terça-feira, 29 de julho de 2008

Divina Providência

Já passava da meia noite. Num estampido que o bairro todo ouviu, Dona Maria da Graça gritou. E gritou alto. Aparentemente, com o pouco que conhecia, Seu Hilário constatou que a bolsa da esposa havia rompido e o melhor a fazer era correr para o hospital. Naquela Salvador dos anos 60, era difícil encontrar carro de aluguel, ainda mais uma moça jovem e carnuda sangrando pela vagina. Foi uma correria só. Maria estava grávida de 6 meses apenas. Só um milagre salvaria o bebê.

Foi assim que, 48 anos atrás, nasceu Divina Providência. É por isso que agora, nesse agosto maravilhoso, seus parentes estavam comemorando o aniversário da quase senhora. Divina ainda lembrava da mãe com carinho, morta há alguns anos, e tentava conter o pai, que todo aniversário da filha contava a história do parto. Daí o nome. A própria era contida nessas intimidades e somente as contava ao jovem padre José, da paróquia da Graça. Nem mesmo Amâncio, seu marido 10 anos mais velho, sabia de coisas íntimas dela.

Padre José ouvia quase todos os dias a voz de Divina. Mesmo de longe já reconhecia o timbre da moça; sim, gostava de chamá-la assim, mesmo que ela se sentisse com vergonha. Mas ele não. Divina freqüentava a igreja quase todos os dias. E confessava. E orava. E não faltava a nenhum chá que as beatas da Graça ofereciam em seus palacetes decadentes. Pelo menos passava o tempo e jogava conversa fora.

Ela também freqüentava a sacristia do jovem padre, sempre solícita em suas questões religiosas. Ajudava até na preparação da hóstia. Chegava sempre alguns minutos antes da missa das 7 da manhã, mas naquele dia escuro de agosto chegou um pouco mais cedo, talvez correndo da chuva que ameaçava desabar. Não foi uma boa hora. No virar do corredor, deu com o jovem padre José trocando de roupa. Ali mesmo. No arribar da bata, Divina só conseguiu ver o corpo jovial de José; e nessa hora ela nem conseguiu distinguir o padre do homem. Um calor subiu-lhe pelas pernas e só encontrou guarida num suspiro calado. Deu meia volta e saiu chispando.

De noite, Divina estava melhor (tinha passado o dia enfurnada no quarto) e mais disposta durante o jantar. Fez até um afago solitário no marido, algo que não acontecia há muito tempo. Os dois subiram quietos como sempre e Amâncio o tempo todo a falar de contas e conjecturas financeiras, algo que sua profissão de contador não lhe deixava esconder. Divina estava mais lânguida e o marido percebeu a deixa. O casal fazia sexo somente algumas poucas vezes por mês, muito diferente do começo do casamento. Mas nessa noite Amâncio partiu pra cima e Divina, com uma serenidade sexual, deixou que rolasse. O melhor sexo em anos.

Claro, Divina estava com a cabeça em outro local. Mesmo com seus 48 anos, ela ainda dispunha de coxas roliças e um corpo bem cuidado, apesar das carnes que às vezes lhe fugiam de alguns vestidos. Sentiu-se consumida naquela missa do dia seguinte. Apesar de tudo, ainda achava que o padre José poderia sentir algo por ela. Era difícil, mas sim, era possível. Até a bata e todo ritual da missa agora lhe trazia um tesão arrebatador. Esperava a noite com um furor irreconhecível e atacava Amâncio de jeito que ele nunca vira antes.

Com todo esse calor, o casal voltou a transar diariamente e, dessa vez, com muito mais vontade. Até fantasias Divina preparava e exigia o mesmo do marido. Numa dessas noites ela pediu a ele que abrisse a caixa de presentes e vestisse aquela fantasia. “Fico doida só de pensar em você vestindo isso”, disse ela. Amâncio apressou-se em colocar a fantasia de padre e, naquela noite, Divina chegou a acordar os vizinhos com seus gritos de amor.

