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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Os piores filmes de 2008

Se está tão difícil escolher os 10 melhores filmes de 2008 (semana que vem não passa), a tarefa de apontar os 10 piores é moleza. Vi alguns filmes bem sofríveis esse ano, muito fruto da famigerada segunda-feira do jornalista, em que o Multiplex Iguatemi convida profissionais a assistirem filmes de graça. E aí vem cada podreira...


1 – Pequenas Histórias
Eu já sabia que era bomba, mas mesmo assim insisti. Quebrei a cara, porque esse filme dói de tão ruim. É tipo aquele que você não acredita que fizeram coisa tão ridícula e assisti até o fim para conferir. Fuja, mas corra léguas disso aí.

2 – Jogos Mortais V
O filme já virou uma piada de sim mesmo. E o pior: de muito mal gosto. Cenas fracas, história capenga, atuações sofríveis e nenhuma novidade.

3 – Treinando o Papai
Tá bom que esse filme é infantil, mas precisava ser tão besta e mongolóide?

4 – O Suspeito
Mesmo atores consagrados e muito bons não conseguiram salvar uma história completamente sem noção, com um final contraditório que eu só posso imaginar que o roterista acha que somos burros.

5 – Noites de Tormenta
Romance barato. Essa é a definição que me veio à cabeça logo depois que as luzes se acenderam. Quinto pior do ano.

6 – Elizabeth – Era de Ouro
Para quê voltar a uma história tão bem sucedida? Pois Cate Blanchet, uma das atrizes mais incríveis da sua época, fez esse trabalho “vergonha alheia”. O filme não diz simplesmente nada. Nada.

7 – Reis da Rua
Um filme com Keanu Reeves já tem sérias chances de entrar entre os piores do ano. Esse aí ele se supera na má atuação, fora que a história é mais uma típica de policiais corruptos, drogas, reviravoltas... Chato.

8 – Romance
Tanta gente falou bem, mas pouco se analisou pontos importantes: Wagner Moura não interpreta (ele é si mesmo no filme), parte da história é completamente televisiva, outra metade é quase-televisiva, a história é fraca...

9 – O Sonho de Cassandra
Tudo bem que é Woody Allen, mas ele poderia ter se esforçado um pouco mais. O filme é bem sofrível, com uma história apenas medíocre e atuações idem.

10 – Um Beijo Roubado
Outro baluarte do cinema contemporâneo, Wong Kar-Wai dessa vez pesou a mão e fez um filme longo demais, melodramático demais, chato demais.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Festival de Cinema de Arte de Salvador - Synedoche, New York



Synedoche, New York
2008
124 min
Nota: 3 (de 5)


A sensação que o espectador tem ao acabar “Synedoche, NY” é de exaustão - para o bem e para o mal. E não é pra menos: ao longo de 2h de projeção, Kauffman, em sua estréia como diretor, abre seu mais aterrorizante e confuso baú de memórias e conflitos existenciais, dando vazão a tudo isso da maneira mais caótica possível.

O filme acompanha a trajetória de Caden Cotard (Phlipe Seymor-Hoffman), atordoado diretor de teatro que vive às turras com sua própria consciência e vontades explícitas. Ao ver seu casamento terminado e afastado do convívio com a própria filha, Caden reuni um elenco grandioso pra realizar uma peça de teatro inusitada: contar sua própria vida.

Essa temática já é corriqueira na carreira de Kaffman (vide o excelente “Adaptação), mas dessa vez ele exagerou. A impressão que fica é que, como dessa vez ele também dirige o filme, não houve freio para suas inquietudes e maluquices, o que acaba comprometendo parte da obra. Kauffman é louco e tem uma visão de mundo fragmentada, e isso todos que acompanham suas histórias conhecem, porém, dessa vez ele vai mais longe e afunda na sua própria consciência. É como se Caden fosse ele próprio na busca incessante pela perfeição estética e idealizada da vida.

Para realizar tudo isso não faltam personagens e reviravoltas. Imagine dois espelhos voltados um contra o outro. Assim é Synedoche, com suas sucessões de diálogos fortes e personagens que se confundem entre si. Caden, a princípio, apaixona-se por Hazel (Samantha Morton), mas é casada com Adele (Catherine Keener). Quando o relacionamento acaba, ele volta seus olhos para a frágil Hazel, mas tudo acaba de uma maneira inesperada. Mesmo assim, os dois ainda voltam mais tarde, muito embora Caden no momento esteja ligado a Claire, atriz da companhia. Confuso? Não, isso é pouco perto da confluência e relações complexas que cada um tem entre si.

É engraçado que, afora essas loucuras e viagens, Kauffman parece estabelecer grandes relações entre outras obras, seja de cinema ou literatura e teatro. E há muitas significações escondidas em cada cena, em cada diálogo e em cada movimento de câmera, o que reforça ainda mais a tese de que ele precisa de um freio. Este seria necessário, aliás, para dar mais fluidez à história, que em muitas passagens fica monótona. Em “Synedoche”, Kauffman não consegue produzir soluções visuais inteligentes para passagem espaço-temporal, como acontece em “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, roterizado pelo próprio e dirigido por Michel Gondry.

