segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Série Lótus - Morena

* Antes de acompanhar esse conto, você pode ler se quiser "Sexta-feira", que faz parte da mesma série. A ordem dos textos não altera o entendimento, mas a leitura dos dois é imprescindível para a compreensão da história. Escolha o caminho. A explicação você encontra aqui.

Morena

Puxou o último trago do cigarro e enxugou o suor que escorria pelo rosto. Olhou fixamente para frente, num ponto cego e sem rumo. Engoliu o nervosismo, afinal, não era a primeira vez que fazia aquilo. Avançou em direção à morena e, num golpe só, matou a mulher quase a deixando decapitada. O gringo fez companhia à moça minutos depois.

Na verdade, Alvinho só se lembrou do que tinha feito no dia seguinte, quando acordou com o telefonema de seu amigo colaborador Artur. Era ele quem tirava as famosas fotos que alimentavam o site de coisas bizarras que ele mantinha secretamente. A mãe, com quem morava, achava que ele era mais um analista de sistemas (ou algo parecido) que trabalhava em casa nessa grande metrópole chamada Salvador. A casa onde moravam ficava no Rio Vermelho, muito perto da locadora onde Artur trabalhava e que servia de ponto de encontro para os dois. Alvinho estava ansioso para ver as fotos do seu feito do dia anterior.

Turbinado com algumas gramas de cocaína, o analista encontrou com Artur ao meio-dia; o sol a pino. Ouviu um blá-blá habitual sobre a dificuldade em fazer as fotos, a bizarrice que era aquilo tudo, o arrependimento, a brutalidade da vida... Os raios de sol atrapalhavam imensamente o olhar de Alvinho e foi com essa desculpa que eles se despediram.

A graça para Alvinho era matar e depois exibir seu feito e, para isso, outras pessoas tinham que ver e “apreciar” sua obra, como ele dizia. Com isso, ainda matava outra necessidade, a de ganhar dinheiro, e seus assassinatos iam direto para o site. Aquela série Lótus estava rendendo grandes dividendos e cada dia mais novos assinantes e anunciantes. A idéia ele mesmo teve: matar mulatas tipicamente brasileiras ao lado de gringos, principalmente se fosse bem brancos. Para dar o contraste, pensou arteiramente o rapaz.

Na seqüência dos fatos, ainda faltava ele matar uma morena para completar o ciclo de três dessa série e, assim, partir para outra. Em Salvador era fácil arranjar esse tipo de vítima; Alvinho adorava encontrá-las no Pelourinho, em qualquer festa típica realizada à noite. Era o espaço perfeito, já que lá mesmo ele encontrava refúgio no pó e na cerveja do local. Geralmente se passava por gringo também – dada sua cor e sua habilidade em falar inglês – e se juntava a outros na caça das mulheres. Invariavelmente levava alguma para cama, mas quase nunca tinha coragem suficiente para matar.

Foi assim no dia da sua última vítima. Márcia passeava quase que diariamente pelo Pelourinho em busca de aventuras sexuais. Já estava cansado dos negros da Bahia e suas bem dotadas virilidades e queria mais carinho e o fator exótico. Foi o que pensou quando viu Alvinho sentado sozinho na mesa 23, saboreando cada trago do seu cigarro importado e bebendo devagar a cerveja. Olhar matador, ela pensou. Nem se lembrou que era sexta-feira, dia que ela podia encontrar um rapaz bonito e eficaz na cama que ela conheceu semana passada num bar do centro.

No vai e vem dos garçons, os dois se encontram num beijo que só pareceu terminar quando Márcia abriu a porta de sua casa. É claro que Alvinho (Glenn, para ela) estava acompanhado de um gringo de verdade, um alemão rosado que estava mais bêbado que os dois juntos. Nem chegaram a transar. O objetivo de Alvinho não era esse. Abriu o nariz do alemão com um soco e o supercílio de Márcia com o cotovelo. Deu nem tempo de gritar. O rapaz já estava virando profissional. Depois de amarrar os dois, ele ainda teve tempo de cheirar outra carreira em cima do porta-retrato dela. Vasculhou os dois e pegou alguns objetos de valor, na tentativa de parecer um assalto, e deixou cair duas fotografias enroladas num papel. Desdenhou.

Os casos de assassinatos vieram à tona e os meses seguintes foram de apreensão para Alvinho. Seu amigo Artur havia sido preso em seu lugar pelos crimes – parece que encontraram fotos e telefone do rapaz no local -, mas esse não era o maior problema. Afinal, os dois tinha negócios para lá de sujos e bizarros rolando por debaixo do pano. Ele temia que algo fosse descoberto, o que aconteceu meses depois, logo depois que Artur conseguiu provar sua inocência. A polícia fechou o cerco e decretou a prisão de Álvaro Genaro, o Alvinho. Ele recebeu a notícia quando estava deitado no chão do banheiro, depois de cheirar mais de quatro carreiras de pura cocaína. Sua mente girava, seu corpo ardia todo e seus ouvidos ouviam sua mãe chorar. Mal conseguiu processar tudo aquilo. Correu pela sala em busca da mochila, voltou para o quarto e começou a encher de roupa. Sua mãe ficara para fora do quarto e Alvinho só conseguia entender os choros e lamúrias da senhora. Não sabia bem para onde ir e antes que terminasse sua tentativa de fuga correu para o banheiro. Vomitou coisas incolores e seus próprios sentimentos. Tateou a pia em busca de água e encontrou mais um papelote do pó. Cheirou. Num impulso de rara coragem, quebrou a janela do banheiro e viu que lá embaixo o Rio Vermelho estava todo cercado pela polícia. Nem pensou.

Antes de se jogar da janela do sétimo andar, Alvinho ainda teve tempo de pegar na mesa dois vidros de tinta e um pincel. Era com eles que fazia a tatuagem de lótus nas garotas.

6 comentários:

Mwho disse...

Parece história real!

Sunflower disse...

Odeio essas pessoas que nem só conseguem escrever algo ficional brilhante, como não bastante ainda arrumam um jeito novo de fazê-lo.

Odeio.

beijas

Marcela Oliveira disse...

Esse é ainda melhor que o outro!!!!

=***************

Leonardo Araujo disse...

Já gostei muito desta parte, agora vou ler a próxima e confirmar que estará excelente também. Parabéns, Rod. Qq dia vou publicar um conto inédito no blog.

Larissa Santiago disse...

cê tah ficando profissionall
hehhhehehhehe
:P

rogerkrw disse...

Rodrigo, poderia ter comentado lá no início só para agradecer por ter comentado em meu blog. Mas a série, aqui, me prendeu a leitura. Grande sacada, parabéns! Também sou jornalista e atuo em cobertura de Polícia e Geral. Apesar de ficcional (ou não? ficou tão bom que deixa dúvidas, como já disseram em outros comentários), estão aqui nos teus textos aqueles elementos todos da cena de um crime que o espaço restrito, a mão do editor, os códigos de conduta jornalístico, acabam suprimindo de uma bela reportagem policial. Bom, és jornalista e deves entender. Apesar de eu não ter escrito mais nada ficcional há um tempão (e olha que isso me persegue) também cato elementos dessa realidade crua pensando em transformá-los em contos - apesar de lutar para ser descritivo nas reportagens. Ler postagens assim incentivam. Vou adicionar teu blog lá no blogroll. Valeu.