segunda-feira, 21 de julho de 2008

Desilusão

De uma só vez Gorete conseguiu o que muitas mulheres na sua profissão não conseguiam: estabilidade. A antiga empresa em que trabalhava tinha fechado as portas, mas o que parecia ruim a princípio tornou-se uma grande oportunidade de conhecer novas pessoas e seu novo chefe. O nome dele era Charles e ofereceu a Gorete uma boa oferta de trabalho. Ela era prostituta.

No jargão local, toda prostituta tem seu preço. Não, não o preço para ir para cama. Gorete e todas as outras tinham seu preço para mudar de local de trabalho. Se antes ela era mais uma entre tantas dançarinas de um cabaré decadente da orla de Salvador, hoje ela ocupa uma bela mureta na mesma orla, mas num local estratégico de passagem. Não deve a ninguém, e só quem pagou para ela mudar foi Charles, que fica com 30% de tudo o que ela ganhar. Bem melhor do que os 50% que o puteiro anteior tirava dela.

É claro que Gorete não usava seu nome de batismo na luta noturna pela conquista de clientes. Ela era Sybele, assim mesmo com “y”. Aquele novo ponto de trabalho era comandado por Charles, que tinha também quase todos os pontos da orla da Pituba. Era bom para ela, principalmente nos fins de semana, pois sua mureta ficava estrategicamente localizada em frente a um dos maiores puteiros de Salvador. Era valorizadíssimo no mercado. Dizem até que Charles matou dois numa briga somente para ter controle do lugar. Ali era cliente certo. Sybele dava duro todas as noites e quase não tinha dias de folga.

No início alguns até estranhavam, porque a prostituta não tinha um belo corpo e a idade já começava a incomodar. Mas tudo isso ela compensava com seu olhar lascivo e hipinotizante que cativava todos que paravam na rua. E ela dava conta do recado como poucas, tanto é que muitos clientes voltavam para repetir a dose. Charles era um homem de visão.

Em dias movimentados era impossível encontrar Sybele no seu posto e algumas meninas até esboçavam tomar a mureta dela, mas o cafetão estava sempre a postos para proteger o local. Todas as noites Sybele aparecia vestida de forma que todos os homens olhavam para ela, até mesmo distintos senhores que passavam de carro acompanhados das esposas. Era impossível não achá-la linda metida naquele vestido vermelho ou na combinação perfeita da calça apertada e da blusinha escrita “I Love NY” que deixava parte da barriga de fora. No carnaval muitos estrangeiros passavam por ali e não resistiam à beleza morena de Sybele.

Foi numa dessas passagens que Gorete disse a Charles que queria largar o ofício. Macaco velho, o cafetão bem sabia do que se tratava. Aliás, era um risco que ele sempre corria quando uma menina fazia muito sucesso. O assédio de gringos é sempre forte e a oferta para deixar o país é quase inevitável. Como numa história de contos de fadas, depois de três anos trabalhando no mesmo ponto, Sybele criou asas e bateu pra longe dali. Ia para a Itália ao lado de Marriconi, um grande engenheiro que trabalhava numa grande empresa no país da bota.

Charles se viu perdido. Mas Gorete, aposentando o nome de Sybele, estava muito feliz com a mudança. E gostava mesmo de Marriconi, apesar de se incomodar um pouco com seu pênis pequeno. Mas afinal, depois de tantos anos fazendo sexo quase que diariamente, um pênis pouco avantajado não iria sujar seu futuro. E o italiano era bondoso e dava muito carinho a ela. Na Itália, a vida dos dois era muito romântica: viagens pela Europa, bons restaurantes, casa grande e sexo esporádico. Mesmo sem poder ter filhos, Gorete não se abatia.

Os bons 10 anos que passaram juntos foi, como diz o ditado, “eterno enquanto durou”. Nesse tempo todo, eles nunca voltaram ao Brasil e se preparavam para a tão esperada viagem que enfim iria acontecer. Até que Marriconi morreu de um ataque do coração devido a um bem sucedido ménage a trois. Ele não agüentou.
Gorete foi aos prantos e assim ficou por dias, até que a família dele, que a essa altura já sabia do seu passado, não pensou duas vezes em deixá-la com a mão na frente e outra atrás. Mandou a ex-prostituta de volta ao Brasil sem que ela tivesse chance de reação. E sem nada no bolso a não ser desilusão.

O desembarque foi triste. Tudo tinha mudado, até o nome do aeroporto, que era agora chamado por um nome esquisito de alguém que ela não tinha a mínima idéia de quem era. Com poucos trocados no bolso, Gorete tentou voltar a seu velho bairro, mas agora era quase tudo pó ou condomínios intermináveis e de uma mesma cor. Tinha muito mais gente na rua e muito mais dor.

A única saída era esperar à noite e torcer para que Charles ainda estivesse tomando conta do local. Mas não, não estava. Ela descobriu quando voltou à sua velha pituba pela noite e não reconheceu nenhuma das meninas que faziam ponto nas redondezas. Só se lembrava de Zé, um velho guardador de carro que permanecia firme na profissão. Foi ele quem disse que Charles já não mandava ali fazia tempo, “desde que botaram mármore na calçada”, disse. Ela olhou para o chão e entendeu, mesmo que melancolicamente.

Nos meses seguintes ela penou, mas conseguiu sobreviver. Claro, teve que voltar à sua velha profissão de prostituta, mas agora aliando-se a gente muito duvidosa. Sentia saudades de Charles toda noite. Ontem ela não foi para cama com ninguém. O mesmo que vem ocorrendo desde o mês passado, quando o movimento caiu bastante. Mas ela todo dia está lá. A velha mureta? É ela mesma, mas hoje pouco valorizada pelo fato de que não há muita coisa boa por perto. Nem puteiro, nem casa de jogos, somente um bar decadente. Nas noites de chuva nem tem mais onde se esconder e sua única companhia é uma lata diária de Coca-cola light.

6 comentários:

Mwho disse...

Que final deprê...
Dê uma chance para ela!
Gostei do comentário em relação ao nome do aeroporto!

Ana B. disse...

Oi Rodrigo, vim te visitar e me deparo com esse texto. Coisa boa! Gorete eh um personal tao real... Hoje em dia os autores procuram essa realidade perturbadora, essas desilusões. Gostei muito. Eh sempre muito bom passar aki, na Terra de Ninguem ;)

Bruno Porciuncula disse...

Muito bom! Que menage da porra, chegou a matar o cara! Bem que Gorete poderia ter ficado com uma graninha do italiano.

Mas passei aqui crente que iria encontrar uma homenagem pelo 1o aniversário da morte de ACM! heheheh

abração!

Celine disse...

Ó vida!
Sybele merecia pelo menos u pedacinho da herança do gringo do pau pequeno.

Careca disse...

Rodrigo, Charles marcou bobeira e foi tirar, sem querer, férias numa colônia penal, aí os malandros otários, deitaram na sopa, e uma tremenda bagunça, o nosso morrou virou...(Charles Anjo 45) Abç,

Marcela disse...

vc e seus finais tristes... nuncavi uma pessoa gostar tanto deles como voce!!! =/

beijo!!!