Mostrando postagens com marcador prostituta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prostituta. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A festa de Monique

“Baixinha, loira, recém-chegada. Sem restrições, R$ 150. 7776-9898”.

Esse foi o anúncio que Manoel viu no jornal. Interessou-se e ligou. Depois de marcar o encontro, deitou-se na cama com o jornal na mão. Do lado da cabeceira apenas os óculos remendados com fita adesiva. Olhou novamente o anúncio e sorriu.

Esse sorriso é mais de nervoso do que qualquer coisa. A fase para Manoel não estava das melhores. Para mulher, a vida é sempre mais fácil. Manoel, assim como acontece com todos os homens pelo menos uma vez na vida, estava passando por uma má fase. Jovem de apenas 29 anos, ele não levava uma mulher para cama havia mais de um ano e não lhe faltou tentativas: Márcia, ex-colega da faculdade; Jéssica, sua aluna no curso profissionalizante; Juliana, vizinha dos tempos do Garcia; e muita outras. Todas tinham em comum a rejeição ao rapaz.

De um primeiro momento de abalo, Manoel resolveu agir de algum jeito. Olhar o jornal foi uma boa tentativa, embora ele tenha tentado isso outras vezes, mas sempre esbarrava no medo. Mas não, agora era diferente. Por algum motivo transcendental, ele se encantou com aquele anúncio simples e direto. E ligou.

O encontro estava marcado para um famoso motel da orla, local que ele nunca tinha ido, nem nos tempos de boa fase. Como Monique (esse era o nome dela) tinha carro, marcaram de se encontrar lá. Precavido, Manoel levou de casa uma garrafa de vinho e uma caixa de cerveja, que colocou logo no frigobar. A espera foi angustiante. Pensou em se masturbar, afinal, aliviaria sua tensão e, na cabeça dele, prolongaria seu orgasmo com a prostituta. E fez. Ficou louco de ver vários filmes pornô na televisão de plasma do quarto. O tesão era forte, e talvez o nervosismo, que ele já estava de pênis em riste novamente. E nada de Monique.

Depois de ligar para ela e constatar que estava mais do que atrasada, o filme de orgia na tv foi o suficiente para mais um vai-e-vem de mãos de Manoel. Caiu desfalecido na cama redonda e sorriu. Já estava quase a cochilar quando o telefone da recepção tocou: era ela. Arrumou-se na cama, vestiu a cueca preta de marca e preparou a melhor feição cafajeste – achava que condizia com o momento.

Monique bateu na porta, mas nem deu tempo dele reagir. Entreabriu a porta e jogou uma venda. Manoel achou maravilhoso e entrou no jogo. Colocou a venda e chamou a garota de “meu amor”. Ela entrou lânguida e gemendo, furtivamente se esgueirando pelos cantos do enorme quarto, enquanto Manoel imaginava o esguio corpo da garota. Manoel não via, mas Monique era dona de um corpo escultural, fruto de muita academia. Mas ele sentiu. A moça chegou bem perto dele e o acariciou, beijou-lhe a face e apalpou seu pênis por cima da cueca. Propôs alguma coisa quente no ouvido do rapaz, que logo aceitou.

E estava feito. Monique amarrou vagarosamente Manoel à cama. Correu para o corredor e chamou alguém, que logo viu-se era seu comparsa Alaor, que estava escondido no porta-malas do Siena. Os dois fizeram a festa no quarto e Manoel não podia falar nada, já que tinha a boca cheia pela própria cueca. A festa dos dois estava feita e Manoel podia apenas ouvir e nada fazer. Mas não pensou em muita coisa, só sentia o cheiro inebriante da moça e seu pênis reagia ferozmente. Ficou em estado de loucura quando percebeu que os outros dois faziam sexo ali mesmo na frente dele, muito embora o enganado não pudesse ver nem falar nada.

Depois do sexo, Monique e Alaor resolveram agir de verdade. Fizeram a limpa em tudo que podiam levar de valor. Até a TV de plasma não escapou: foi junto com Alaor no porta-malas do carro. E mais: dinheiro, bebidas, guloseimas, produtos eróticos, cigarros, fronhas, travesseiros e tudo que pudesse caber em sacolas e ser escondido no Siena.

Manoel era só desilusão. Depois que os dois saíram, mal conseguia esboçar qualquer reação. O pior era que aquele prejuízo todo ia ser cobrado a ele, seja lá a que horas conseguissem achá-lo ali, humilhado, amarrado e proibido de falar pela própria cueca enfiada na boca. Alaor e Monique saíram tranquilamente pela porta da frente, já que o motel permitia encontro de casais em carros separados e no mesmo quarto. Para o motel, o encontro tinha sido feito e ela foi embora deixando o rapaz descansando. Mal sabiam eles. Algumas horas depois e Manoel até dormia, quando o telefone tocou. Provavelmente desconfiaram de alguma coisa e, como ele não atendia, bateram na porta e só ouviram os sussuros do rapaz. Tudo descoberto, a polícia foi chamada e Manoel não pôde esconder a vergonha. Decidiu não denunciar nada e arcar com todos os prejuízos.

Ontem, na varanda de seu apartamento, Manoel fumava um cigarro e folheava o jornal. Pegou os classificados e abriu, perdendo as contas de quantas vezes tinha feito aquilo nos últimos meses. Mas dessa vez conseguiu. Achou novamente o mesmo anúncio. Com um sorriso no rosto, anotou o telefone na agenda do seu novo celular pré-pago e marcou o encontro. Do outro lado da cidade, Monique desligava o telefone e corria para os braços de Alaor. Na TV de plasma rolava um filme pornô.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Desilusão

De uma só vez Gorete conseguiu o que muitas mulheres na sua profissão não conseguiam: estabilidade. A antiga empresa em que trabalhava tinha fechado as portas, mas o que parecia ruim a princípio tornou-se uma grande oportunidade de conhecer novas pessoas e seu novo chefe. O nome dele era Charles e ofereceu a Gorete uma boa oferta de trabalho. Ela era prostituta.

