseguido ir pra cama com ela mais de uma vez, um recorde que ninguém nas redondezas havia conseguido. A primeira vez foi no estacionamento do shopping. Quando Silvinha viu o volume por debaixo da calça ficou impressionada. Claro, ele havia tomado o Pramil mais cedo e o bendito estava fazendo efeito. Foi amor à primeira vista.

De lá para a quarta-feira chuvosa se passaram um mês exatamente e os dois já tinham ido para cama por mais de 10 vezes. O hotelzinho da ladeira da Estação da Lapa era endereço freqüente dos dois. Porém, o problema era que Jackson só conseguia transar com Silvinha sobre efeito do remédio. E então ele tinha agora que caçar nem que fosse uma mísera pílula pra poder fazer o pau subir de qualquer jeito.

Se na Baixa dos Sapateiros ele não conseguiu, o único lugar que sobrou era a Avenida Sete, mas lá Jackson era muito conhecido e ia pegar muito mal. E para quê servem os amigos? Beiço foi o encarregado de comprar a mercadoria na mão de um tal de Eduardo “Corta Braço”, alcunha intimidadora, porém de procedência corretíssima. Com R$10 Beiço conseguiu levar dois comprimidos para Jackson que não conteve a felicidade: tomou logo de tarde a primeira pílula para garantir uma noite dos sonhos à Silvinha.

Á noite correu tudo bem. Jackson pegou Silvinha no trabalho, foram comer um hot-dog por ali mesmo e se jogaram apaixonadamente no hotel da ladeira da Estação da Lapa. O local não era muito amistoso, mas era o suficiente para Silvinha se deliciar no resultado do Pramil. Ela não deu trégua a noite toda e foi sexo de tudo quanto é jeito e nada de Jackson gozar: mais de 1h20 sem tirar e sem gozar; já era o novo recorde do casal. E quem disse que ela reclamou? A situação era perfeita para Silvinha, que àquela altura já havia gozado quatro vezes. Mas veio a hora do gozo do rapaz.

Numa fração de segundo, que nem Jackson conseguiu pressentir, o jorro veio forte e acompanhado de uma forte dor de cabeça. Os dois caíram estatelados na cama e só 2 minutos depois Silvinha foi olhar pro lado e viu que algo não estava nos conformes. Jackson parecia não respirar, o suficiente para ela entrar em desespero. Foi um tal de gritaria que o dono do Hotel, Seu Antônio, apareceu esbaforido e não acreditava que o homem havia desmaiado naquela situação, se é que algo pior não acontecera.

Os dois correram e levaram, no carro de Antônio, Jackson diretamente para o HGE. Silvinha estava branca que nem papel e nem percebeu que o membro de Jackson ainda estava em riste. O hospital estava lotado, mas mesmo assim ele conseguiu ser atendido rapidamente. Algumas horas depois o médico apareceu.

-Senhora, é o seguinte: muito provavelmente seu namorado tomou algum tipo de medicamento para ereção. Esses remédios têm como função a “vaso dilatação”, aumentando o fluxo sanguíneo na região peniana. O problema é que essa dilatação não é seletiva e atinge o corpo todo, inclusive a cabeça. Em decorrência disso seu namorado teve uma AVC e encontra-se no momento em coma na UTI. Quando tiver mais informações aviso a Senhora. Boa sorte.

A noticia não poderia ser pior. Primeiro ela nem sabia que o rapaz era impotente. E depois... Coma? Ninguém sabia quanto tempo isso ia durar. Mais tarde ela foi visitar Jackson e notou um volume na coberta: era o pênis dele que ainda estava ereto com toda sua suntuosidade. Silvinha engoliu o choro e não segurou a tentação de pegar no membro de Jackson. Pegou com vontade, ensaiando até movimentos mastubartórios que a deixaram louca de tesão.

