Antes, leia a Parte I, Parte II e Parte III.
Dia 3 de janeiro acordamos quebrados e destruídos das caminhas e subidas do dia anterior. Então, porque não algo mais leve? E fomos nós para o riacho Mucugêzinho, um local aprazível, sem trilha, e perfeito para uma farofada colossal. Nos preparamos. Compramos cerveja, refrigerante, gelo, água, petiscos e pão com queijo. Armamos da melhor maneira possível, com isopor e bolsa térmica. A cerveja já saiu da pousada geladíssima.
Chegando ao Mucugêzinho, não nos surpreendemos com a quantidade de gente que também teve a mesma ideia que a gente, ou seja, a farofada estava completa. Lá também há uma queda d´água interessante, um pouco parecida com o Ribeirão do Meio - com uma formação de rochas que favorece à criação natural de uma escorregadeira. Mas essa é mais perigosa e poucos se arriscam, mas esses poucos corajosos fazem a galhofa do resto: é comum tombos e situações hilárias de quem se acha bravo o suficiente.
Estávamos todos curtinho a água, as pedras e as cervejas geladas. O ambiente muito tranquilo, que só foi quebrado quando o céu, em questão de 2 minutos, fechou-se completamente. Havíamos chegado lá há pouco mais de meia hora e era impossível acreditar que iria chover. Mas, sim, a chuva já se anunciava e, incrédulos, vimos desabar um temporal suficiente para expulsar metade do povo. Heroicos, resolvemos encarar, mas alguns minutos de pingos grossos nos fizeram cair na realidade e voltar. Pois é, a farofada tinha ido, literalmente, por água abaixo. Só nos restou correr o caminho de volta com isopor, mochilas e roupas da maneira que deu pra salvar. A cerveja, antes que se perguntem, permaneceu geladíssima.
Com nosso último programa frustrado, a solução foi beber em plena pousda e assistindo a Luciano Huck na TV. Eu sei, eu sei. Fomos viajantes ingênuos e não levamos baralho ou dominó, mas nada disso abalou nosso humor. O final e começo de ano tinha sido maravilhoso que uma chuvinha - a primeira do ano que, dizem, dá sorte - não iria atrapalhar jamais mais um encontro de amigos.
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
Diário de Viagem - Parte III: As trilhas
Antes, leia a Parte I e a Parte II.
O dia 2 de janeiro foi inteiro reservado para as trilhas e caminhadas pelos mais populares pontos turísticos da Chapada Diamantina. Ok, em muitos momentos me senti como aqueles turistas japoneses que tiram foto de tudo e permanecem atentos às informações dos guias. Mas também fiz das minhas, andando em locais mais arriscados à procura dos melhores ângulos para as fotos. Aliás, deixei a minha Olympus OM 10 velha de guerra guardadinha, pois ela é muito pesada e eu ainda não aprendi a mexer direito.
Uma boa dica para encarar bem as trilhas é não levar muito peso na mochila, já que esse último item é indispensável para carregar o que você vai precisar durante todo o dia: toalha, protetor solar (não subestime, passe sem dó), dinheiro, repelente, sandálias e uma ou outra coisa que sempre precisa. Se você acha que não vai aguentar andar tanto, ainda há uma esperança. Se eu e uma infinidade de sedentários conseguiu, você também pode. Mas, claro, prepare-se para arder no sol, cansar as pernas e suar muito.
Falando assim parece uma tortura, mas passa longe disso. Todo o esforço é recompesado com o visual que você vai encontrar. Nossa trilha começou no Poço do Diabo, uma caminhada no meio do mato e com algumas pedras, porém nada de muito complicado. O visitante vai encontrar, no começo do caminho, um riacho bem simpático, chamado Mucugêzinho, que é perfeito para montar uma farofa na acepção mais "roots" da palavra - e eu vou falar sobre isso mais adiante. Passamos direto e chegamos ao tal Poço do Diabo, uma queda d´água razoável, mas de uma água (congelante) deliciosa. O banho perto da cachoeira pode se tornar perigoso se você não for atento às pedras, fato comprovado por mim: feri o pé e a canela numa das rochas quando tentava dá pé perto da queda d´água. E relaxei. A cachoeira é perfeita para se tranquiliar e renovar todas as energias. A volta é mais trabalhosa, pois todo aquele caminho que você desceu vagarosamente sobre pedras, você terá de fazer subindo. Mas também é só o início, pois o resto é mais tranquilo.
