sábado, 10 de janeiro de 2009

Diário de Viagem - Parte III: As trilhas

Antes, leia a Parte I e a Parte II.

O dia 2 de janeiro foi inteiro reservado para as trilhas e caminhadas pelos mais populares pontos turísticos da Chapada Diamantina. Ok, em muitos momentos me senti como aqueles turistas japoneses que tiram foto de tudo e permanecem atentos às informações dos guias. Mas também fiz das minhas, andando em locais mais arriscados à procura dos melhores ângulos para as fotos. Aliás, deixei a minha Olympus OM 10 velha de guerra guardadinha, pois ela é muito pesada e eu ainda não aprendi a mexer direito.


Uma boa dica para encarar bem as trilhas é não levar muito peso na mochila, já que esse último item é indispensável para carregar o que você vai precisar durante todo o dia: toalha, protetor solar (não subestime, passe sem dó), dinheiro, repelente, sandálias e uma ou outra coisa que sempre precisa. Se você acha que não vai aguentar andar tanto, ainda há uma esperança. Se eu e uma infinidade de sedentários conseguiu, você também pode. Mas, claro, prepare-se para arder no sol, cansar as pernas e suar muito.

Falando assim parece uma tortura, mas passa longe disso. Todo o esforço é recompesado com o visual que você vai encontrar. Nossa trilha começou no Poço do Diabo, uma caminhada no meio do mato e com algumas pedras, porém nada de muito complicado. O visitante vai encontrar, no começo do caminho, um riacho bem simpático, chamado Mucugêzinho, que é perfeito para montar uma farofa na acepção mais "roots" da palavra - e eu vou falar sobre isso mais adiante. Passamos direto e chegamos ao tal Poço do Diabo, uma queda d´água razoável, mas de uma água (congelante) deliciosa. O banho perto da cachoeira pode se tornar perigoso se você não for atento às pedras, fato comprovado por mim: feri o pé e a canela numa das rochas quando tentava dá pé perto da queda d´água. E relaxei. A cachoeira é perfeita para se tranquiliar e renovar todas as energias. A volta é mais trabalhosa, pois todo aquele caminho que você desceu vagarosamente sobre pedras, você terá de fazer subindo. Mas também é só o início, pois o resto é mais tranquilo.

Saindo de lá, era a vez de subir o Morro do Pai Inácio. Admito que olhando de longe dá medo, até porque lá em cima as pessoas são meras formigas à uma altura de mais de mil metros. O bom é que você terá que subir efetivamente "apenas" 160 metros. No chão é barbada, mas escalar o morro sob um sol de meio dia não é das tarefas mais agradáveis. Confesso que parei diversas vezes e, aliás, é isso que o visitante deve fazer. Vi muita gente subindo apressada para só contemplar a vista lá de cima, o que não é perfeitamente correto. Durante o caminho, se o visitante for parando, vai perceber que poderá apreciar belas vistas também: formações rochosas, plantas que desafiam a lógica e brotam das pedras, etc. Uma vez lá em cima, não há muito o que dizer. Quantas vezes na vida você terá a oportunidade de contemplar uma vastidão de montanhas, morros, vales...? E tudo isso há mil metros de altura? A sensação é de impotência perante tanta magnitude da natureza

O Morro do Pai Inácio é o centro de toda a Chapada Diamantina; basta olhar em volta, em 360º, para vislumbra-la toda. Engraçado que, diante de tamanha altura e vastidão, a vontade mais primitiva do homem assola: voar. Sério, não só eu, mas muita gente tem a sensação de querer pular diante de uma altura tão grande. E assim é no Morro do Pai Inácio, pois numa fração de segundo a vontade realmente é fechar os olhos e saltar. Claro, não se tem notícia de alguém que tenha feito isso.

A próxima parada era o almoço, ali pertinho, num posto de gasolina. A comida, aliás, é péssima, e se sugerirem isso, fuja léguas. Mas nenhuma reação intestinal aconteceu, então, deu pra curtir bem as duas próximas atrações. A Gruta Azul, como o próprio nome entrega, é a boca de uma caverna em que a água do local, quando refletida a luz, torna-se azul. Contudo, esse "fenômeno" só acontece de junho a setembro, o que não foi nosso caso, infelizmente. A água era normal, nada demais; cheguei até a duvidar do local, pois, trocando em miúdos, a única coisa que dava para ver era uma água turva. Nada mais. A graça foi se esgueirar nas pedras, com cuidado para não levar poeira ou terra para a água, e tentar tirar uma foto que revelasse a cor azul. E assim foi. A foto saiu, e depois eu fui informado que existem pelo menos mais 3 ou 4 lugares na Chapada com águas igualmente azuis. Dispenso.

Não, eu não dispenso a próxima parada: Pratinha, um lago que de tão transparente faz você duvidar que aquilo não foi feito no photoshop. A ideia é pular logo, ainda mais que existe a tiroleza, essa invenção mundana que casa perfeitamente com belezas rústicas como a Pratinha. A descida é rápida, mas sensacional. O banho, então, melhor ainda. Também há a opção de um passeio de flutuação pelo lado da caverna da Pratinha, onde dá pra ver peixes e formações rochosas interessantes. Fiquei só no banho.

Já passava das 17h quando chegamos ao último destino do dia. Estava extremamente cansado, mas pouco sabia do que me aguardava. A Gruta Lapa Doce - para os noveleiros, foi aonde algumas cenas de A Favorita foram gravadas, com Lara, Flora e Cassiano - é um lugar magnífico. Volto a pergunta do "quando na sua vida..." para indagar: quando na sua vida você terá a oportunidade entrar numa caverna? Pois eu nunca tinha ido e confesso que foi o melhor passeio de todos. O local é imenso, cheio de pedras, areia, estalagmites e uma infinidade de outros fenômenos naturais que eu jamais tinha visto em minha vida. O espetáculo mudo e inerte é fascinante. O caminho dentro da caverna é de cerca de 600 metros, sempre com a ajuda do guia e seu lampião à gás, que, em um dado momento, é desligado e nos brinda com uma experiência única na vida: a escuridão total e absoluta. Além, claro, do silêncio pertubador, em que só ouvimos os amigos e nós mesmos respirando.

O último dia ainda reservava momentos engraçados.

4 comentários:

jorginho da hora disse...

Rodrigo,a gente fica cansado só de ler esse tipo de aventura, mas é como vc falou, apesar de parecer uma tortura, é muito divertido, aliás, divertidissimo. Eu já tive este prazer, foi muito gratificante.
Não deu tempo de ler as outras duas partes, mas eu volto depois e faço isso,pois fiquei curioso.

Mwho disse...

Rodrigo,
Descrição digna de publicação em revista de turismo!
Abraço,
Mwho.

Leonardo Araujo disse...

Sua viagem foi ótima mesmo! Conta mais aí!!!
Abraços

alvarêz drewïzqe disse...

cara, gosto muito de trilhas, apesar de a última fazer mais de cinco anos.

quanto mais cerveja você bebe mais as putas são iguais, aqui e lá e acolá.