Nos meses seguintes, em que Jackson continuava em coma, o milagre da medicina que o matinha vivo era o mesmo que mantinha a ereção contínua depois de tanto tempo. Claro que Silvinha ajudava. Ela ia todo dia masturbar o namorado.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Fusca azul

- Me lenhei!

Essa foi a única coisa que Cupertino conseguiu falar quando viu seu fusca colidindo com uma Pajero Full. Desespero total do nobre Cupertino, homem naquela idade que os jovens classificam como “coroa”. O fusca era azul.

A Pajero Full na verdade não estava sozinha: ela acompanhava uma comitiva que se dirigia ao Palácio de Ondina, residência oficial do governo do Estado. No exato momento que Cupertino pronunciou as famigeradas palavras já haviam 3 pistolas semi-automáticas apontadas para sua cabeça. Aquele carro era da Polícia Federal, escolta do príncipe da Suécia que estava fazendo uma visita oficial à Bahia.

- Que porra o príncipe da Suécia vem fazer na Bahia? Calor danado...
Essa foi a única coisa que Cupertino conseguiu falar quando soube disso tudo. O prejuízo, então, era maior do que ele imaginava.
- Meu senhor, é o seguinte: sou pobre, trabalhador, não tenho dinheiro para pagar esse conserto ai.
- Você nem sabe quanto é e já tá chorando é?, disse o policial raivoso
- Não... Não é bem assim. É porque qualquer que for eu não tenho. Tô quebrado, man.
- Você quer então que eu chame a SET?
- Não! Não, a SET não.
- Então temos um impasse. Você vai ter que fazer alguma coisa. E logo, porque não quero perder muito tempo. A comitiva já tá desfalcada e já vou levar uma bronca por causa de você. Diz alguma coisa, mané.
- Porra, seu policial... O bixo tá pegando mesmo pro meu lado. Diz ae outra coisa que eu possa fazer, na moral!

Passaram-se alguns minutos de conversa entre o policial e Cupertino.
- Como é!? Vocês querem me fuder mermo, na moral...

Essas foram as únicas palavras que o coroa conseguiu proferir quando soube do que os federais queriam: um laranja. Cupertino seria uma espécie de isca para prender um traficante famoso no Péla Porco, aquela invasão cabulosa das mais perigosas de Salvador. O plano era simples e só precisava de um otário para executá-la. Primeiro Cupertino ia se vestir de figurão, ou seja, com roupa chique e toda pompa. Depois ele iria subir o morro para comprar uns papelotes de cocaína, mas no meio da transação, ele iria ainda requisitar umas pistolas. E ai a polícia, que estaria escutando tudo pelo microfone, invadia o local atirando em tudo quanto é coisa e prenderia o tal trafiante, o Zé Belé. Dois coelhos numa cajadada só.

No dia marcado, Cupertino chegou a cogitar a possibilidade de fugir. Pegar seu fusca azul e partir em direção a Aracaju ou qualquer outro buraco. Mas não dava. E lá foi ele.

Para a surpresa de todos, o plano não só deu certo, como a polícia não precisou disparar um tiro sequer. No meio da negociação o coroa ainda pediu prostitutas de menor. Tudo ficou registrado e ele mesmo sacou uma arma e rendeu Zé Belé. A Polícia Federal só chegou para prender o sujeito e apresentar à imprensa.

Cupertino ficara livre daquela situação, mas o gostinho que ele sentia era de “eu posso com esses porra, vu?!”. Deu uns meses e o coroa tava tomando sua tradicional cerveja no Bar do Lado, ao lado do Bompreço da Fonte Nova. Encontrou o tal policial lá.

- Topo!
Foi o que se ouviu no buteco quando Cupertino ergueu seu copo em brinde ao que o federal acabara de lhe dizer. Queria ele para outra missão, dessa vez em outra grande favela da cidade: Bairro da Paz.