Gritos verdadeiros, mas Divina sempre se excitava mais com a fantasia de padre que Amâncio vestia, o que levou o marido a desconfiar de alguma coisa. Foi então que decidiu, de surpresa, aparecer numa missa. Sentou-se ao fundo para que ninguém o visse e constatou algo que lhe deixou encabulado, pois concluiu que os olhares da esposa para o jovem padre José eram insinuantes. Daí ligou com a fantasia... E pronto. O homem saiu enfurecido para casa. Lá esperou Divina e só não deu na cara dela porque alguma força sobrenatural o segurou. O homem era só raiva. Dizia impropérios, xingava as gerações dela, maldizia os católicos, sobrando até para o padre.

O jovem Pedro não sabia o que lhe aguardava. Amâncio saiu furioso de casa em direção à paróquia. Dizem que ninguém é homem até ser corno e que, dessa forma, a alma só pode ser lavada com sangue. Amâncio não pensava em nada, mal sabendo ele que o adultério de Divina só existia na cabeça da moça. Pobre padre José. Nem viu da onde veio o primeiro soco, que estourou-lhe o nariz. Mal conseguiu levantar e tomou outro chute no rosto, dessa vez custando-lhe dois dentes. O tiro, então, ele talvez nem tenha sentido e foi certeiro no peito. A av. Princesa Leopoldina ficou surda no momento. Divina vinha atrás e caiu de joelhos em desgraça.

Com os meses que se passaram, Divina dividia o tempo entre o hospital e o presídio Lemos Brito, para onde Amâncio foi encaminhado depois do julgamento. Não deixou um domingo sequer de visitar o ex-marido. A sorte dele é que sua pena estava reduzida, já que o jovem padre José não morreu. Um milagre salvou o rapaz, depois de sangrar muito na escadaria da igreja. Passou 6 meses no hospital e saiu quase ileso sem nenhuma seqüela, pronto para ocupar o lugar do homem da casa de Amâncio. José e Divina passaram a viver juntos tórridos momentos de amor. Ele, excomungado, estudava letras na universidade e dava aulas de filosofia para pagar as contas. Ela cuidava da casa, como sempre. Mas nunca deixaram, sempre os dois juntos, de visitar Amâncio na penitenciária.

11 comentários:

sandro caldas disse...

Grande Rodrigo...Essas crônicas têm de ser lançadas por alguma editora!
Abraços!

Careca disse...

Gostei. Lembrei do Nelson Rodrigues.

SAMANTHA ABREU disse...

uau!
a acidez...
gosto assim!

beijos!

Flah disse...

Há mais Divinas nessa vida do que semos capazes de contar, querido... e nem precisa ser com padres excomungados ou maridos presos.

Adorei teu texto - envolvente e muito bem escrito.

Obrigada pela visita que me fez há alguns dias e desculpe a demora pra parecer por aqui - agora não me perco mais ;)

Beijão!

Paulo Bono disse...

Almodovar na Bahia.

abraço, carreiro

ana.bravin disse...

Oh Rodrigo assim ate me dá saudade dos contos q eu escrevia. Se te interessar posso mandar algum por e-mail, mas não acho q sao tao bons quanto os seus. Fik com Deus Um abraço

Rodrigo Carreiro disse...

Ana, quem és tu? Tem blog? Sobre os contos, fique a vontade. Meu e-mail tá no blog.

alvarêz dewïzqe disse...

Cara, que história massa, a dona mandando ver com o ex-padre, pode crer.

Larissa Santiago disse...

corno mansoo!!!
[me acabo de rir com esses contos]

vc tah botando pra quebrar Rodrigo!
parabéns e beijoss

Sunflower disse...

Muito bem descrito o seu conto, fico barbarizada com essas pessoas que tem capacidade de CRIAR.

mas, ê aê, vc já é homem?

Rodrigo Carreiro disse...

Alguns dizem que não, mas minha namorada insiste em dizer que sim hahahahahahha