Talvez somente assistindo mais de uma vez para entender completamente o que se passa na cabeça de Charlie Kauffman, o gênio por trás de tanto existencialismo. Ou então, seria a hipótese mais razoável, ele precise ficar mais concentrado no roteiro e confiar na mão de outro diretor.

O próprio

Avesso a entrevistas, Charlie Kaffman lançou seu filme em Cannes, em maio desse ano, falando pouco e deixando os espectadores mais confusos ainda. Disse, por exemplo, que “Synedoche, NY” (Sinédoque, em português, que significa “a parte pelo todo”, ou metonímia) pode até ter relação com algum filme de Fellini, embora ele não seja cinéfilo e conheça pouco do cineasta italiano. E, claro, não disse nada de concreto que pudesse ajudar na compreensão da obra. Aqui em Salvador, dentro do Festival de Cinema de Arte, a sessão estava completamente lotada e, aparentemente, teve boa recepção.

domingo, 12 de outubro de 2008

Festival de Cinema de Arte de Salvador - Vicky Cristina Barcelona



Vicky Cristina Barcelona
2008
96 min
Nota: 4 (de 5)


Esse talvez seja o melhor filme de Woody Allen nos últimos anos, ganhando fácil de “Match Point”, “Scoop” e “Sonho de Cassandra”. Em Vicky Cristina Barcelona, o diretor usa o humor pra tratar do tema mais clichê e discutido por todos nós: o amor.


O filme conta a história das duas personagens do título, Vicky (Reca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), amigas e americanas que estão de passagem por Barcelona, uma por trabalho e a outro pra fazer companhia. Lá elas encontram um pitoresco artista plástico, Juan Antonio (Javier Bardem), que vai lhes levar a cometer atitudes antes impensadas, mesmo que para isso elas precisem passar por cima dos próprios princípios ou dos medos.


Não pense que com isso o filme torna-se chato e com discussões existencialistas. Muito pelo contrário, Allen é mestre em tirar desses temas densos doses de humor inteligentíssimas. É dessa forma que ele nos apresenta as duas personagens principais, diferenciando-as logo no início da projeção, inclusive reforçando essa idéia dividindo a tela em duas.


Com o passar do tempo, o diretor vai brincando com todos os personagens e com suas distintas visões do amor. Se uma delas é conservadora, a outra é mais impulsiva. Se um dos homens é “caxias”, o outro é amargurado por desilusões. E a partir daí Allen vai analisando diversos pontos, como traição, afeto, paixão, companheirismo, monogamia, rotina de casamento, etc.


E a confusão de idéias, sentimentos e paixões é intensa: Vicky fica com Juan Antonio, que é apaixonado por Cristina, mas ainda nutre amor por Maria Elena, que é louca e romântica ao extremo... E ainda tem o noivo de Vicky que fica nos EUA ligando pra ela o tempo todo, a tia da própria que se cansa do casamento de anos... Tudo isso pontuado por cenas dirigidas com brilhantismo, sempre utilizando o humor na medida certa. As tiradas inteligentes estão por toda parte e, quando o espectador sente falta do baixinho atrapalhado que se mete em tudo, o narrador vem e nos brinda com conclusões e comentários certeiros.


É interessante também a sátira que Allen faz do modo de vida americano X modo de vida europeu, além de brincar com a idéia do “casal moderno”. Primeiro, ele romantiza a vida em Barcelona, inclusive só utilizando cenários belíssimos da cidade espanhola. Lá, o ideal de homem é bonito, charmoso e artista. Sempre inspirador e inspirado com a vida à sua volta, Bardem incorpora perfeitamente esse estereótipo em Juan Antonio. Já o americano é o estressado, fútil e infantil, que só pensa em dinheiro e na nova casa que vai comprar. Claro, no meio disso tudo o diretor coloca também uma discussão interessante sobre as novas formas de amor, muito além do homossexualismo. Trata do “casal” que se sente feliz vivendo à três para, depois de várias lições, desconstruir tudo e voltar ao que era antes. Aliá, as cenas de Scarlet Johanson, Penélope Cruz e Bardem são hilariantes, com especial destaque para os dois últimos.

A temática é forte, mas Woody Allen consegue conduzir com leveza e humor, mas sem nunca deixar de lado reflexões importantes. Deve ser por isso que, em certo momento no início do filme, um personagem ironiza o filme protagonizado pela própria Cristina nos EUA: “Você fez um filme sobre o amor em 12 minutos? Um tema tão grande pra um filme tão pequeno”. É Allen satirizando a si próprio.