Como não poderia deixar de ser, a operação foi um sucesso. Cupertino mais uma vez se vestiu de figurão e foi à luta, subiu morro, peitou ladrão, chutou vagabundo e deu tiro pra cima. Ele se sentia o próprio Capitão Nascimento. E não foi só dessa vez não. Quando a cúpula da Polícia Federal soube da fama do coroa, quis logo contratá-lo e não pestanejou em mexer os pauzinhos para aprová-lo num concurso público.

A vida de Cupertino, então, virou uma felicidade só. Com o dinheiro do novo emprego ele podia fazer quase tudo que queria. Comprou um Fiat Stilo, alugou apartamento na Graça, só comia as melhores putas da cidade e freqüentava a nata da night de Salvador. Mesmo assim ele ainda mantinha intacto seu Fusca Azul e, não contente, ainda tunou o bixo todo. Só usava em ocasiões especiais, às vezes até para impressionar uma gata, que se derretia toda com aquele policial rico e excêntrico por gastar tanta grana num mero fusca. E azul.

No meio policial sua reputação era intocável. Alguns o chamavam de Coroa Arrasador, outros de “o novo Exterminador do Futuro”. Chique.

Mas como nem tudo são flores, Cupertino teve lá seu dia de azar. O coroa era ambicioso e isso era inegável. Deu pra se meter com jogo do bicho, que ele sempre achou que dava muito dinheiro, mas nunca teve coragem (e grana) para entrar no negócio. Aliou-se a Mafra, um argentino que chegou ao Brasil com uma mão na frente e outra atrás e conseguiu fazer fortuna com o jogo em Salvador. A parceria era fácil, já que para Cupertino bastava apenas dar proteção policial e avisar sempre que houvesse batida ou qualquer outro tipo de investigação.

- Fudeu!
Foi o que disse Cupertino ao ser flagrado na casa de Mafra. Prisão em flagrante é a coisa que todo bandido teme porque não tem escapatória. Os dois foram levados, mas Mafra era milionário e conseguiu um bom advogado. O coroa não. Estava realmente fudido. Tentou então um acordo com os policiais para que limpassem sua barra e liberassem ele dessa enrascada. Esperto o tal do Cupertino. Mais ainda a Polícia Federal, que resolveu confiscar todos os bens dele além de raspar a conta bancária.

Meses depois Cupertino estava sozinho novamente, e contava apenas com seu velho fusca azul, única coisa que conseguiu salvar. No bar passava um jogo amistoso de futebol entre Brasil e Suécia.
- Suecos filhos-da-puta

terça-feira, 10 de junho de 2008

A professora gorda

Em dia de prova, Marta não dava mole para os alunos. Ela não fazia revisão nem se o diretor pedisse. “Prova é prova”, dizia a professora. Ela levava muito a sério esse negócio de avaliação e se orgulhava de, em 15 anos de profissão, nunca ter dado um 10 a um aluno. Marta era gorda e ensinava matemática.

Os alunos lhe davam uma centena de apelidos e o pior é que ele conhecia todos, mas fingia que nada sabia. Fazia parte do papel. Em sua casa Marta guardava cópias de algumas provas memoráveis, daquelas que nem os mais inteligentes da sala conseguiam resolver. Na sala ela também tinha uma TV grande para assistir a todas as novelas; definitivamente não era do tipo intelectual e nunca era chamada para o chopp de sexta-feira dos demais professores. Mas era culpa dela mesmo e a própria tinha consciência disso.

Na prova daquele dia Marta perdeu mais tempo do que o normal no trânsito da Bonocô, parado devido a problemas na obra do metrô. O dia era sagrado, é verdade, e os alunos receberam a avaliação com medo. Menos Deco. O rapaz adotou uma tática antiga de paquerar a professora, fato que com certeza seus amigos desaprovariam se soubessem. Mas lá estava Deco, furtivamente olhando para os seios flácidos e coxas moles de Marta. Ela, claro, achou aquilo muito estranho e não tirava o olho dele, só que para repreendê-lo. Prova terminada, olhares cruzados e Marta se encaminha para casa, mas uma coisa lhe comia o estômago. Comeu até uma coxinha com suco de laranja na entrada da Sete Portas, mas aquele sentimento não mudou. A professora durona, gorda e virgem estava passando por um momento único na vida.