Saindo de lá, era a vez de subir o Morro do Pai Inácio. Admito que olhando de longe dá medo, até porque lá em cima as pessoas são meras formigas à uma altura de mais de mil metros. O bom é que você terá que subir efetivamente "apenas" 160 metros. No chão é barbada, mas escalar o morro sob um sol de meio dia não é das tarefas mais agradáveis. Confesso que parei diversas vezes e, aliás, é isso que o visitante deve fazer. Vi muita gente subindo apressada para só contemplar a vista lá de cima, o que não é perfeitamente correto. Durante o caminho, se o visitante for parando, vai perceber que poderá apreciar belas vistas também: formações rochosas, plantas que desafiam a lógica e brotam das pedras, etc. Uma vez lá em cima, não há muito o que dizer. Quantas vezes na vida você terá a oportunidade de contemplar uma vastidão de montanhas, morros, vales...? E tudo isso há mil metros de altura? A sensação é de impotência perante tanta magnitude da natureza
O Morro do Pai Inácio é o centro de toda a Chapada Diamantina; basta olhar em volta, em 360º, para vislumbra-la toda. Engraçado que, diante de tamanha altura e vastidão, a vontade mais primitiva do homem assola: voar. Sério, não só eu, mas muita gente tem a sensação de querer pular diante de uma altura tão grande. E assim é no Morro do Pai Inácio, pois numa fração de segundo a vontade realmente é fechar os olhos e saltar. Claro, não se tem notícia de alguém que tenha feito isso.
A próxima parada era o almoço, ali pertinho, num posto de gasolina. A comida, aliás, é péssima, e se sugerirem isso, fuja léguas. Mas nenhuma reação intestinal aconteceu, então, deu pra curtir bem as duas próximas atrações. A Gruta Azul, como o próprio nome entrega, é a boca de uma caverna em que a água do local, quando refletida a luz, torna-se azul. Contudo, esse "fenômeno" só acontece de junho a setembro, o que não foi nosso caso, infelizmente. A água era normal, nada demais; cheguei até a duvidar do local, pois, trocando em miúdos, a única coisa que dava para ver era uma água turva. Nada mais. A graça foi se esgueirar nas pedras, com cuidado para não levar poeira ou terra para a água, e tentar tirar uma foto que revelasse a cor azul. E assim foi. A foto saiu, e depois eu fui informado que existem pelo menos mais 3 ou 4 lugares na Chapada com águas igualmente azuis. Dispenso.
Não, eu não dispenso a próxima parada: Pratinha, um lago que de tão transparente faz você duvidar que aquilo não foi feito no photoshop. A ideia é pular logo, ainda mais que existe a tiroleza, essa invenção mundana que casa perfeitamente com belezas rústicas como a Pratinha. A descida é rápida, mas sensacional. O banho, então, melhor ainda. Também há a opção de um passeio de flutuação pelo lado da caverna da Pratinha, onde dá pra ver peixes e formações rochosas interessantes. Fiquei só no banho.
Já passava das 17h quando chegamos ao último destino do dia. Estava extremamente cansado, mas pouco sabia do que me aguardava. A Gruta Lapa Doce - para os noveleiros, foi aonde algumas cenas de A Favorita foram gravadas, com Lara, Flora e Cassiano - é um lugar magnífico. Volto a pergunta do "quando na sua vida..." para indagar: quando na sua vida você terá a oportunidade entrar numa caverna? Pois eu nunca tinha ido e confesso que foi o melhor passeio de todos. O local é imenso, cheio de pedras, areia, estalagmites e uma infinidade de outros fenômenos naturais que eu jamais tinha visto em minha vida. O espetáculo mudo e inerte é fascinante. O caminho dentro da caverna é de cerca de 600 metros, sempre com a ajuda do guia e seu lampião à gás, que, em um dado momento, é desligado e nos brinda com uma experiência única na vida: a escuridão total e absoluta. Além, claro, do silêncio pertubador, em que só ouvimos os amigos e nós mesmos respirando.
O último dia ainda reservava momentos engraçados.
