segunda-feira, 12 de maio de 2008

O cozido

Nelson Pipoqueiro carregava no próprio nome sua profissão. Andava normalmente pelas ruas da Pituba vendendo pipoca salgada e doce, muito embora morasse longe dali. Sua mulher, Dalva, dera luz a 15 filhos seus, mas somente 10 vingaram. E que 10. Dizem até que Nelson Pipoqueiro andou pelas bandas da Boca do Rio e que lá se engraçava com Neuza, uma negra gostosa. Mas poucos acreditavam realmente que ele era capaz de pegar ela. Muito milho para seu carrinho de pipoca.

O incrível é que os 10 filhos de Nelson Pipoqueiro e Dalva eram homens. Numa jogada absurda da genética que nem Mendel explicaria, Dalva deu a luz a 14 meninos e apenas uma menina, que não durou 1 mês. Os outros quatro morreram logo ao nascer. E os 10 restantes davam muito trabalho ao casal e principalmente a Dalva, que cuidava deles diariamente. Quem lavava a varanda? Os 10. Quem lavava o banheiro (único na exígua casa)? Os 10. Quem cozinhava? Ela, com a ajuda deles.

Esse tema, aliás, era de extrema importância para a família. Como Nelson Pipoqueiro passava o dia todo fora, só almoçava mesmo 3 dias em casa. Sim, Nelson Pipoqueiro se dava ao luxo de trabalhar apenas 4 dias na semana: de terça a sexta. O resto era sagrado. E quando ele almoçava em casa tinha que ser Cozido, pelo menos uma vez na semana. Era de lei quando Nelson Pipoqueiro ia almoçar em casa: Joãozinho separava as verduras, Nelsinho as cebolas especialmente, Marquinhos secava as carnes, Maílson cuidava das bananas da terra, Sergio fazia a pimenta e Dalva entoava o pirão. Ah, o pirão! Ninguém tocava no pirão que Dalva fazia para seu marido: “Vai desandar, menino”, dizia ela quando algum dos meninos chegava perto do pirão. Numa habilidade física que só ela conhecia, o pirão tomava forma em movimentos cíclicos uniformemente variados.

Nesses dias, quando Nelson Pipoqueiro chegava em casa era uma festa. Ele ainda cheirava a manteiga derretida, mas ninguém ligava. A refeição já estava quase no ponto e o maridão dava aquela olhada pra Dalva, como quem combina uma foda para depois do cochilo da tarde. A casa tremia. Mas antes ele comia muito. Como Dalva fazia a comida sempre, ela nunca errava na quantidade. Era o certo para ela, Nelson Pipoqueiro e os 10 meninos. E olha que a panela batia o recorde de tamanho, provavelmente comprada na baixa dos sapateiros. Não sobrava nada. O cochilo, então, rolava solto. A foda posterior melhor ainda.

Porém, muita coisa mudou quando Dalva faleceu. É verdade que isso aconteceu quando ambos já beiravam os 70 e todos os 10 filhos do casal já estavam muito bem criados. Só Celsinho que ainda continuava morando com os pais, mas nada que um filho com a vizinha não fizesse mudar de lar. E então Nelson Pipoqueiro se viu sozinho no mundo. Sua companheira de mais de 40 anos se fora e sua vontade era ir junto, digamos a verdade. Mas não. Ele ainda era muito forte e comeria muito cozido.

Mas quem iria fazer o famoso cozido de Dona Dalva? Todos os filhos se habilitaram e Nelson Pipoqueiro, então, resolveu que iria, a partir dali, almoçar cada dia na casa de um filho diferente. Não importasse o que tivesse, ele não iria comer na solidão do seu lar.

E lá se foi Nelson Pipoqueiro almoçar na casa dos 10 filhos, sempre nos dias de folga: sábado, domingo e segunda. Era um vai-e-vem entre Pernambués, Baixa do Tubo, Barroquinha, Pero Vaz, Dique Pequeno, Caixa D´água, Pau da Lima, Saboeiro, Luis Anselmo e Valéria. Os primeiros meses foram ótimos, pois todas as noras, no intuito de agradar o velhinho, faziam cozidos maravilhosos. E dos mais variados tipos: com toucinho, sem toucinho, com chuchu, com jiló, com pirão de grão de bico, sem grão de bico, com frango, sem frango... Era uma festa gastronômica.

O problema era que ele começou a enjoar, porque comia aquilo 3 vezes na semana e seu tour pela casa dos filhos já durava 6 meses. Ou seja, 72 cozidos em um tempo recorde. Só ele mesmo. Certa vez quando chegou na casa de Nelsinho e constatou que, mais uma vez, havia cozido, o velho desabafou: “Porra! Eu só como cozido há 6 meses! Também gosto de ensopado de carne, muqueca de carne, quiabada... Um monte de coisa”. As noras tremeram.

Foi quando, num grande almoço para comemorar os 32 anos de Marquinhos, os irmãos resolveram fazer a tal quiabada. A família inteira esperou ansiosamente a chegada do pai, mas Nelson Pipoqueiro nunca chegou. A notícia veio algumas horas depois: o pai dos 10 rapazes sofrera um infarto a caminho da casa do filho, em Pernambués. Da tristeza que tomava conta do local, que ainda receberia muitas pessoas amigas e outros familiares de Nelson Pipoqueiro, só restou um destino para a panela de quiabada: jogar mais verdura, carne e frango e separar o caldo do pirão. O cozido para a família toda.

4 comentários:

Andréa Motta disse...

Boa tarde! Vim conhecer seu blog e convidá-lo a participar da blogagem coletiva COISAS DO BRASIL, em 16 de maio. A idéia é cada um escrever, em seu blog, sobre aquilo que represente a cidade brasileira onde mora ou nasceu, a fim de que, juntos, mostremos a riqueza cultural do nosso país. Estou convidando a todos, até mesmo os brasileiros que residem no exterior; o importante é mostrarmos que o Brasil é um misto de culturas e saberes. Conto com a sua adesão!

Paulo Bono disse...

O cozido atômico.
Bem Bahia mesmo.
Você tá craque nisso, Carreiro.

abraço

Si disse...

Excelente!!!
Deu até água na boca.

Celine disse...

Muito bom!!!
beijos