Recepção


Em Cannes, onde estreou, o filme não teve uma recepção muito calorosa. Como o próprio diz, isso não quer dizer nada. Aqui no Brasil ainda é inédito e, com muito prazer e orgulho, Salvador, através do 5° Festival de Cinema de Arte de Salvador, é uma das cidades pioneiras na exibição. Sobre filmar em Barcelona, Woody Allen aproveitou as facilidades no financiamento do filme feito por lá, o que dialoga diretamente com seus últimos trabalhos feitos na Europa.

sábado, 11 de outubro de 2008

Festival de Cinema de Arte de Salvador - Leonera



Leonera
2008
113 min
Nota: 4 (de 5)

Quem foi ver Rodrigo Santoro acabou se encantando com Julia (Martina Gusmán) e o pequeno Tomás. A história desses dois, aliás, é o fio de conduta de todo o filme, muito embora peque por abandonar outras histórias paralelas e privilegiar demasiadamente as mães do presídio argentino. Mas, se tem essa adversidade, o diretor Pablo Trapero acerta ao mostrar como um filho pode mudar completamente a vida de uma mulher na busca por redenção.

Leonera conta a história de Julia, estudante universitária que se envolve com Nahuel. Ela acorda ensangüentada e vê que ele e um outro rapaz, Ramiro, estão desacordados no chão do seu apartamento. Nahuel está morto. A partir daí, acusada do crime e grávida de poucos meses, Julia passa a viver na prisão à espera de julgamento, e é lá que ela encontra afeto e forças para criar seu filho. Este, aliás, cresce por lá mesmo até completar quatro anos, quando tem de ser levado ou para um familiar ou para adoção.

Com cenas iniciais fortes, o diretor Pablo Trapero aposta primordialmente em planos fechados e com poucos diálogos, numa tentativa de aflorar no espectador uma aproximação afetiva com a personagem Julia. Deve ser por isso que sabemos pouco sobre a relação dela com sua família, em especial a mãe e o pai. Martina é, então, a grande revelação do filme, com uma atuação segura e conseguindo ponderar os momentos de introspecção e dramaticidade exagerada que em certos momentos a história exige.

Então, vemos em grande parte do filme Julia e suas colegas de presídio tentando sobreviver a uma vida de privações juntamente com seus filhos. E elas lutam e criam suas ninhadas de maneira bastante digna, com suas regras e estatutos próprios. O que é interessante (e estranho, confesso) ver é a relação lésbica que existe entre as detentas. E tudo acontece livremente, mesmo na frente das crianças. E mais: fumar na frente dos pequenos não pode, mas se beijar e se acariciar é coisa livre.

Essas relações é que ligam boa parte do filme, mas não é só isso. Rodrigo Santoro faz Ramiro, um dos lados homossexuais da relação tripla de Julia. No desenrolar da história, vemos que o caso da morte fica em aberto, já que somente no final descobriremos quem matou Nahuel, mesmo que fique uma dúvida no ar. Antes, em suas poucas cenas, Santoro é competente ao conduzir seu personagem com leveza e simplicidade, fazendo um bom bate-bola com Martina.

O ponto negativo fica pela exarcebação de cenas descartáveis dentro do presídio. Talvez por querer mostrar detalhadamente como funciona o sistema carcerário feminino, Trapero se atém a detalhes pouco relevantes, o que rouba minutos preciosos da projeção, que bem poderiam ser usados para aumentar as cenas de Ramiro e Julia e dela com sua mãe. Aliás, preste atenção na relação das duas que, mesmo ficando no ar, revela muita coisa da personalidade de Julia. E não só a mãe: note que, em contraponto aos conflitos mãe e filha, a jovem parece nutrir afeto pelo pai – fato revelado num detalhe no início da projeção e no nome do menino, o mesmo do avô.

E se vemos uma mãe batalhadora e incapaz de deixar seu filho um minuto sequer, acompanhamos com afeto também a trajetória não só dela, mas de outras mães que cometeram crimes, mas em momento algum fugiram à sua condição de mãe. Talvez aí esteja a explicação do nome Leonera, “prisão de leoas” em português.

Trajetória

Só pra contextualizar – eu sei, admito, uma mania de jornalista. “Leonera” está rodando o mundo em festivais e passou pela primeira vez no Brasil há algumas semanas no Festival do Rio e chega agora a Salvador. Nesse ponto, estamos tentando nos igualar aos grandes centros. Martina Gusmán é uma produtora renomada na Argentina e esse é apenas seu segundo filme, mais uma vez ao lado de Trapero. O diretor, no entanto, é figurinha carimbada no cinema dos hermanos, já tendo êxito em filmes como “Do Outro Lado da Lei” e “Família Rodante”. A produção de Leonera ficou a cargo de Walter Salles, numa bela tabelinha Argentina-Brasil. E, para fehcar, a maquiagem de Julia grávida é algo fascinante, mesmo quando o diretor dá um close na barriga dela durante o banho: é impossível dizer que aquilo não é verdadeiro.