O dia 2 de janeiro foi inteiro reservado para as trilhas e caminhadas pelos mais populares pontos turísticos da Chapada Diamantina. Ok, em muitos momentos me senti como aqueles turistas japoneses que tiram foto de tudo e permanecem atentos às informações dos guias. Mas também fiz das minhas, andando em locais mais arriscados à procura dos melhores ângulos para as fotos. Aliás, deixei a minha Olympus OM 10 velha de guerra guardadinha, pois ela é muito pesada e eu ainda não aprendi a mexer direito.
Uma boa dica para encarar bem as trilhas é não levar muito peso na mochila, já que esse último item é indispensável para carregar o que você vai precisar durante todo o dia: toalha, protetor solar (não subestime, passe sem dó), dinheiro, repelente, sandálias e uma ou outra coisa que sempre precisa. Se você acha que não vai aguentar andar tanto, ainda há uma esperança. Se eu e uma infinidade de sedentários conseguiu, você também pode. Mas, claro, prepare-se para arder no sol, cansar as pernas e suar muito.
Falando assim parece uma tortura, mas passa longe disso. Todo o esforço é recompesado com o visual que você vai encontrar. Nossa trilha começou no Poço do Diabo, uma caminhada no meio do mato e com algumas pedras, porém nada de muito complicado. O visitante vai encontrar, no começo do caminho, um riacho bem simpático, chamado Mucugêzinho, que é perfeito para montar uma farofa na acepção mais "roots" da palavra - e eu vou falar sobre isso mais adiante. Passamos direto e chegamos ao tal Poço do Diabo, uma queda d´água razoável, mas de uma água (congelante) deliciosa. O banho perto da cachoeira pode se tornar perigoso se você não for atento às pedras, fato comprovado por mim: feri o pé e a canela numa das rochas quando tentava dá pé perto da queda d´água. E relaxei. A cachoeira é perfeita para se tranquiliar e renovar todas as energias. A volta é mais trabalhosa, pois todo aquele caminho que você desceu vagarosamente sobre pedras, você terá de fazer subindo. Mas também é só o início, pois o resto é mais tranquilo.
Saindo de lá, era a vez de subir o Morro do Pai Inácio. Admito que olhando de longe dá medo, até porque lá em cima as pessoas são meras formigas à uma altura de mais de mil metros. O bom é que você terá que subir efetivamente "apenas" 160 metros. No chão é barbada, mas escalar o morro sob um sol de meio dia não é das tarefas mais agradáveis. Confesso que parei diversas vezes e, aliás, é isso que o visitante deve fazer. Vi muita gente subindo apressada para só contemplar a vista lá de cima, o que não é perfeitamente correto. Durante o caminho, se o visitante for parando, vai perceber que poderá apreciar belas vistas também: formações rochosas, plantas que desafiam a lógica e brotam das pedras, etc. Uma vez lá em cima, não há muito o que dizer. Quantas vezes na vida você terá a oportunidade de contemplar uma vastidão de montanhas, morros, vales...? E tudo isso há mil metros de altura? A sensação é de impotência perante tanta magnitude da natureza
O Morro do Pai Inácio é o centro de toda a Chapada Diamantina; basta olhar em volta, em 360º, para vislumbra-la toda. Engraçado que, diante de tamanha altura e vastidão, a vontade mais primitiva do homem assola: voar. Sério, não só eu, mas muita gente tem a sensação de querer pular diante de uma altura tão grande. E assim é no Morro do Pai Inácio, pois numa fração de segundo a vontade realmente é fechar os olhos e saltar. Claro, não se tem notícia de alguém que tenha feito isso.
A próxima parada era o almoço, ali pertinho, num posto de gasolina. A comida, aliás, é péssima, e se sugerirem isso, fuja léguas. Mas nenhuma reação intestinal aconteceu, então, deu pra curtir bem as duas próximas atrações. A Gruta Azul, como o próprio nome entrega, é a boca de uma caverna em que a água do local, quando refletida a luz, torna-se azul. Contudo, esse "fenômeno" só acontece de junho a setembro, o que não foi nosso caso, infelizmente. A água era normal, nada demais; cheguei até a duvidar do local, pois, trocando em miúdos, a única coisa que dava para ver era uma água turva. Nada mais. A graça foi se esgueirar nas pedras, com cuidado para não levar poeira ou terra para a água, e tentar tirar uma foto que revelasse a cor azul. E assim foi. A foto saiu, e depois eu fui informado que existem pelo menos mais 3 ou 4 lugares na Chapada com águas igualmente azuis. Dispenso.