No jargão local, toda prostituta tem seu preço. Não, não o preço para ir para cama. Gorete e todas as outras tinham seu preço para mudar de local de trabalho. Se antes ela era mais uma entre tantas dançarinas de um cabaré decadente da orla de Salvador, hoje ela ocupa uma bela mureta na mesma orla, mas num local estratégico de passagem. Não deve a ninguém, e só quem pagou para ela mudar foi Charles, que fica com 30% de tudo o que ela ganhar. Bem melhor do que os 50% que o puteiro anteior tirava dela.

É claro que Gorete não usava seu nome de batismo na luta noturna pela conquista de clientes. Ela era Sybele, assim mesmo com “y”. Aquele novo ponto de trabalho era comandado por Charles, que tinha também quase todos os pontos da orla da Pituba. Era bom para ela, principalmente nos fins de semana, pois sua mureta ficava estrategicamente localizada em frente a um dos maiores puteiros de Salvador. Era valorizadíssimo no mercado. Dizem até que Charles matou dois numa briga somente para ter controle do lugar. Ali era cliente certo. Sybele dava duro todas as noites e quase não tinha dias de folga.

No início alguns até estranhavam, porque a prostituta não tinha um belo corpo e a idade já começava a incomodar. Mas tudo isso ela compensava com seu olhar lascivo e hipinotizante que cativava todos que paravam na rua. E ela dava conta do recado como poucas, tanto é que muitos clientes voltavam para repetir a dose. Charles era um homem de visão.

Em dias movimentados era impossível encontrar Sybele no seu posto e algumas meninas até esboçavam tomar a mureta dela, mas o cafetão estava sempre a postos para proteger o local. Todas as noites Sybele aparecia vestida de forma que todos os homens olhavam para ela, até mesmo distintos senhores que passavam de carro acompanhados das esposas. Era impossível não achá-la linda metida naquele vestido vermelho ou na combinação perfeita da calça apertada e da blusinha escrita “I Love NY” que deixava parte da barriga de fora. No carnaval muitos estrangeiros passavam por ali e não resistiam à beleza morena de Sybele.

Foi numa dessas passagens que Gorete disse a Charles que queria largar o ofício. Macaco velho, o cafetão bem sabia do que se tratava. Aliás, era um risco que ele sempre corria quando uma menina fazia muito sucesso. O assédio de gringos é sempre forte e a oferta para deixar o país é quase inevitável. Como numa história de contos de fadas, depois de três anos trabalhando no mesmo ponto, Sybele criou asas e bateu pra longe dali. Ia para a Itália ao lado de Marriconi, um grande engenheiro que trabalhava numa grande empresa no país da bota.

Charles se viu perdido. Mas Gorete, aposentando o nome de Sybele, estava muito feliz com a mudança. E gostava mesmo de Marriconi, apesar de se incomodar um pouco com seu pênis pequeno. Mas afinal, depois de tantos anos fazendo sexo quase que diariamente, um pênis pouco avantajado não iria sujar seu futuro. E o italiano era bondoso e dava muito carinho a ela. Na Itália, a vida dos dois era muito romântica: viagens pela Europa, bons restaurantes, casa grande e sexo esporádico. Mesmo sem poder ter filhos, Gorete não se abatia.

Os bons 10 anos que passaram juntos foi, como diz o ditado, “eterno enquanto durou”. Nesse tempo todo, eles nunca voltaram ao Brasil e se preparavam para a tão esperada viagem que enfim iria acontecer. Até que Marriconi morreu de um ataque do coração devido a um bem sucedido ménage a trois. Ele não agüentou.
Gorete foi aos prantos e assim ficou por dias, até que a família dele, que a essa altura já sabia do seu passado, não pensou duas vezes em deixá-la com a mão na frente e outra atrás. Mandou a ex-prostituta de volta ao Brasil sem que ela tivesse chance de reação. E sem nada no bolso a não ser desilusão.

O desembarque foi triste. Tudo tinha mudado, até o nome do aeroporto, que era agora chamado por um nome esquisito de alguém que ela não tinha a mínima idéia de quem era. Com poucos trocados no bolso, Gorete tentou voltar a seu velho bairro, mas agora era quase tudo pó ou condomínios intermináveis e de uma mesma cor. Tinha muito mais gente na rua e muito mais dor.

A única saída era esperar à noite e torcer para que Charles ainda estivesse tomando conta do local. Mas não, não estava. Ela descobriu quando voltou à sua velha pituba pela noite e não reconheceu nenhuma das meninas que faziam ponto nas redondezas. Só se lembrava de Zé, um velho guardador de carro que permanecia firme na profissão. Foi ele quem disse que Charles já não mandava ali fazia tempo, “desde que botaram mármore na calçada”, disse. Ela olhou para o chão e entendeu, mesmo que melancolicamente.

Nos meses seguintes ela penou, mas conseguiu sobreviver. Claro, teve que voltar à sua velha profissão de prostituta, mas agora aliando-se a gente muito duvidosa. Sentia saudades de Charles toda noite. Ontem ela não foi para cama com ninguém. O mesmo que vem ocorrendo desde o mês passado, quando o movimento caiu bastante. Mas ela todo dia está lá. A velha mureta? É ela mesma, mas hoje pouco valorizada pelo fato de que não há muita coisa boa por perto. Nem puteiro, nem casa de jogos, somente um bar decadente. Nas noites de chuva nem tem mais onde se esconder e sua única companhia é uma lata diária de Coca-cola light.