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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O estereótipo do roqueiro baiano: uma noite no Pelô

Não, eles não são emos. Até poderiam ser confundidos como tal, mas não são. Em Salvador existem muitos emos, mas (graças a Deus) eles freqüentam shows vespertinos. O caso que apresento é de outros tipos de roqueiros. É aquele típico da Bahia, que calça coturno, veste camisa preta de banda e desfila com longos cabelos ao vento. E é aquele também que dificilmente veste camisa de banda (está fora de moda), arruma-se cuidadosamente e usa o cabelo milimetricamente desarrumado. É a nova onda indie de Salvador.

E eles estão por todas as partes. Essa semana eu presenciei um encontro deles num dos pontos mais visitados da capital. O Pelourinho foi palco de um show que reunia três das mais destacadas bandas independentes do país, duas delas as queridinhas do circuito indie brasileiro. O nome delas pouco importa aqui, pois o desfile de moda, comportamento e ousadia é o que fala mais alto.

Era 17h quando eu avistei a enorme fila que se formava em frente ao local do show. Evento (bom) à R$2 é raro, então não faltou gente interessada. Posicionei-me estrategicamente no final da fila e, já prevendo a enorme demora que seria aquilo ali, comecei a observar a reunião de indies soteropolitanos. Eles são ingênuos, porque acham que a moda e o comportamento do eixo-sul-indie-paulista é o que há de mais moderno nesse mundo. E não é. Não faltaram meninas bonitas com o rosto coberto por franjas e chapéus a lá Mallu Magalhães. Aliás, essa foi a mais copiada da noite. Só na fila eu avistei três, e um grupinho de meninotes se alvoroçou quando viu uma cidadã tão magra e decrépita quanto Amy Winehouse.

Os homens também não ficam atrás. Tinha um (insuportável, por sinal) copiando o estilo Peter Doherty, sem ter a mínima idéia do que é heroína e os efeitos que ela causa no seu “ídolo”. Os grupinhos se formavam em hordas histéricas, sempre pondo fofoquinhas em dia e confabulando quem iria dormir na casa de quem. Alguns tentavam se animar com um Ipod em pleno Pelô, talvez ouvindo alguma banda obscura de Teresina ou Alabama.

O mais latente era perceber que durante a semana eles não são assim. Visivelmente desengonçados mas ao mesmo tempo felizes como porcos na lama, eles se fantasiam para ir à festa, numa maneira quase que circense de se auto-afirmar através do som e da moda. Tirando uma banda baiana, as outras duas (ótimas, por sinal) emulavam um estilo completamente fora dos nossos padrões, o que é ótimo se você souber filtrar e se comportar como você mesmo. Mas não. Os indiezinhos estavam mais preocupados com o cabelo ou a bolsa da moda.

Não faltaram all stars multi-coloridos, presilhas de cabelo modernosas, bolsas pop art, calças xadrez, cabelos estilosos e muita histeria em torno dos nomes indies. Eu era um perdido e me sentia como tal. Na fila, sozinho, olhava para os lados à procura de um semelhante. Avistei apenas uma senhora, igualmente perdida e acompanhando seu filho (com típicos adornos indie, como óculos de aro grosso e camisa xadrez apertada), que trazia inteligentemente uma cadeira armável. Armou numa esquina e passou a apreciar a fila, ao mesmo tempo em que batia um papo amigável com dois policiais. Eu devia ter feito o mesmo...

Pior é que tentei ser indie. Ingenuidade minha achando que me misturaria á horda apenas empunhando meu all star standart preto. Eu era o mais démodé. Os indies soteropolitanos me olhavam indiferentes, me taxando de “loser”, como se eles fossem os queridinhos do colégio. Porra, tudo cambada de babaca que toma porrada de pagodeiro na escola. É, porque ali, naquele show, 70% eram de meninos espinhosos recém-saídos do segundo grau e se achando os donos do mundo por prestar vestibular para Sociologia na UFBA.

Ainda na fila, já de saco cheio, avistei cerca de 10 homens de preto descendo a ladeira. Quando se aproximaram, percebi que faziam parte da galera “old school” do rock baiano, os famosos metaleiros. Achei estranho, mas logo entendi quando eles passaram furiosos pelo meio da fila, provocando medo e descontentamento de alguns indies, e seguiram em frente, descendo outra ladeira. Soube que ali perto haveria também um show de Death Metal. Um deles, calçando coturno, vestindo camisa de banda e desfilando com longos cabelos ao vento, falou com ar de desdém logo após cruzar a fila: “Um monte de fã do Los Hermanos”. Na mosca.

P.S.: os shows foram do Móveis Coloniais Acaju, Vanguart e Cascadura.