Não, eu não dispenso a próxima parada: Pratinha, um lago que de tão transparente faz você duvidar que aquilo não foi feito no photoshop. A ideia é pular logo, ainda mais que existe a tiroleza, essa invenção mundana que casa perfeitamente com belezas rústicas como a Pratinha. A descida é rápida, mas sensacional. O banho, então, melhor ainda. Também há a opção de um passeio de flutuação pelo lado da caverna da Pratinha, onde dá pra ver peixes e formações rochosas interessantes. Fiquei só no banho.
Já passava das 17h quando chegamos ao último destino do dia. Estava extremamente cansado, mas pouco sabia do que me aguardava. A Gruta Lapa Doce - para os noveleiros, foi aonde algumas cenas de A Favorita foram gravadas, com Lara, Flora e Cassiano - é um lugar magnífico. Volto a pergunta do "quando na sua vida..." para indagar: quando na sua vida você terá a oportunidade entrar numa caverna? Pois eu nunca tinha ido e confesso que foi o melhor passeio de todos. O local é imenso, cheio de pedras, areia, estalagmites e uma infinidade de outros fenômenos naturais que eu jamais tinha visto em minha vida. O espetáculo mudo e inerte é fascinante. O caminho dentro da caverna é de cerca de 600 metros, sempre com a ajuda do guia e seu lampião à gás, que, em um dado momento, é desligado e nos brinda com uma experiência única na vida: a escuridão total e absoluta. Além, claro, do silêncio pertubador, em que só ouvimos os amigos e nós mesmos respirando.
O último dia ainda reservava momentos engraçados.
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Diário de Viagem - Parte II: A cidade e o dia seguinte
Leia antes o Diário de Viagem - Parte I: o longo caminho até Lençóis
A primeira impressão que se tem ao chegar em Lençóis é de que ela é uma cidade no estilo colonial. Encravada no meio de serras e morros, ela conserva as ladeiras e pedras no chão ao melhor estilo Ouro Preto, só para ficar numa cidade bastante conhecida. As ruas são estreitas, e logo você percebe que Lençóis é muito pequena: a praça grande e o Banco do Brasil no centro e todo o resto à sua volta. Ah, a Igreja não fica no miolo, mas também não é longe. Aliás, longe mesmo só os destinos turísticos.
Se sua intenção é ficar num local mais badalado e movimentado, Lençóis é o lugar certo. Claro, não é nada comparado Porto Seguro em alta estação, mas na pequena cidade diamantina você vai encontrar gente do mundo todo. Nesse período do ano, o local estava bastante cheio, o que contrasta com a falta de infra-estrutura, um fato curioso, já que a cidade vive basicamente de turismo (mais a frente falarei sobre isso). Porém, se você quiser mais tranqüilidade e um contato ainda maior com a natureza, escolha outras cidades da região, como o Vale do Capão, destino certo de quem quer acampar e ter um período de calmaria.
Contato inicial feito, o relógio apontava para a hora do almoço. É fácil encontrar pela cidade todo tipo de opção, desde os pratos mais caros, até os botecos que servem prato-feito a R$5. Preferimos ficar no meio termo, nem tanto nem tão pouco. Aliás, você vai descobrir, os bons locais para fazer refeição são compartilhados por muitos, ou seja, se o bar/restaurante é bom, então todos vão querer ir para lá. E aí já viu: lotação quase sempre esgotada. Claro, os locais lá são pequenos; tem um bar com inacreditáveis 4 mesas! Mas não se preocupe, porque é só querer que todo mundo se ajeita.