Passou a noite se masturbando olhando a caderneta, que naquela escola chique da Pituba vinha até com foto pra facilitar na chamada. Marta dispunha de um arsenal de vibradores, desde os eletrônicos até os mais básicos. Pensou em Deco a noite toda e até se surpreendeu, já que normalmente se masturbava pensando em Prachedes e Deodato, dois professores gordos e cinquentões que nunca davam bola para ela.

Deco também passara aquela noite toda se masturbando pensando na professora gorda. No fundo de suas gavetas repousavam dezenas de Playboy e Sexy, porém o garoto passou o tempo todo olhando a foto de Marta no site da escola e se masturbando. O pensamento ia longe nas roupas folgadas dela e naquela mão que ele achava a mais macia de todas, embora tivesse tido pouco contato com Marta.

A sensação de toda aquela noite foi melhor ainda para ambos. Ela chegou na escola no outro dia sorrindo, um milagre que até os alunos perceberam e que, obviamente, deu mais um impulso para Deco continuar nas investidas. Naquele mesmo dia ele resolveu ser mais ousado e seguiu a professora até o ponto e pegou o mesmo ônibus dela. Numa habilidade a la Matrix, Deco repousou-se carinhosamente atrás dela e se aproveitou bastante do sacolejo que as ruas de Salvador proporcionam. Ela fingiu não ver e gozou violentamente ali mesmo, no exato momento de uma curva perigosa que, de tanto tesão, ela nem viu onde foi. Quando recobrou os sentidos, viu Deco sentado na cadeira de idosos e foi ousada: passou pelo menino e o puxou para fora do ônibus.

Só na troca de olhares os dois se entenderam, sem falar uma única palavra sequer. Caminharam alguns quarteirões até o apartamento de Marta, onde os dois transaram violentamente durante duas horas. Sem falar uma palavra sequer.

E foi assim que os dois continuaram se encontrando durante todo o resto do ano letivo e, “estranhamente”, Deco tirou as melhores notas da sala. Até um 10 Marta deu a ele, fato esse comentado em toda escola. Deco reinava na cama de Marta quase todos os dias. Até que Marta apareceu grávida.

Atordoado, o estudante resolveu abandonar as horas de sexo e cortou definitivamente relações com a professora. Marta ficou arrassada, mas mesmo assim decidiu seguir em frente com a gravidez e pôs Deco na parede: ou assume ou ela contaria tudo para todos. Ela decidiu pela última opção, muito embora tenha sido pior para ela. A escola decidiu por demitir a esforçada professora e abrir um processo administrativo, enquanto a família rica de Deco tentou acobertar tudo e se apegar na esperança do exame de DNA. Claro que nem foi preciso, uma vez que o próprio rapaz dispensou.

Marta passaria os 9 meses destruída pelo fim do relacionamento se não fosse pelas inúmeras cartas que recebeu. Os nomes ela reconhecia: João, Alberto, Ricardo, Álvaro, Menelau, Manoel, Sávio... Eram todos ex-alunos que confessaram um amor enrustido por ela. Muito mais que amor, e sim um tesão arrebatador que eles não sabiam de onde viam e escondiam de todos. Mastubarvam em silêncio pensando nela e agora se revelaram encorajados pela repercussão do caso.

O bebê nasceu e ganhou o nome de André. Marta estava tranqüila por que agora contava com muitos ajudantes. Ela ia para cama com todos ex-alunos que a procuraram. Muitos já eram casados, outros mantiveram-se solteiros a espera dela. Ninguém reclamava da divisão, pois o sexo era recompensador. Os vibradores foram aposentados.