A falta de infra-estrutura que eu citei parágrafos acima é bem latente. Os estabelecimentos parecem que não são preparados para receber muita gente, o que é bastante contraditório para um lugar que é destino de milhares de turistas por ano. Ainda tem um certo ranço de inferioridade - dito pelo dono de um dos restaurantes mais procurados da cidade que, por um acaso, é o novo secretário de cultura de Lençóis - que não condiz com o potencial turístico do lugar. Outro ponto de falha é o mercado cultural central, que na verdade nem sei exatamente o nome, já que não há nenhum tipo de informação ou indicação. É um imenso galpão que congrega alguns vendedores de artesanato, mas que está entregue às moscas. Se a pessoa quiser comprar alguma lembrança, tem que procurar pelas vielas da cidade algumas lojinhas onde os preços são bem salgados. Camisas? Só há uma loja com camisas boas, o resto é de uma qualidade de dar dó.
Então o Reveillon. Para nós, foi uma incógnita tremenda, porque não havia muita informação sobre atrações e o esquema geral. Mas foi muito gratificante, pois as atrações fugiram um pouco do estereótipo baiano: uma orquestra animou todo mundo, com música de todos os tipos, de axé à "New York, New York". As barracas de bebidas e petiscos faturaram alto com a quantidade imensa de turistas e nativos que se esbaldaram até 3h, afinal, 1º de janeiro era dia de trilha.
Foi difícil acordar às 9h dia 1º de janeiro, uma vez que o café da manhã da pousada ia apenas até às 9h30. Ressaca total, suco pra dentro, café pra dentro, pão... Quase cambaleando era hora de uma trilha mais leve, rumo a um local tranquilo para passar o primeiro dia do ano. E aí fomos para Ribeirão do Meio (único local que visitamos que era efetivamente na cidade de Lençóis), um riacho muito aprazível encravado no meio do mato. O caminho para lá dura 40 minutos aproximadamente, mas é apenas uma caminhada. Dá para ir sozinho, se você não quiser pagar um guia, ou aproveitar um grupo e seguir o povo. Ribeirão do Meio é ótimo, dá para tomar um banho gostoso e gelado e ainda tomar cerveja e comer churrasquinho, fruto de alguns ambulantes que ali comercializam os produtos. Porém, o melhor de tudo é a escorregadeira natural que o rio forma com as pedras do local. É só subir, se escorando nas pedras, e se jogar lá de cima sem medo de ser feliz. A sensação é incrível.
O dia se estendeu. É difícil sair de lá quando se está de ressaca. A dica é ir com tempo disponível, pois o lugar é convidativo para um dia estendido. Se você for mais guerreiro(a), pode levar mantimentos e bebidas, mas, como falei antes, tem ambulantes por lá.
A primeira impressão que se tem ao chegar em Lençóis é de que ela é uma cidade no estilo colonial. Encravada no meio de serras e morros, ela conserva as ladeiras e pedras no chão ao melhor estilo Ouro Preto, só para ficar numa cidade bastante conhecida. As ruas são estreitas, e logo você percebe que Lençóis é muito pequena: a praça grande e o Banco do Brasil no centro e todo o resto à sua volta. Ah, a Igreja não fica no miolo, mas também não é longe. Aliás, longe mesmo só os destinos turísticos.
Se sua intenção é ficar num local mais badalado e movimentado, Lençóis é o lugar certo. Claro, não é nada comparado Porto Seguro em alta estação, mas na pequena cidade diamantina você vai encontrar gente do mundo todo. Nesse período do ano, o local estava bastante cheio, o que contrasta com a falta de infra-estrutura, um fato curioso, já que a cidade vive basicamente de turismo (mais a frente falarei sobre isso). Porém, se você quiser mais tranqüilidade e um contato ainda maior com a natureza, escolha outras cidades da região, como o Vale do Capão, destino certo de quem quer acampar e ter um período de calmaria.
Contato inicial feito, o relógio apontava para a hora do almoço. É fácil encontrar pela cidade todo tipo de opção, desde os pratos mais caros, até os botecos que servem prato-feito a R$5. Preferimos ficar no meio termo, nem tanto nem tão pouco. Aliás, você vai descobrir, os bons locais para fazer refeição são compartilhados por muitos, ou seja, se o bar/restaurante é bom, então todos vão querer ir para lá. E aí já viu: lotação quase sempre esgotada. Claro, os locais lá são pequenos; tem um bar com inacreditáveis 4 mesas! Mas não se preocupe, porque é só querer que todo mundo se ajeita.
A falta de infra-estrutura que eu citei parágrafos acima é bem latente. Os estabelecimentos parecem que não são preparados para receber muita gente, o que é bastante contraditório para um lugar que é destino de milhares de turistas por ano. Ainda tem um certo ranço de inferioridade - dito pelo dono de um dos restaurantes mais procurados da cidade que, por um acaso, é o novo secretário de cultura de Lençóis - que não condiz com o potencial turístico do lugar. Outro ponto de falha é o mercado cultural central, que na verdade nem sei exatamente o nome, já que não há nenhum tipo de informação ou indicação. É um imenso galpão que congrega alguns vendedores de artesanato, mas que está entregue às moscas. Se a pessoa quiser comprar alguma lembrança, tem que procurar pelas vielas da cidade algumas lojinhas onde os preços são bem salgados. Camisas? Só há uma loja com camisas boas, o resto é de uma qualidade de dar dó.
Então o Reveillon. Para nós, foi uma incógnita tremenda, porque não havia muita informação sobre atrações e o esquema geral. Mas foi muito gratificante, pois as atrações fugiram um pouco do estereótipo baiano: uma orquestra animou todo mundo, com música de todos os tipos, de axé à "New York, New York". As barracas de bebidas e petiscos faturaram alto com a quantidade imensa de turistas e nativos que se esbaldaram até 3h, afinal, 1º de janeiro era dia de trilha.
Foi difícil acordar às 9h dia 1º de janeiro, uma vez que o café da manhã da pousada ia apenas até às 9h30. Ressaca total, suco pra dentro, café pra dentro, pão... Quase cambaleando era hora de uma trilha mais leve, rumo a um local tranquilo para passar o primeiro dia do ano. E aí fomos para Ribeirão do Meio (único local que visitamos que era efetivamente na cidade de Lençóis), um riacho muito aprazível encravado no meio do mato. O caminho para lá dura 40 minutos aproximadamente, mas é apenas uma caminhada. Dá para ir sozinho, se você não quiser pagar um guia, ou aproveitar um grupo e seguir o povo. Ribeirão do Meio é ótimo, dá para tomar um banho gostoso e gelado e ainda tomar cerveja e comer churrasquinho, fruto de alguns ambulantes que ali comercializam os produtos. Porém, o melhor de tudo é a escorregadeira natural que o rio forma com as pedras do local. É só subir, se escorando nas pedras, e se jogar lá de cima sem medo de ser feliz. A sensação é incrível.
O dia se estendeu. É difícil sair de lá quando se está de ressaca. A dica é ir com tempo disponível, pois o lugar é convidativo para um dia estendido. Se você for mais guerreiro(a), pode levar mantimentos e bebidas, mas, como falei antes, tem ambulantes por lá.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Diário de Viagem - Parte I: o longo caminho até Lençóis
O relógio batia 5h25 do dia 31 de dezembro de 2008 quando entramos definitivamente na estrada. O sono, no momento, havia ficado para trás, pouco nos lembrando que havíamos dormido nada mais do que 3 horas. Mas no momento isso não importava. Deixemos que o cansaço bata depois de um dia exaustivo de trabalho, e não no começo de uma viagem de diversão.
Com Salvador ficando para trás, restava-nos muito papo e muita música, numa trilha sonora feita especialmente para a viagem de 5 horas de carro. Trocando em miúdos, dá cerca de 408km entre Salvador e Lençóis, o destino tão esperado. Chapada Diamantina, mais precisamente, com seu conjunto de belezas naturais inigualáveis e uma capacidade incrível de encantamento. Tudo estava lá nos esperando: trilhas pelo mato, subidas de morro, incursões em cavernas, etc. Mas antes tinha a estrada.
O primeiro trecho é incrivelmente ruim, e se você for para a região diamantina a partir de Salvador, recomendo cuidado na BR-324: muitos buracos e uma infinidade de caminhões a serem ultrapassados. Fora que demos de cara com um acidente grande, em que uma carreta carregada de pneus tombou na pista e pegou fogo, sabe-se lá como. Pista enterditada, tivemos que fazer o contorno dentro de uma cidade ou vilarejo. Aliás, nós e mais a estrada toda. Já pode-se imaginar o engarrafamento. Mas não, nada que atrapalhe. Essa é a vantagem de sair bem cedo.
Quando o carro toma o rumo do oeste, tudo mais tranqüilo. A pista melhora e os caminhões diminuem, deixando a viagem um pouco mais fluida. Para qualquer um, menos para o nosso carro. Numa trapaça do destino – alguns atribuíram ao meu “bocão”, sempre pronto a fazer piadas com celular fora de área, carro quebrado e esqueletos – o carro não mais desenvolvia. O pé fundo no acelerador e nada. Nada do carro acelerar. Celular? Fora de área. E o carro indo cada vez mais devagar, até chegar a uma média de 50km/h, algo inimaginável numa estrada. Mas assim tivemos que ir até a próxima cidade, Itaberaba. O caminho, de cerca de 40 minutos, foi incrivelmente tenso, com todos olhando a todo momento o celular, os ponteiros do relógio e a aceleração do carro. Todos devagar.
Itaberaba é uma cidade pacata, como a maioria dos interiores desse país, mas tem uma característica intrigante: buracos na pista. Não, sua cidade não tem mais buracos na rua que Itaberaba; isso é impossível. Chegou ao ponto em que era melhor escolher qual buraco cair do que tentar desviar. Na oficina, o mecânico não nos tranqüilizou muito, mas o que fazer àquela altura? Dali para Lençóis seriam aproximadamente 2 horas de tensão. Eu, obviamente, fui convidado a ficar calado o resto da viagem.
Graças a todas as rezas possíveis e imagináveis, nada de anormal aconteceu no restante do tempo. Foram 2 horas tranqüilas; apenas o carro engasgou pouca vezes, só para dar emoção. E Lençóis era logo ali.
Com Salvador ficando para trás, restava-nos muito papo e muita música, numa trilha sonora feita especialmente para a viagem de 5 horas de carro. Trocando em miúdos, dá cerca de 408km entre Salvador e Lençóis, o destino tão esperado. Chapada Diamantina, mais precisamente, com seu conjunto de belezas naturais inigualáveis e uma capacidade incrível de encantamento. Tudo estava lá nos esperando: trilhas pelo mato, subidas de morro, incursões em cavernas, etc. Mas antes tinha a estrada.
O primeiro trecho é incrivelmente ruim, e se você for para a região diamantina a partir de Salvador, recomendo cuidado na BR-324: muitos buracos e uma infinidade de caminhões a serem ultrapassados. Fora que demos de cara com um acidente grande, em que uma carreta carregada de pneus tombou na pista e pegou fogo, sabe-se lá como. Pista enterditada, tivemos que fazer o contorno dentro de uma cidade ou vilarejo. Aliás, nós e mais a estrada toda. Já pode-se imaginar o engarrafamento. Mas não, nada que atrapalhe. Essa é a vantagem de sair bem cedo.
Quando o carro toma o rumo do oeste, tudo mais tranqüilo. A pista melhora e os caminhões diminuem, deixando a viagem um pouco mais fluida. Para qualquer um, menos para o nosso carro. Numa trapaça do destino – alguns atribuíram ao meu “bocão”, sempre pronto a fazer piadas com celular fora de área, carro quebrado e esqueletos – o carro não mais desenvolvia. O pé fundo no acelerador e nada. Nada do carro acelerar. Celular? Fora de área. E o carro indo cada vez mais devagar, até chegar a uma média de 50km/h, algo inimaginável numa estrada. Mas assim tivemos que ir até a próxima cidade, Itaberaba. O caminho, de cerca de 40 minutos, foi incrivelmente tenso, com todos olhando a todo momento o celular, os ponteiros do relógio e a aceleração do carro. Todos devagar.
Itaberaba é uma cidade pacata, como a maioria dos interiores desse país, mas tem uma característica intrigante: buracos na pista. Não, sua cidade não tem mais buracos na rua que Itaberaba; isso é impossível. Chegou ao ponto em que era melhor escolher qual buraco cair do que tentar desviar. Na oficina, o mecânico não nos tranqüilizou muito, mas o que fazer àquela altura? Dali para Lençóis seriam aproximadamente 2 horas de tensão. Eu, obviamente, fui convidado a ficar calado o resto da viagem.
Graças a todas as rezas possíveis e imagináveis, nada de anormal aconteceu no restante do tempo. Foram 2 horas tranqüilas; apenas o carro engasgou pouca vezes, só para dar emoção. E Lençóis era logo ali.
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